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Portugal: 4º Aniversário Academia Ginga Camará

O Grupo de Capoeira Ginga Camará comemora, em 2013, o 4º Aniversário da sua Academia.

Inaugurada em 2009, em Gândara – Leiria, este espaço conta com o trabalho de excelentes profissionais de Capoeira, Jiu-Jitsu, Muay-Thai e Ginástica Localizada.

Para comemorar esta data tão importante, contaremos com a presença de convidados de renome, entre eles Mestre Robson Bocão (Centro Cultural Alabê – Hambrugo, Alemanha) e Mestre Perna Longa (Grupo de Capoeira Arte Nossa – Porto, Portugal).

Os workshops realizar-se-ão nos dias 21 e 22 de Dezembro e terão um investimento de 25€, com tudo incluído (ver cartaz em anexo).

Escravos, Capoeira, Capoeiragem…

 

Segundo o nosso querido e saudoso Mestre Decanio “Galera et Caterva… Um bom complemento para história da capoeira…”

O escravo Felipe Angola caminhava sozinho pelas vielas do Rio de Janeiro. Naquele 10 de setembro de 1810, estava longe dos olhos do seu senhor, o comerciante Francisco José Alves, mas era observado de perto. De repente, foi surpreendido por uma patrulha da Guarda Real.

Emboscado, tentou uma manobra que dominava: atacou os guardas com um movimento de pernas. Sua habilidade e força não bastaram para conter os três policiais, que o levaram preso.

Ø      Felipe se tornou o primeiro escravo a ir para trás das grades no Rio de Janeiro por ser capoeirista.

o       A arte marcial (ainda) não era um crime.

§        Só o suficiente para transformar seus adeptos em criminosos em potencial, para uma polícia que agia à revelia da lei.

Praticada por negros de diversas origens africanas, a capoeira não era proibida no início do século 19. A elite carioca, entretanto, se sentia ameaçada pela presença marcante dos capoeiristas (ou “capoeiras”) nas ruas.

Enquanto as gangues de lutadores usavam sua arte marcial para disputar território e se defender da polícia, os brancos assistiam a essa agitação temendo que os escravos resolvessem se rebelar para valer. Esse medo tinha sido potencializado pelas notícias da revolta ocorrida no Haiti em 1791. Na ilha caribenha, os escravos tinham abandonado as plantações de cana, destruindo engenhos e massacrado proprietários de terra e colonizadores franceses.

Entre os cariocas, a proporção de escravos não parava de aumentar. Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio fugindo dos exércitos de Napoleão, houve uma explosão demográfica na cidade.

Os mais de 15 mil portugueses que deixaram Lisboa para acompanhar o rei dom João VI fizeram crescer a demanda por cativos.

Em 1821, os escravos eram 46 mil, metade da população do Rio.

Ø      Nas freguesias onde viviam, muitas vezes isoladas pela geografia carioca, os capoeiras passaram a se reunir em “maltas”. Essas gangues, formadas por negros africanos e brasileiros, escravos e alforriados, quando se encontravam lutavam até sangrar.

Ø      “As maltas viviam uma rivalidade crônica, o que era esperado em uma sociedade regida pela violência, e não pela harmonia entre as raças”, diz o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, autor de A Capoeira Escrava e Outras Tradições Rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850).

o       Graças aos arquivos policiais que documentavam as prisões dos capoeiras[1], historiadores como Soares reconstituíram o que ocorria nas ruas daquela época.

§        Os registros da polícia também ajudaram a entender o nascimento da arte marcial. Como a maioria dos escravos brasileiros ficava na zona rural, durante muito tempo chegou-se a acreditar que a capoeira teria nascido em senzalas ou quilombos.[2]

Ø      “A capoeira aparece nos documentos do século 19 como hegemonicamente urbana”, afirma Soares, que considera o Rio como um dos berços da luta, no século 17.

o       Nos documentos históricos em que Soares fez sua pesquisa, há apenas um caso em que a palavra “capoeira” é mencionada sem se referir à luta.

§        Esse era o nome de um tipo de cesto de palha usado pelos escravos para carregar mercadorias na zona portuária do Rio[3].

·        Esses estivadores[4] negros foram os primeiros a exibir as técnicas da arte marcial, competindo entre si nas praias [5]para ver quem era o mais hábil.

§        O nome “capoeira” teria passado dos cestos para os escravos e para seus movimentos de ataque e defesa. [6]

o       Quando saiu das praias, a capoeira deixou de ser apenas diversão e passou a arma de combate. As disputas se espalharam pelas ruas que hoje formam o centro histórico da cidade. Os escravos eram obrigados a cruzar a cidade para realizar suas tarefas diárias, e as brigas entre os capoeiras costumavam ocorrer quando rivais se encontravam ao longo do caminho.

