Portugal, Nordeste Transmontano: A roda da vida
29 Jun 2006

Portugal, Nordeste Transmontano: A roda da vida

Uma ótima surpresa foi ler a matéria publicada no Mensageiro de Bragança, repeitado jornal da região do Nordeste Trasmontano, onde descubro maravilhado a

29 Jun 2006
Uma ótima surpresa foi ler a matéria publicada no Mensageiro de Bragança, repeitado jornal da região do Nordeste Trasmontano, onde descubro maravilhado a presença de um camarada que está desenvolvendo o seu trabalho nesta isolada região. António Faria, natural do Recife e conhecido nas rodas capoeiristicas como “Pernalonga”, é o nosso mais novo vizinho e companheiro de capoeiragem.
Acredito que este é um fator muito positivo para a capoeira e para os praticantes desta região, pois todos sabemos a importancia do intercambio e das vivências inter grupos para o crescimento sadio e natural do capoeirista.
 
Seja bem vindo Pernalonga, muito sucesso, paz e saúde!!!
 
Luciano Milani

Nordeste Transmontano
A roda da vida 
 
Batem palmas, cantam em português histórias do passado e do presente, ao ritmo do som do berimbau, do atabaque e também da pandeireta, numa dança e luta que “não está na moda, está na vida” 
  
Mais do que uma luta, a capoeira é hoje também dança, música e história. É uma arte desportiva genuinamente brasileira que, de dia para dia, cativa cada vez mais jovens brigantinos, passando uma mensagem de vida, tal como ela é, na luta do dia-a-dia.
Aproximadamente há cinco anos, António Faria, natural do Recife e conhecido nas rodas capoeiristicas como “Pernalonga”, decidiu implantar em Portugal a arte da capoeira, trazendo consigo toda uma cultura brasileira. O norte do país foi o escolhido para criar a Associação Arte Nossa, uma associação sem fins lucrativos, com sede no Porto e filiais em várias cidades. Bragança foi uma das escolhidas, no ano passado, para implantar a capoeira, sobretudo pelo intermédio de “um aluno que falou na cidade”.
 
Ao fim de um ano, a resposta dos brigantinos foi claramente positiva. A falta de oportunidades, a nível desportivo, assim como a distância, em termos de acessibilidades, às grandes cidades, ajudam a compreender a motivação dos brigantinos para a prática da capoeira. Mas não se esgotam nesses argumentos.
“Aqui, no Nordeste Transmontano, as pessoas são muito calorosas e alegres, mais do que no sul de Portugal. Têm um espírito algo semelhante ao do povo brasileiro”, explicou Jhony Lima, conhecido por “Avestruz”, também natural do Recife e a viver há um ano na cidade.
 
Talvez por isso, Bragança seja também das cidades onde a Associação Arte Nossa tem mais praticantes, cerca de 50. O elevado número de praticantes foi motivador da organização de um festival de capoeira na cidade, realizado no fim-de-semana passado. Ao mesmo tempo serviu para promover o intercâmbio entre alunos e realizar os baptismos de capoeira. A Associação escolheu ainda a cidade como palco para a gravação de um DVD didáctico sobre a capoeira.
 
Durante dois dias, vieram de todo o Norte capoeiristas que mostraram a arte a toda a cidade, pese embora as dificuldades de patrocínios, já que as entidades ainda não estão “sensibilizadas para as potencialidades deste desporto”.
“Para quem assiste, de facto, a capoeira pode parecer algo violenta e complexa de praticar, mas não é assim”, explica o contra-mestre.
A luta está sempre presente, até pelas suas origens – desenvolvida pelos escravos do Brasil como forma de resistir aos opressores, praticada em segredo e recorrendo à “ginga”, movimento que lembra a dança e à música, para assim “enganar” os patrões.
“Respeito, malícia, disputa, brincadeira” são elementos presentes durante o jogo onde as canções são marcadas ao ritmo do berimbau. Quem entra na roda para jogar, sabe que é uma luta de resposta e contra-resposta, em golpes que podem ter graves consequências, mas que, actualmente, são apenas marcados e não concretizados. Ainda assim, diz-nos quem pratica que “é melhor apanhar na roda do que na rua”, já que tudo começa e acaba entre amigos, com um aperto de mão.
 
Hoje, seguindo a tradição, ao som do berimbau, do atabaque e do pandeiro, cantando histórias do passado e do presente, os capoeiristas ensinam aos alunos mais do que um desporto, uma filosofia de vida, levando a língua portuguesa a todo o mundo.
“A capoeira não está na moda, está na vida, é uma lição de vida”, diz-nos “Pernalonga”. O respeito por cada pessoa, a transmissão de valores, de cultura, e de regras, são algumas das características inerentes a este desporto, “ideal para ser praticado por qualquer pessoa”.
 
Nas rodas não há diferenças, “pobre ou rico, negro ou branco, na capoeira é tudo pé no chão”. É onde muitos jovens encontram apoio e carinho para ultrapassar as dificuldades da vida.
 
Na sede da Associação, no Porto, “Pernalonga” conseguiu implantar o que se designa por terapia através da capoeira – “capoterapia”, com o Centro de Reabilitação da Granja.
A representante do centro, presente no festival, reuniu mesmo, a título informal, com o representante do Centro de Educação Especial de Bragança, testemunhando os casos de sucesso com jovens problemáticos que a capoeira conseguiu reabilitar.
A espectacularidade dos movimentos e a própria complexidade do desporto podem criar barreiras nos que estão de fora, mas são vários os exemplos dos benefícios da prática da capoeira.
“Pernalonga” fala-nos, a título de exemplo, de um jovem proveniente de uma família toxicodependente, que, actualmente, é “um excelente desportista, integrado novamente em sociedade e já conseguiu emprego numa empresa”.
Não só com jovens problemáticos, mas também com pessoas com necessidades especiais, a nível físico ou mental, a capoeira, garante Pernalonga, “é uma terapia de vida”.
“Os tetraplégicos, por exemplo, podem praticar este desporto, jogando com as cadeiras e exercitando a parte superior do corpo”.
Já a nível pessoal, a capoeira é um desporto que, por ser praticado em grupo, ajuda a vencer a timidez e determinados receios psicológicos que possam existir na relação com os outros.
 
A arte como profissão é outra das vertentes que está desaproveitada em Portugal. “Pernalonga” conta que actualmente tem “importado” do Brasil pessoas que possam ensinar capoeira, mas a meta é investir ao máximo no aluno.
“A dificuldade é que a capoeira requer muito tempo e treino intensivo de no mínimo seis anos”, conta, baseado na própria experiência de 18 anos de prática que apenas lhe permitem a hierarquia de contra-mestre.
Para já, a próxima meta da Associação Arte Nossa na cidade passa pela implementação da capoeira nos centros de reabilitação e nas juntas de freguesia para que “todos possam ter a oportunidade de praticar um desporto que trabalha o corpo, a alma e o coração”.
 
 

Leave a comment
Mais Artigos
comentários
Comentário

3 × three =