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“MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO?”

“MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO?”

Abuso de poder, pedofilia, assédio sexual, estupro e o silenciamento naturalizado na capoeira

Por: Mestre Brisa e Mestre Jean Pangolin

Diante das avalanches de notícias tristes que estão invadindo a nossa cena da capoeira, você já percebeu que, invariavelmente, pedofilia, assédio sexual e estupro, são todas expressões ligadas ao poder, ou seja, ao abuso do poder? Trataremos neste texto sobre os desafios de relações humanas que se estabelecem na submissão de pessoas e no silenciamento naturalizado pelo “medo”.

A capoeira, como grande expressão popular, nasce e se alimenta das relações humanas sob os fundamentos e valores de matriz afrodescendentes que elegem ancestralidade, memória, circularidade, oralidade, dentre outros, como faróis de nossa práxis capoeirana. Porém, enquanto humanos, somos falíveis e frutos de uma educação, seja ela formal ou informal, que estruturam nossa maneira de pensar, agir e se relacionar com outras pessoas. Neste sentido, muitos são os motivos que consolidam o poder e, sobretudo o abuso dele, em nossas relações, mas também diversos são os tipos de abuso vividos por nós desde a infância até a hora de “bater as botas”.

Como ponto de partida, precisamos entender que o abuso sexual (pedofilia, assédio sexual e estupro) se configura como qualquer relacionamento entre pessoas no qual o ato sexual aconteça sem o consentimento da outra pessoa, sendo este com ou sem violência física e/ou psicológica. Porém, pensem conosco, extrapolando as questões que envolvem a sexualidade, os atos de abuso não podem acontecer de outras maneiras no nosso dia-a-dia? Basta que submetamos alguém, sob uma relação de poder, controle e humilhação, à uma situação em que a mesma não tenha acordo, ou seja, quando o mestre diz “aqui eu mando e você obedece” ou “o grupo é meu” ou “respeite a hierarquia e se coloque no seu lugar” ou até “quem é você para me questionar?”, podemos nitidamente perceber uma relação de “abuso” que poderá se ramificar em muitas outras áreas, tal como na sexualidade.

Pesquisas indicam que certos abusadores sofreram abuso sexual na fase infantil, sendo que para cada oito crianças abusadas, uma poderá vir a ser um possível abusador na idade adulta. Neste sentido, alguns pesquisadores indicam que muitos indivíduos repetem, com outras pessoas, os males que sofreram, pois bloqueiam no campo consciente as “dores” da infância, considerando a dificuldade de perceber a si mesmo, negligenciando que muitas vezes nossos traumas infantis são determinantes em nosso comportamento, criando ciclos viciosos que implicam outros na dinâmica do abuso. Quantas vezes ao conversar com capoeiristas que abusam de poder na relação com suas alunas, relataram ter vivido relações abusivas durante sua vida, porém, espantosamente, dizem que foi por isso que virou “cidadão de bem” ou “não deu pra coisa ruim”, validando e reproduzindo fielmente as relações abusivas com seus alunos, filhos e pessoas “subordinadas”? Já dizia Paulo Freire, filósofo e patrono da educação brasileira, “todo oprimido gesta dentro de si um opressor”, basta que a vida oportunize a condição de poder para que ele possa se expressar.

Michel Foucault, um filósofo francês, aponta em sua obra que ninguém escapa aos espaços de disputa de poder, desta forma, a nossa capoeira também está a mercê deste mal que assola a dinâmica relacional em nossos tempos, sendo seus desdobramentos mais nefastos expressos na sexualidade: a pedofilia, o assédio sexual, o estupro e o silenciamento naturalizado pelo “medo” e cultura das hierarquias adoecidas. Homens e mulheres abusadores usam o medo ou a “subordinação” da vítima na relação de abuso, fazendo com que a parte oprimida se sinta fraca e indefesa, garantindo ao abusador a sensação de “potência”, de poder.

