O Elo Perdido – Parte 1
09 Mar 2007

O Elo Perdido – Parte 1

"Porque o mundo ainda é uma grande senzala"  O Elo Perdido! Há alguns anos (agosto de 1977) chegou em um Orfanato em Florianópolis,

09 Mar 2007
"Porque o mundo ainda é uma grande senzala"
 
O Elo Perdido!
 

Há alguns anos (agosto de 1977) chegou em um Orfanato em Florianópolis, um capoeirista. Não tinha projetos escritos, estilo definido, desprovido de estatutos e graduações. Portava um berimbau, um lindo dobrão dourado e espírito… Ainda me lembro! Nos ensinava para além capoeira física. Nos tratava como filhos, nos respeitava. Foram singulares, imprescindíveis seus ensinamentos. Naturalmente chamávamos de Mestre.
 
Tive esse privilégio! Ensinou-me o suficiente, dando-me base para que seguisse com minha busca, que já é de natureza pessoal. Mesmo inconsciente, passou-me espírito e uma causa. Éramos um grupo de crianças carentes em um orfanato. Sentia, que éramos todos importantes. Nos treinos havia autoridade, mas não autoritarismo. O grupo existia em função das pessoas, e não o inverso.
 
Após uns quatro anos, tudo mudou. Já não éramos tão importantes. Os treinos passaram a ser autoritários. Passamos a ter projetos, regras, estilo, estatutos, linhas de frente, regimento interno… Sem nos consultar, o Mestre havia feito uma escolha. Mudou radicalmente sua forma de ensinar, perdendo sua identidade, e afastando o espírito. Nessa nova vertente não havia espaço para o questionamento.
 
A capoeira passou a ser algo alienante, onde já aprendíamos por métodos e sequências pré-estabelecidas. Mudou radicalmente o objetivo do trabalho. Não se forjou mais guerreiros livres, pensadores, andarilhos, tocadores, resistentes, e sim soldados sem causa. A instituição passou a ser mais importante do que as pessoas. Passou a ser uma empresa, com projeto de expansão. Formando professores da noite para o dia, com cerimônias de batismo, outorgando graduações aos precoces professores sem o mínimo conteúdo. Fazendo um desserviço à vida das pessoas, e o que é pior, usando o nome da capoeira. Sendo a capoeira uma arte de sociabilização, onde o objetivo é que as pessoas interajam, se comuniquem, independente de rótulos, grupos, encontrando no camarada aquilo que nos falta ou sobra, as diferenças se completam. Nessa nova vertente, os outros grupos eram tidos como inimigos.
 
Fomentou-se uma guerra física e cultural contra os supostos rivais, desencadeando uma série de inimizades gratuitas sem precedente. Sendo que essa guerra era para ser travada contra os reais inimigos. Para que os "soldados" estivessem mais preparados fisicamente, somente fisicamente, foram enxertadas dentro da capoeira outras lutas, descaracterizando completamente o jogo da capoeira na roda, e os objetivos culturais para vida. Onde a maldade substituiu a malícia, a brutalidade substituiu a arte, o barulho e a gritaria substituíram o canto, shows circenses substituíram jogo, a massificação substituiu a lucidez. Verdadeiro assassinato da cultura, e uma desconsideração total dos nossos velhos mestres, que muito lutaram, doaram- se para que essa força chegasse até nós. Um atalho que está sendo muito difícil reverter, pois essa vertente é a reprodução fiel do sistema social escravista.
"…(Portugal 13/07/2002 – Caro Mestre Pop… Venho através desta, dizer-lhe que sinto muito que tenhamos nos afastado por longo tempo. Estou no mesmo caminho e com o mesmo propósito. Por onde passo deixo boas pegadas e teu nome. Não posso, jamais neguei a tua importância, que talvez para ti não tenha tanta relevância o fato. Mestre, eu não esqueço o Orfanato. Lá sim, foi a raiz do teu trabalho. Sei também que eras muito novo e imaturo para perceberes o que hoje deve estar muito claro. Não esqueço de todas as nossas esperanças, as pessoas que influenciaram negativamente, os reais objetivos do teu trabalho, o compromisso da existência, a lealdade da missão, o resgate da esperança, o respeito à capoeira, a paciência com as pessoas, a valorização do ser humano!!! Volta e meia tento te resgatar para minha vida, já tentei com palavras e atitudes. Mas também sei que a fruta só dá no tempo. Não irei desistir, que Deus te proteja e ilumine. Quero também agradecer por teres aparecido no momento certo, e ter-me feito acreditar em algo que não mais exercitas, mas sei que ainda acreditas. Um abraço do discípulo Pinóquio.)…"
Felizmente, Mestre Pop retornou à vertente, dando grande contribuição à capoeira, dada sua grande experiência. Seja bem-vindo Mestre… a capoeira agradece e eu também! Atualmente atua com crianças carentes no mesmo Orfanato que eu o conheci. Integrante da Associação Cultural Quilombola.
 
Temos que perceber que a escravidão não acabou, somos todos escravos do sistema (anti) social, que teve início com a invasão do Brasil pelos portugueses há 500 anos. O sistema social do Brasil é escravista, dêem o nome que quiserem. Porém há hoje uma escravidão moderna. Temos que entender que somos uma mistura do negro. Hereditariamente, somos os escravos que vieram nos porões dos navios negreiros, porém miscigenados. O tempo não tira férias, tudo vai passando para frente. Não estamos mais nos porões dos navios negreiros, mas estamos nos porões da sociedade. Os burgueses de hoje, hereditariamente são os donos dos navios negreiros, que são os donos de tudo hoje, como foram seus pais no passado, e nós, os escravos de hoje, como foram nossos pais no passado.
 