A maioria dos escravos urbanos tinha como rotina fazer compras em armazéns e quitandas, livrar-se do lixo e, principalmente, trazer água limpa para uso doméstico.

Ø      “Não havia água encanada e era preciso buscá-la todos os dias. Assim, para manter seu domínio informal, escravos de uma determinada área tendiam a repelir cativos de outros lugares”, diz Soares.

o       As fontes da cidade estavam sempre rodeadas de gente. O maior reservatório público ficava no largo da Carioca. Seu chafariz, construído em 1723 (e demolido em 1925), assistiu a exibições dos capoeiras.

A ausência de leis que proibissem a capoeira não impediu que os castigos contra seus praticantes se tornassem cada vez mais severos, principalmente após a chegada da família real portuguesa. Para as autoridades, qualquer manifestação cultural dos negros passou a ser malvista. [7]

A capoeira era alvo das patrulhas mesmo quando não provocava desordem. Em 31 de maio de 1815, por exemplo, dez escravos de uma mesma malta foram presos pela Guarda Real sob a alegação de que estavam praticando “capoeiragem”.

 

 

CHIBATADAS E SERVIDÃO

A prisão foi apenas a primeira punição para os capoeiras, que passou a ser acrescida de castigos corporais.

Ø      Um edital oficial de 6 de dezembro de 1817 estabeleceu a pena de 300 chibatadas aos praticantes da arte presos em flagrante.

o        Em abril de 1821, o intendente geral de polícia, Paulo Fernandes Viana, recomendou ao governo que as festas de negros (palco de prática de capoeira) fossem banidas.

No Brasil de dom Pedro I, os capoeiras detidos pela polícia do Rio de Janeiro ganharam um destino certo: os trabalhos forçados, que haviam se tornado comuns no fim da colônia, combinados às chibatadas.

Em agosto de 1824, começou a ser erguido um dique para o conserto de grandes navios na ilha das Cobras, próxima à orla carioca (a construção só ficaria pronta em 1861).

Ø      A necessidade de mão-de-obra fez com que muitos dos capoeiras presos no Arsenal da Marinha (então a maior casa de detenção do Rio) fossem obrigados a trabalhar lá[8].

o       Seus senhores ficavam indignados. Não necessariamente por razões humanitárias,  os cativos eram vistos como propriedades caras que não deviam se desgastar trabalhando de graça para o Estado.

O africano Francisco Congo foi um dos que receberam a pena de três meses de trabalhos forçados no dique da ilha das Cobras. Às 5 da tarde de 29 de setembro de 1824, foi preso com outros três escravos por praticar capoeira no cruzamento das ruas do Sabão e da Vala (atual rua Uruguaiana, no centro do Rio).

O senhor de Francisco, Domingos José Fontes, apelou ao imperador para que tivesse seu escravo devolvido. Alegou que o cativo lhe servia há mais de dez anos. Ao pedido escrito, Fontes anexou uma certidão médica dizendo que Francisco não podia com trabalhos pesados. Lamentou em vão a falta do escravo, que seguiu à disposição do Arsenal da Marinha e ainda recebeu 200 açoites, conforme estipulado por uma nova lei daquele ano.

Em poucos anos de Império, a arbitrariedade na aplicação das penas aos capoeiras parecia sem limite. O forro Manoel Crioulo, por exemplo, foi sentenciado a dois anos de trabalhos em obras públicas e mandado ao Arsenal da Marinha em 14 de maio de 1827, por ter dado “uma bofetada de mão aberta”.

Ø       Mesmo sendo considerados marginais e desordeiros pelo Estado, os capoeiras acabaram sendo solicitados para manter a ordem[9].

o       Em junho de 1828, as tropas estrangeiras do Exército Imperial, formadas principalmente por irlandeses e alemães, ameaçaram um levante militar por conta do atraso no pagamento de seus soldos.

o       Armados, com o apoio das autoridades, escravos e capoeiras formaram milícias e conseguiram conter a agitação dos mercenários amotinados.

Uma demonstração de poder e tanto!

 

 

GUERRA NAS RUAS

O ano de 1831 foi marcado pela oposição dos liberais ao reinado de dom Pedro I, que acusavam o imperador de discriminar os brasileiros e cometer abusos.

Em contrapartida, portugueses defendiam a manutenção do monarca e de antigos privilégios.

Os ânimos andavam exaltados.

Em 11 de março os portugueses enfeitaram janelas e sacadas de suas casas e comércios na região da Candelária. Saudavam o imperador, que chegava de uma viagem a Minas Gerais.

