Capoeiranato e a Ponte Leblon & Jarinu
05 Fev 2007

Capoeiranato e a Ponte Leblon & Jarinu

Não basta você escolher a Capoeira, é importante que também a Capoeira escolha você! O sr. Wandenkolk Manuel de Oliveira é mais

05 Fev 2007
Não basta você escolher a Capoeira, é importante que também a Capoeira escolha você! O sr. Wandenkolk Manuel de Oliveira é mais radical pois defende que “você não escolhe a Capoeira, A Capoeira é que escolhe você”.
 
A julgar pela própria trajetória de vida do senhor Oliveira, ninguém poderá dizer qual das duas frases é a mais acertada.
 
E nem teremos aí um impasse relevante, como extremamente relevante tem sido, relevem a repetição, a vida do senhor Oliveira, que poucos conhecem; o que já não acontece se o apresentamos com o seu nome de batismo no Mundo da Capoeira: mestre Preguiça. Um dos pioneiros do Grupo Senzala, do Rio de Janeiro, peça fundamental para divulgação do estilo “Regional”, atualmente trabalhando em parceria com o angoleiro Mestre Mola.
 
Depois de reveillon muito especial, quando fomos surpreendidos por rápida, mas fraterna visita do Cel. Elton Neves (Queixada) e a sua simpática esposa Dora, dias depois, tivemos o prazer de receber para longa e proveitosa conversa, o senhor mestre Preguiça.
 
Vejam a coincidência, Elton Queixada foi aluno de Preguiça.
Esperava um Preguiça envelhecido, afinal, não o via desde 2001, quando estive em São Francisco, Califórnia, e o vi quase ofendido por eu não aceitar seu generoso oferecimento para ficar hospedado em uma de suas casas (era muito longe da “muvuca” e minha família, com toda razão, exigiu hospedagem em ponto mais central).
 
Preguiça, realmente, pouco envelheceu, em grande parte pela dieta quase religiosa que segue. Mas amadureceu, e muito, apresentando planos que merecem todo tipo de admiração e apoio.
 
Mestre Preguiça, um capoeira nato, simplesmente pensa construir e administrar em Natal, no Rio Grande do Norte, uma casa muito especial para crianças de rua. A educação, em grande parte, será através dos ensinamentos da capoeira-gem – fundamentos, música e prática. Teremos, pois, um orfanato muito especial, idealizado e administrado por um capoeira nato, um verdadeiro capoeiranato (minha sugestão para batizar a nova casa-missão de Preguiça).
Para tanto, com toda razão, Mestre Preguiça vai procurar resgatar a verdadeira História da Capoeira, até agora, como todos sabem, muito mal contada, com muita fantasia, marketing desmedido, malversação de verbas públicas, fundamentos embranquecidos e aburguesados, falastrões e falsos valentões, ritmo e canto desembestados, vacilações éticas, regionalismos, corporativismos…
 
Não por acaso, esse quadro volta a ser o mote principal da nova Apresentação para a terceira edição do meu cordel, que sai agora em janeiro de 2007. Não por acaso, também, esse mote foi o pano de fundo permanente do Jornal da Capoeira, durante muito tempo editado pelo doutorando Milton César Ribeiro. Mais conhecido como Miltinho Astronauta, atualmente exclusivamente dedicado ao seu doutorado, mas, certamente para relaxar, desenvolvendo seu lado de pintor. Como prova recente foto que recebi, lembrando alguma coisa do Impressionismo, especialmente, salvo engano, Paul Cezánne. Confira você mesmo, leitor.
 
Mas, voltando ao mestre Preguiça, quem pagará essa conta, quem patrocinará o interessante projeto sócio-capoeirístico do sr. Wandenkolk que, além de capoeira, é professor de educação física, formado em Direito? Muito simples.
 
O caramanchão em Natal será um misto de orfanato e retiro do guerreiro solitário Preguiça, que, entretanto, não abrirá mãos de continuar percorrendo o mundo, supervisionando as dezenas de grupos que andou criando ao longo de sua vida de professor de educação física, advogado e mestre de capoeira. Começando certamente por San Francisco da Califórnia, Preguiça continuará pelos cinco continentes, visitando periodicamente seus alunos graduados que estão ensinando a fascinante Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem pelo mundo afora.
 