Os capitães-do-mato estão por aí, porém de gravata, trocaram a chibata pela caneta, nos ofertando falsos sorrisos e falsas oportunidades. As senzalas, são as favelas. Os campos de cultivo de cana e café do passado, são as fábricas, as indústrias. Os grilhões são a nossa ignorância. Enquanto os filhos dos senhores vão para as universidades estudar e se prepararem para assumir o poder dos seus pais, os nossos filhos vão ser os próximos a carregá-los nas costas, e assim sucessivamente. A capoeira surgiu da necessidade de ser e ter dignidade, qualquer ato de desigualdade faz aflorar a capoeira. Foi forjada de todas essas covardias, todas as desigualdades cometidas. Esse espírito que chamamos de Capoeira, surgiu não se sabe de onde, mas sabe-se o porquê. Hoje está sendo instrumento dos poderosos, com a conivência de capoeiristas, que por ignorância ou conveniência se renderam ao sistema.
 
A moda atual é ser formado em educação física para se legitimar como profesor de Capoeira, como se a Capoeira precisasse da educação física. A escola da Capoeira é dinâmica, no dia-a-dia, na rua, em cada jogo, em cada rasteira, em cada viagem, em cada toque de berimbau… o Mestre ratificando com exemplos, seus ensinamentos, preparando o aluno para a roda/vida! Depois de muitos anos de vivência é que um capoeirista torna-se um Mestre. Não podemos confundir Capoeira com Educação Física, cada atividade com seu valor, porém têm objetivos diferentes. A Capoeira está para além da atividade física, está simultaneamente ligada à política humana, à luta de classes e ao embate às desigualdades socias. É incrível e triste saber que aqueles indivíduos que mais contribuem para descaracterizar a Capoeira são os mesmos que têm acesso à cultura acadêmica, confundem Capoeira com simples atividades físicas. O fato de terem status acadêmico, acreditam serem especialistas e fazem o que querem com a cultura popular, passando por cima de tudo e de todos, sendo que tratam-se de duas atividades completamente distintas. Muitos destes Mestres deveriam dar oportunidade a eles mesmos, matriculando-se em uma escola de Capoeira para a aprenderem, de fato. Irem visitar rodas de rua… não "rodas na rua". Talvez assim muitos deixassem de utilizar seu status de doutor para camuflar sua incompetência enquanto professores de Capoeira.
 
Capoeira….??? Falamos tanto que a capoeira é nossa filosofia de vida. Que filosofia? Será que não estamos perdidos dentro do que pensamos ser, e por não saber estamos contribuindo cada vez mais para a total descaracterização dos reais valores e objetivos? Será que não está nos faltando uma causa mais nobre do que simplesmente exprimirmos nossas vaidades pessoais? Ou transformá-la simplesmente em atividade esportiva? Ou ganharmos dinheiro?
Ou usarmos as rodas de capoeira pura e simplesmente para transferirmos para o outro as nossas angústias e revoltas? Será que o camarada que está conosco na mesma roda, na mesma pobreza é o nosso real inimigo? Não será ele tão vítima quanto nós?
 
Precisamos identificar nossos reais inimigos. Toda essa ignorância, essa falta gravíssima de não conhecermos hoje a fundo a capoeira, foi e é, meticulosamente propositada pelos nossos reais inimigos, que são os poderosos donos de tudo, para que realmente perdêssemos o elo da capoeira física à resistência cultural dos escravos. É como escutar uma música em uma língua que não conhecemos, balançamos o corpo para lá e para cá, mas a mensagem vai para o espaço. É óbvio, pois não entendemos a língua. Então a música não alcança em nós todo o objetivo e ficamos nos movimentando sem saber qual é a mensagem, como fantoches. É exatamente isso que fizemos hoje na capoeira. Estamos reduzidos a somente movimentos corporais, como um corpo sem vida, em decomposição. Sendo que é a vida que justifica o corpo. Portanto, a vida da capoeira é sem duvida a luta por melhores condições de vida dos oprimidos, de toda a classe operária. Sem esse objetivo não há vida, não tem o porquê da luta. Toda expressão física; a dança, o canto, o berimbau, a malandragem, o jogo; deveria ser conscientemente a materialização de nossas angústias, transformada e direcionada em protestos.
 
Assim é que faziam os capoeiristas do passado, eles não se reuniam somente para trocar pancadas uns com os outros, muito pelo contrário, as pancadas eram no real inimigo. A capoeira era o sindicato, linha de frente da classe, que reivindicava seus direitos através de suas rebeldias e que muito trabalho deu aos governantes. Infelizmente, a maioria dos Mestres de grupos (ou mega-grupos), conduz seus alunos como se fossem generais, com mão-de-ferro, esquecendo dos valores historicamente inerentes à Capoeira.
 
Mestre Pinóquio
Leia Também: O ELO PERDIDO PARTE 2
 
CENTRAL CATARINENSE DE CAPOEIRA
Fundada em 29 de julho de 1998
CAÁ-PUÊRA
EDIÇÃO ESPECIAL:
O ELO PERDIDO – PARTE 1
POR MESTRE PINÓQUIO
MARÇO DE 2007

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