Quando passeava pela rua da Quitanda, o sapateiro negro José Antônio foi insultado por um grupo de lusos, que exigiam que ele e suas duas acompanhantes tirassem do braço os laços que ostentavam, com as cores da pátria brasileira.

Ø      Os três se recusaram e se queixaram à polícia sobre a agressão. [10]

A partir daquele momento, o acirramento entre portugueses e brasileiros entrou numa escalada sem volta.

Durante o dia 13, enquanto militares se insurgiam contra o “imperador tirânico”, um grupo de negros armados de paus ocupou as ruas ao redor do largo da Carioca bradando “constituição” e “independência”. Os monarquistas saíram a campo com o apoio de marinheiros e caixeiros portugueses.  Os xingamentos deram lugar a pedras, cacos e garrafas.Capoeiras[11] distribuíam golpes certeiros enquanto os brancos se defendiam como podiam. Foram feitos disparos de pistolas e pelo menos dois negros caíram mortos. A multidão se dispersou, temporariamente.

O temporal que caiu sobre a cidade naquela noite acalmou os ânimos, mas os conflitos seguiram. Já era madrugada do dia 15 quando uma patrulha da polícia evitou que mais de mil homens armados se digladiassem em pleno Paço Imperial.

  • A sorte de dom Pedro, contudo, foi selada por esses episódios, conhecidos como “as noites das garrafadas”.[12]
    • A elite brasileira e o Exército seguiram pressionando por mudanças no regime, até que, em 7 de abril de 1831, o monarca abriu mão do trono em favor do filho de 5 anos. Como o menino era jovem demais, os liberais assumiram o governo, no período chamado Regência.

Ø      O apoio dado pelos capoeiras [13]à queda do imperador, entretanto, não garantiu a eles nenhum privilégio.

o       Pelo contrário: o sucesso de sua atuação nos conflitos de rua acabou sendo interpretado pela elite como uma ameaça.

§        Afinal, se voltassem a agir juntas, as gangues de escravos do Rio representariam um sério perigo para os senhores.

Dessa forma, os primeiros anos do período regencial foram marcados pela expectativa de um levante da chamada “gente preta”. O temor acabou se traduzindo em repressão, mas a Polícia da Corte não fez uso só da força. Com táticas de espionagem e delação, ela sufocou uma a uma todas as agitações promovidas sob a liderança dos capoeiras.

A pior ocorreu em1835, com a repercussão da Revolta dos Malês, iniciada em 25 de janeiro, em Salvador. Contida na Bahia em dois dias, a insurreição acabou não chegando ao Rio.

Os poucos negros que tentaram insuflá-la foram detidos.

Nos anos posteriores, as gangues não conseguiram atuar de forma coesa; Isoladas, eram presas fáceis para as autoridades e não tinham força para articular um movimento que exigisse direitos e liberdade.

Ø      “Os cativos não representavam um grupo social coeso. A população escrava brasileira era fragmentada”, afirma o historiador Soares.

o       “Se aqui tivesse havido uma suposta unidade racial, pensamento só vigorante a partir do fim do século 19, a escravidão teria sido eliminada em dias, como ocorreu no Haiti.”

§        Nem mesmo a abolição da escravidão e a proclamação da República serviram para acabar com a repressão contra os capoeiras. Em 11 de outubro de 1890, foi promulgado o código penal do novo regime. Em seu artigo 402, ficou estabelecida uma pena de dois a seis meses de prisão para quem praticasse a arte marcial nas ruas.

·        Para os chefes das maltas, essa punição seria aplicada em dobro, enquanto os reincidentes poderiam ficar presos por até três anos.

Ø      A capoeira, finalmente, havia se tornado crime, para o alívio da elite que vivera amedrontada por quase um século.

 

O escravo Felipe Angola caminhava sozinho pelas vielas do Rio de Janeiro.

Naquele 10 de setembro de 1810, estava longe dos olhos do seu senhor, o comerciante Francisco José Alves, mas era observado de perto.

De repente, foi surpreendido por uma patrulha da Guarda Real.

Emboscado, tentou uma manobra que dominava: atacou os guardas com um movimento de pernas.

Sua habilidade e força não bastaram para conter os três policiais, que o levaram preso.

Ø      Felipe se tornou o primeiro escravo a ir para trás das grades no Rio de Janeiro por ser capoeirista. A arte marcial (ainda) não era um crime[14]

o       Só o suficiente para transformar seus adeptos em criminosos em potencial, para uma polícia que agia à revelia da lei.

Praticada por negros de diversas origens africanas, a capoeira não era proibida no início do século 19.