Quantas vezes na relação de ensino-aprendizagem, quem está na condição de aprendiz acaba “encantado” pela seu mestre, por todo o seu conhecimento, fama ou respeitabilidade, se subordinando a qualquer proposta, sexual ou não, feitas pelo abusador, sem discernir que, do outro lado, encontra-se um ser humano em franco desequilíbrio, que não sabe gerir seu poder com cuidado e sabedoria, subordinando-se a um jogo de difícil libertação. Ou o inverso, quando a mestra antiga se “encanta” com a “intelectualidade predatória” de alunos que abusam deste lugar, manipulando o saber dos antigos em favor de seus interesses privados imorais. Nesse quadro estão crianças e adolescentes entregues à confiança de capoeiristas, com suas ingenuidades e total credibilidade nos seus responsáveis provisórios; jovens entregues às propostas de trabalho ofertadas por mestres(as) em troca de relações sexuais; jovens e adultos submissos a agressões físicas e psicológicas das mestras(es) enquanto durar a longa relação dentro do grupo de capoeira; mestres(as) antigos(as) manipulados por alunos “influentes” intelectual, financeira e politicamente; enfim, cada um aqui pode contar um exemplo diferente de abuso de poder que viu na capoeira. Viu e não contou! Ora por não ter provas, ora por achar NATURAL.

Por fim, desejamos falar das proposições de lida contra o abuso de poder na capoeira, em forma de recados…

  1. Aos responsáveis por crianças e adolescentes: vocês conversam com seus filhos/as sobre o que é que pedofilia, assédio sexual e estupro? Conversaram sobre o que pode ser interpretado como “sinal de alerta” na relação humana – toques íntimos, investidas sexuais, exploração de trabalho, relação abusiva…?
  2. Aos responsáveis por crianças e adolescentes: Já se perguntaram se vocês cuidam de não “depositarem” seus menores na academia? Se vocês “entregam” seus tesouros aos cuidados do professor de capoeira, depois de ter conhecido sua história, índole, antecedentes criminais, didática…? Já assistiu algumas aulas? Conhecem como ele/a trata os alunos/as?
  3. Todos os capoeiristas: Vocês sabem que, como ensina a nossa matriz afrodescendente, as relações de respeito devem acontecer em “via de mão dupla”? Que tanto devemos respeito aos mais antigos, quanto devemos ser respeitados enquanto mais novos em nossas idéias, integridade física, processo de aprendizagem? E que é nesse respeito mútuo que a cultura da capoeira se perpetuará em harmonia, pois sem mais novos respeitados, não haverá mais velhos sábios?
  4. Para quem se identifica enquanto abusador: Você sabe que seus motivos podem estar em como foi tratado na infância, ou em casa, ou no trabalho? Você sabe que pode pedir ajuda e sair deste quadro cíclico adoecedor, que subjuga pessoas inocentes e impotentes? Você sabe que isso é crime tipificado na justiça brasileira e que seus filhos podem ser vítimas de outros abusadores como você?
  5. As vítimas silenciadas: Já conversou com alguém de sua confiança sobre o que está acontecendo? Tentem reunir provas, conversas em redes sociais, fotos, enfim se oportunize sair deste lugar!
  6. A sociedade que naturaliza o abuso de poder: Vamos aprender mais com a capoeira? As relações saudáveis são aquelas que preservam o lugar de cada um, com integridade, liberdade, direito de voz e voto. Submissão só se instala onde não temos garantidos estes fundamentos. Natural deve ser o cuidado ao próximo, o “jogar com”, não contra. Gritar, bater, estuprar, submeter não reflete nada do que defendemos em capoeira, portanto, desconfie do óbvio que diz que “Manda quem pode, obedece quem tem juízo?”

Axé!

Ei, psiu, gostou? Então compartilhe, ajude a capoeira a refletir sua prática…

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Luciana
Luciana
2 meses atrás

O texto mais coerente que li até o momento, desde que veio a conhecimento “geral ” os fatos de abusos sexuais entre outros abusos na capoeira.