Bahia: Carnaval 2008 – Homenagem à capoeira toma uma rasteira
06 Fev 2008

Bahia: Carnaval 2008 – Homenagem à capoeira toma uma rasteira

  Homenagem à capoeira toma uma rasteira (Especial Carnaval 2008 – Correio da Bahia) Foram raras as manifestações que seguiram o tema

06 Fev 2008

 

Homenagem à capoeira toma uma rasteira
(Especial Carnaval 2008 – Correio da Bahia)

Foram raras as manifestações que seguiram o tema ‘Capoeira e suas culturas aparentadas’, o que gerou reclamações de mestres, praticantes e especialistas

Desde a repressão no período colonial e a marginalização a partir do ano de 1890, quando foi considerada crime, a capoeira sempre se esquivou das dificuldades, graças à mandinga dos seus praticantes, como aconteceu este ano, quando foi eleita como tema do Carnaval. Mas escolhida para representar a folia momesca através de uma votação popular, a mistura de luta e dança não teve espaço e nem apoio dos poderes públicos durante a festa, criticaram mestres, alunos e especialistas. Para muitos adeptos, a arte criada pelos escravos brasileiros acabou sendo novamente excluída.

Com o tema Capoeira e suas culturas aparentadas, os governos municipal e estadual pretendiam homenagear a luta durante o período do Carnaval. Mas mestres, praticantes e especialistas reclamaram que a presença da capoeira na festa foi ínfima. A participação se restringiu apenas ao desfile do Bloco da Capoeira, o Mangangá, que recebeu patrocínio de cerca de R$50 mil dos poderes públicos, enquanto a decoração com o tema foi limitada apenas ao Pelourinho.

A falta de decoração com símbolos e ícones da capoeira nos outros circuitos do Carnaval, a pequena quantidade de apresentações durante a festa e o descaso com os mestres mais importantes, que não receberam qualquer tipo de homenagem, são as principais reclamações contra os poderes públicos. Segundo o cantor, compositor e também mestre de capoeira Tonho Matéria, único que recebeu apoio do governo e da prefeitura, a maioria dos mestres está revoltada com o tratamento dado à capoeira pela organização da folia.

Matéria disse que os capoeiristas esperavam homenagens aos mestres considerados mais relevantes, com fotos deles espalhados pelos circuitos, além de cartazes com informações sobre a história da capoeira e sua importância cultural. Mas quem foi à festa momesca, não viu sequer cartazes com desenhos de berimbau, nem no circuito Osmar (Campo Grande), nem no Dodô (Barra-Ondina), onde a decoração era responsabilidade da prefeitura. A exceção ficou por conta do Pelourinho, que foi ornamentado com fotos e temas da capoeira através do Pelourinho Cultural, ligado à Secretaria de Cultura do Estado (Secult).
A Empresa de Turismo de Salvador (Emtursa) alegou falta de recursos e de tempo hábil para executar o projeto de decoração.

Reginaldo Santos, presidente do Conselho do Carnaval, admitiu que o órgão não teve capacidade de pagar R$1,5 milhão para decorar da cidade, no orçamento feito pela Associação de Artistas Plásticos da Bahia. Já o presidente da Emtursa, Misael Tavares, alegou que não houve tempo de realizar uma seleção pública para escolha de um projeto e nem possibilidade de fazer uma dotação orçamentária.

 

 

Descaso com os mestres

Capoeiristas classificaram como um descaso com a cultura baiana o tratamento dado pela prefeitura à capoeira. Vivaldo Conceição, batizado como mestre Boa Gente, considerou um desrespeito à cultura negra, a pequena participação e pouca divulgação do tema durante o Carnaval. “Só porque o prefeito é evangélico, ele é contra a negritude do povo dessa cidade, isso é muito triste”, desabafou. Ele reclamou também sobre a falta de homenagem para os mestres mais representativos como João Pequeno de Pastinha, Curió, Boca Rica, Decânio, Pelé da Bomba e outros.

“Nós não queríamos dinheiro, queríamos reconhecimento, além de palcos para a gente se apresentar, divulgando a capoeira”, explicou Boa Gente. Ele acrescentou que alguns grupos de bairro pediram transporte ou ajuda de custo para chegar até locais onde se apresentariam, mas não foram atendidos. Vivaldo contou que até o carro para levar o mestre João Pequeno para receber uma homenagem num hotel da cidade foi negado.

“João Pequeno abriu mão do cachê, mas quando pediu transporte para ele e mais dois acompanhantes, disseram que não tinham, isso é um absurdo, ele tem 90 anos e é um dos mestres vivos mais importantes para a capoeira”, comentou Boa Gente. Para ele, os cantores de bloco e a imprensa também são culpados. “Você não vê ninguém sequer falando sobre o tema do Carnaval, nem cantores, nem os jornalistas. Durval Lelys veio vestido de caubói, Xanddy de comandante, mas ninguém sequer usou as roupas tradicionais da capoeira, que é da nossa cultura”, reclamou.

Alguns blocos afros tiveram capoeiristas se apresentando, além do Bloco da Cidade, organizado pelo Secretaria Estadual de Cultura, que teve uma roda durante seu desfile. A mistura de jogo e dança também apareceu em manifestações populares espontâneas, como na Mudança do Garcia, na segunda-feira e nas ruas situadas à margem dos circuitos oficiais. Na opinião do praticante e estudante de sociologia Eduardo Castro, a capoeira acabou sendo novamente “guetificada”, mas como nasceu no gueto, se reencontrou com sua essência, conseguindo se “levantar da rasteira” e dar a volta por cima.