Com toda razão Preguiça emocionou-se quando passei para ele alguns registros do passado (em DVD), especialmente a filmagem que mestre João Grande teve a gentileza de fazer documentando uma de minhas visitas a sua famosa academia em Manhattam, Nova Iorque. É que nesse filme jogo um pouco com João e, para compensar meu “jogo de turista”, tratei de inserir pequeno trecho de velhíssima filmagem feita de uma roda de Capoeira em plena rua do Rio de Janeiro. Nessa inserção é possível apreciar uma “vorta do mundo” de Preguiça, simplesmente, com André Lace. Uma raridade, portanto, que Preguiça levou, de presente, para seu apartamento também aqui no Leblon.
 
Durante a conversa, embora não esteja muito enfronhado, tratei de passar para mestre Preguiça algumas idéias e algumas sugestões para pleitear apoio financeiro dos governos brasileiros (municipais, estaduais e, sobretudo, federal). Apoio que alguns “mestres” de capoeira sabem explorar muito bem.
 
Entendo, por exemplo, que Preguiça poderia e deveria pleitear apoio para o lançamento de uma versão brasileira do livro que publicou nos Estados Unidos (foto).
 
Relembrando alguns nomes da capoeiragem, antigos e recentes, Preguiça demonstrou exemplar comportamento ético, elogiando quase todos e, mandingueiramente, silenciando sobre alguns. Sem citar nomes, e com razoável bom humor, comentamos sobre os “mestres-mercantis” (algum com problema de prestação de contas, aqui e no exterior), sobre os “mestres-plagiadores”, sobre os “mestres-falso-valentões” e sobre “os métodos confusos de ensinamentos” utilizado por parte desses mestres. Aproveitei para voltar a recomendar os dois projetos básicos que, há décadas, preparei e continuo a recomendar como de fundamental importância para a Capoeira e para os capoeiristas.
 
Comentamos, finalmente, fora do Mundo da capoeiragem, o mundo da burocracia, particularmente no que tange ao registro de filhos de brasileiros nascidos no exterior. Passei por essa roda kafkaniana, décadas atrás, por causa de minha filha Daniela, nascida em Nova Iorque, e Preguiça está sofrendo na carne agora, em função de esforço similar par registrar um de seus filhos.
 
Que 2007 seja o ano de mestre Preguiça realizar esse seu elogiável projeto Capoeiranato, sem dúvida, um retrato social amadurecido de sua própria vida.
 
Ponte Leblon & Jarinu
 
O artigo já estava pronto quando decidimos realizar  meteórica, mas extremamente importante e lucrativa viagem a São Paulo. O que nos permitiu pernoitar em São José dos Campos e conversar com o doutorando Miltinho Astronauta, um dos maiores pesquisadores de  capoeira da atualidade, já mencionado acima.  Sempre acompanhado de sua simpática e inteligente Keila Brilhante, Milton teve por bem interromper seus estudos por um tempo. Vamos ao breve relato da viagem.
 
Finalmente foi reconstruída a Ponte Leblon & Jarinú, cidade paulista que, segundo dados da Unesco, é dona de um dos melhores climas da terra, além de possuir um hotel cinematográfico – Paradies – que recomendo.
 
Em Pontexistencial histórica (utilizando expressão de André Freire) estamos chegando de lá. Viagem curta, mas intensa, que relatarei oportunamente. Mas posso e devo adiantar que meus livros e artigos sobre capoeiragem já estão em mãos competentes e correndo o mundo. Menciono essa viagem, então, mais pelo pernoite que fizemos em São José dos Campos, onde, mais uma vez, tivemos o casal Miltinho & Keila como cicerone na cidade.
 
Para desespero das respectivas esposas, como sempre a conversa girou sobre capoeiragem, valendo destacar para os leitores, os pontos nucleares que foram abordados e que merecem aprofundamento de todos nós:
 
1. Discussão sobre o Livro “O Selvagem”;
2. O Retrato Falado de Juca Reis – finalmente! – público em Jornal da época;
3.  O texto de Carmem Lemoine sobre a prisão de Juca Reis;
4. Carta do Conde Matosinho revelando que o verdadeiro motivo da prisão de Juca Reis pelo Delegado Sampaio Ferraz, foi uma namorada que aquele tirou desse;
5. Ao visitar o Museu Espacial da Aeronáutica, considerando que Santos Dumont viveu na mesma época de Cyriaco, especulou-se sobre a possibilidade do golpe “Vôo do Morcego” ter nascido de uma conversa entre os dois. Concluiu-se que, brevemente, a famosa “máfia”  explicará o que realmente aconteceu.
 
Enquanto conversávamos, aqui no Rio de Janeiro estava ocorrendo – espero eu – marcante mobilização da capoeirada carioca e fluminense, tendo como objetivo principal tomada de posição em relação ao Pan Americano de 2007. Assunto da próxima crônica.
 
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