Capoeira – de fundo do quintal à gloria mundial
21 Fev 2005

Capoeira – de fundo do quintal à gloria mundial

CA P O E I R A G E M – Da "Volta do Mundo" no fundo de um quintal paulista à 

21 Fev 2005
CA P O E I R A G E M – Da "Volta do Mundo" no fundo de um quintal paulista à  "Volta ao Mundo de Meu Deus"
 
"O que é isto meu amor
Venha me dizer
Isto é Fundo de Quintal
É pagode (Capoeira?) pra valer"
 
 
 
Assim seria a versão de um dos sambas da grande compositora mangueirense (Grêmio Recreativo Estação Primeira da Mangueira, Rio de Janeiro) Leci Brandão (foto, à direita) , caso tivesse passado pela Rua Comendador João Gabriel, 56-fundos, Bairro Mirandópolis, no ano de 1965, São Paulo.
 
 
Acontece que naquele endereço, mais precisamente no quintal, a céu aberto da casa de dona Alice Furtado Pinat (Mãe de Mestre Pinatti), estava se formando um dos primeiros grupos de Capoeira paulista.
 
Tratava-se na verdade de um espaço cedido pela família dos Pinatti – tradicional família italiana que veio da região de Ribeirão Preto para a capital paulista " para que um de seus filhos, o Djamir, juntamente com seu novo amigo Reinaldo, fundasse a "Academia de Capoeira Regional de Elite de São Paulo".
 
Mestre Pinatti " ou mais precisamente Pinat " guarda com carinho uma carteirinha remanescente daquela época, sendo que a mesma ilustrará o livro que ele está escrevendo sobre a Capoeira Paulista. Conhecendo-o bem, como estou aprendendo a faze-lo, certamente o título deverá ser algo como "Capoeira Paulista " do Fundo do Quintal ao Fundo da Alma".
 
No seu livro, de maneira emocionada, Pinatti começa contando como foi sua iniciação na Arte da Capoeiragem. Com detalhes preciosos que vão surpreender o mundo, como, por exemplo, a o perfil do seu primeiro parceiro na ousada empreitada, um jovem chamado Reinaldo, de sobrenome Ramos Suassuna, hoje, mundialmente conhecido como Mestre Suassuna.
 
Na ocasião Pinat trabalhava em um banco, e convenceu a família a permitir que alguns amigos se reunissem, duas ou três vezes por semana, para aprender, com eles, as artimanhas da Capoeiragem.
 
Suassuna, de maneira apaixonada, era o responsável por grande parte dos treinos. Estivesse frio ou calor, lá estava ele e os alunos treinando e se aperfeiçoando na rasteira, na cabeçada, no e na armada. Exímio jogador e também grande na cantoria.
 
Até em dia de chuva, lá no quintal, estavam os intrépidos capoeiras. Para não perder tempo, eles se protegiam na entrada de uma das portas da casa, onde, numa parte coberta tinha um tanque de lavar roupa, e ali ensaiavam toques de berimbau e pandeiro e ensaiavam cantos de capoeira. Cessando a chuva a roda recomeçava.
 
Vez ou outra, apareciam convidados especiais, grandes capoeiras como Paulo Gomes, Paulão, Marcão, Lopes, Brasília, Zé de Mola e outros. Nomes que, diga-se de passagem, merecem também um espaço próprio.
 
Em outras ocasiões, parte do grupo, normalmente sob o comando de Suassuna e do próprio Pinatti, caiam para as bandas do Brás (Rua Bresser), onde iam visitar a "academia" do Mestre Zé de Freitas, ou então testavam suas capoeiras na academia do Mestre Waldemar Alfaiate " vindo do Rio de Janeiro, com academia na Rua Bela Cintra, Bairro do Bexiga.
 
Mestre Zé de Freitas, aliás, que hoje vive em Alagoinha, na Bahia, é um dos pioneiros da Capoeira em solo paulista e merece ser devidamente entrevistado, tendo seus depoimentos documentados para que parte da Memória da Capoeira Paulista não se perca com o tempo. Chegaremos lá.
 
Este "modelo de treinamento", registre-se, não é, nem foi exclusividade paulista. A bem da verdade, esses tipos de treinos aconteciam bem antes da era das Academias de Capoeira. O uso de locais improvisados para treino e rodas foi comum nos tempos antigos. Senão, vejamos.
 
Mestre Waldemar da Liberdade tinha seu Barracão de Capoeira Angola (década dos 50), onde mestres como Nagé, Traira e o próprio João Grande vadiavam nos finais de semana, mormente nos dias de domingo e dias santos.
 
Antes disso, no Rio de Janeiro, o saudoso Mestre Sinhô (o paulista-carioca Agenor Sampaio), natural de Santos, conhecido também, simplesmente como Sinhozinho, formava alguns campeões em diversas modalidades de luta e/ou esportiva.
 
André Lace, em seu livro "Capoeiragem no Rio Antigo" (2002) relata que, nos idos de 1930, Sinhozinho preparava seus alunos em um terreno baldio, improvisando equipamentos de forma simples e engenhosa. Por exemplo, um cabo de vassoura com um sapatão acoplado na base transforma-se em perfeito equipamento para se treinar e aperfeiçoar as entradas e saídas das rasteiras.
O mesmo livro, registra a importância do livro de Zuma Burlamaqui (1928), o confronto do campista Cyríaco Macaco Velho (1909) , e o misterioso livro de ODC (1907)
 
Voltando à atualidade paulista, dia desses, Suassuna e Pinatti, ambos consagrados pela excelência de seus trabalhos e pelas incessantes lutas pela causa Capoeira, tiveram um encontro inesperado no saguão do aeroporto de Guarulhos. Suassuna estava regressando de Israel. Pinatti indo para uma de suas freqüentes viagens internacionais, talvez Amsterdã.
 
Mestre Pinatti, em tom emocionado, comenta ao colega das antigas: "Suassuna, você já parou para pensar que daquele quintal da… você e eu alcançamos fama e glória com nossa Capoeira?".
 
E mais ainda, que se imortalizariam na História da Capoeira Paulista!
 
 
Capoeiristicamente,
 

Na foto: Mestres Pinat & Limão, Praça da República, 1969.
 
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