Funcionários celebram Jorge Amado

Homenageando o escritor baiano Jorge Amado, o Bloco da Cidade, organizado pela Secretaria Estadual de Turismo (Setur), desfilou do Campo Grande até a Praça Municipal, puxado pela cantora Margareth Menezes, no domingo à noite. Cerca de dois mil funcionários públicos e alguns seletos convidados da Setur saíram fantasiados de personagens da obra jorge-amadiana como Gabriela, Tieta, Vadinho, Dona Flor e outros. Teve até um carro alegórico representando o bordel Bataclam, com bailarinos do Teatro Castro Alves vestidos de coronéis do cacau e dançarinas de cancan, freqüentadores do prostíbulo ilheense na vida real, transformado em ficção pelo autor.

O Bloco da Cidade contou também com alas de pierrôs, baianas e uma roda de capoeira. Teve ainda uma participação especial do cantor e compositor Mateus Aleluia, ex-integrante do grupo vocal Os Ticoãs, que se notabilizou na década de 60, como o primeiro conjunto a tocar e gravar músicas de candomblé para o grande público.

Margareth Menezes já entrou no palco oficial, por volta das 21h, fazendo um dueto com o cantor Mateus Aleluia, interpretando a música Cordeiro de Nanã, do grupo Os Ticoãs. Em seguida, a cantora fez uma pausa para reverenciar o colega de profissão e ressaltar a importância de homenagear Jorge Amado e executou a canção A luz de Tieta, de autoria de Caetano Veloso e tema do filme de Cacá Diegues, baseado na obra do escritor.

A ala dos Pierrôs de Plataforma abriu o desfile com brincadeiras de rodas, seguidos por um grupo de cerca de 50 baianas, enfeitadas com seus torsos brancos de renda e girando as saias rodadas coloridas. A baiana Sandra Maria de Jesus, que disse ter sido convidada através da Associação das Baianas de Acarajé (ABA), para participar junto com outras colegas do subúrbio ferroviário, destacou a importância da presença das baianas no desfile de Carnaval como forma de preservação da nossa cultura. “Aqui têem baiana de acarajé, de receptivo e de axé” (candomblé), explicou.

Logo atrás uma roda de capoeira trazia ginga e o toque do berimbau para o desfile. Em seguida, veio uma ala de pessoas vestidas com camisetas que traziam a frase “Amigos de Jorge” estampada no peito, mas com poucos ou nenhum amigo do escritor presente, apenas figurantes portando sombrinhas de frevo.

Em cima do trio elétrico, o cantor baiano Edu Casanova e o forrozeiro Targino Gondim acompanhavam o desfile como convidados de Margareth. O secretário de turismo, Domingos Leonelli, e sua colega de partido, a deputada Lídice da Mata, também estavam presentes. Leonelli lamentou a ausência de parentes de Jorge Amado, mas justificou dizendo que a presença não foi possível em função do horário do desfile do bloco, porque familiares do escritor tiveram que embarcar, mais cedo, num vôo para o Rio de Janeiro.

A voz do folião

ALEX SANTOS, 28, CABELEIREIRO – “Eu acho sim. Passei três dias no circuito Barra-Ondina, dois no bloco e um na pipoca, e aquilo lá está muito cheio. É preciso encontrar um novo
espaço para comportar
esse número de pessoas”.
Alex Santos
28, cabeleireiro

Confetes

O PRAIEIROS em Casa, o camarote do Jammil, reuniu muita gente bonita. O espaço ambientado funcionou de sexta a domingo, embora na quinta-feira tenha aberto as portas para o baile infantil. Apenas uma coisa precisa mudar no camarote restrito para convidados, cujos R$100 da adesão são revertidos para o Projeto Axé: a alimentação. Os salgados e os picolés não saciavam a fome dos presentes, após farta bebida, e os sanduíches eram distribuídos em intervalos de uma hora e meia. Logo, a longa fila se formava e sobravam reclamações.

COMO MUITOS dos patrocinadores dos blocos não coincidem com os da organização do Carnaval, a briga para patrocinar os artistas e espaços mais expostos na mídia foi forte. Bancos, empresas de telefonia e companhias de bebidas lutaram forte para seduzir clientes de peso. Os provedores de internet e as montadoras de veículos também estiveram envolvidas em algumas disputas.

A GERÊNCIA de Táxi da Superintendência de Transporte Público (STP) criou uma tabela de preços para tentar diminuir as queixas sobre valores das corridas serem fixados arbitrariamente por alguns taxistas, sem levar em conta o taxímetro. Se a medida causou rejeição quando oficializada, era evidente a pequena chance de vingar no Carnaval. Pois os taxistas ignoraram solenemente a tabela e tudo funcionou como antes. Com o passageiro reclamando e o preço sendo resolvido cara a cara. A falta de fiscalização adequada dá nisto.

DESDE o domingo de Carnaval, a manutenção dos banheiros químicos deixou a desejar nos circuitos Dodô e Osmar. Além do mau cheiro, em alguns locais o aspecto de sujeira denunciava que, provavelmente, não estaria existindo a limpeza adequada. Teve muito folião que preferiu pagar R$1 e usar o sanitário dos bares próximos aos corredores da folia.

NO EMBALO do sucesso do filme Tropa de elite, o humorista Tom Cavalcanti lançou a paródia Bofes de Elite, quadro do programa que comanda na televisão. Pois, na madrugada de domingo, entre o Camarote de Daniela Mercury e o Praieiros em Casa, o camarote do Jammil, um grupo de jovens malhados trajava a roupa preta com detalhes em rosa do “esquadrão”. Os bofes fizeram sucesso absoluto e acabaram fuzilados por olhares. Muitas mulheres não resistem a alguns homens fardados, como tampouco alguns homossexuais.

 

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