A elite carioca, entretanto, se sentia ameaçada pela presença marcante dos capoeiristas (ou “capoeiras”) nas ruas.

Ø      Enquanto as gangues de lutadores usavam sua arte marcial para disputar território e se defender da polícia, os brancos assistiam a essa agitação temendo que os escravos resolvessem se rebelar para valer.

o       Esse medo tinha sido potencializado pelas notícias da revolta ocorrida no Haiti em 1791.[15] Na ilha caribenha, os escravos tinham abandonado as plantações de cana, destruído engenhos e massacrado proprietários de terra e colonizadores franceses.

Entre os cariocas, a proporção de escravos não parava de aumentar.

Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio fugindo dos exércitos de Napoleão, houve uma explosão demográfica na cidade.

Ø      Os mais de 15 mil portugueses que deixaram Lisboa para acompanhar o rei dom João VI fizeram crescer a demanda por cativos.

o       Em 1821, os escravos eram 46 mil, metade da população do Rio.

§        Nas freguesias onde viviam, muitas vezes isoladas pela geografia carioca, os capoeiras passaram a se reunir em “maltas”. Essas gangues, formadas por negros africanos e brasileiros, escravos e alforriados, quando se encontravam lutavam até sangrar.

Ø      “As maltas viviam uma rivalidade crônica, o que era esperado em uma sociedade regida pela violência, e não pela harmonia entre as raças”, diz o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, autor de A Capoeira Escrava e Outras Tradições Rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850).

Ø      Graças aos arquivos policiais que documentavam as prisões dos capoeiras, historiadores como Soares reconstituíram o que ocorria nas ruas daquela época.

o       Os registros da polícia também ajudaram a entender o nascimento da arte marcial.

§        Como a maioria dos escravos brasileiros ficava na zona rural, durante muito tempo chegou-se a acreditar que a capoeira teria nascido em senzalas ou quilombos. [16]

Ø      “A capoeira aparece nos documentos do século 19 como hegemonicamente urbana”, afirma Soares, que considera o Rio como um dos berços da luta, no século 17.

o       Nos documentos históricos em que Soares fez sua pesquisa, há apenas um caso em que a palavra “capoeira” é mencionada sem se referir à luta.

o       O nome de um tipo de cesto de palha usado pelos escravos para carregar mercadorias na zona portuária do Rio. Esses estivadores[17] negros foram os primeiros a exibir as técnicas da arte marcial, competindo entre si nas praias para ver quem era o mais hábil. O nome “capoeira” teria passado dos cestos para os escravos e para seus movimentos de ataque e defesa.[18]

Quando saiu das praias, a capoeira deixou de ser apenas diversão e passou a arma de combate. [19]

As disputas se espalharam pelas ruas que hoje formam o centro histórico da cidade.

Os escravos eram obrigados a cruzar a cidade para realizar suas tarefas diárias, e as brigas entre os capoeiras costumavam ocorrer quando rivais se encontravam ao longo do caminho.

A maioria dos escravos urbanos tinha como rotina fazer compras em armazéns e quitandas, livrar-se do lixo e, principalmente, trazer água limpa para uso doméstico.[20]

“Não havia água encanada e era preciso buscá-la todos os dias. Assim, para manter seu domínio informal, escravos de uma determinada área tendiam a repelir cativos de outros lugares”, diz Soares.

As fontes da cidade estavam sempre rodeadas de gente. O maior reservatório público ficava no largo da Carioca. Seu chafariz, construído em 1723 (e demolido em 1925), assistiu a exibições dos capoeiras.

A ausência de leis que proibissem a capoeira não impediu que os castigos contra seus praticantes se tornassem cada vez mais severos, principalmente após a chegada da família real portuguesa.

Ø      Para as autoridades, qualquer manifestação cultural dos negros passou a ser malvista.

o       A capoeira era alvo das patrulhas mesmo quando não provocava desordem.

Ø      Em 31 de maio de 1815, por exemplo, dez escravos de uma mesma malta foram presos pela Guarda Real sob a alegação de que estavam praticando “capoeiragem[21]“.

 

 

CHIBATADAS E SERVIDÃO

A prisão foi apenas a primeira punição para os capoeiras.,que passou a ser acrescida de castigos corporais.

Ø      Um edital oficial de 6 de dezembro de 1817 estabeleceu a pena de 300 chibatadas aos praticantes da arte presos em flagrante.

Ø       Em abril de 1821, o intendente geral de polícia, Paulo Fernandes Viana, recomendou ao governo que as festas de negros (palco de prática de capoeira) fossem banida[22]s.

No Brasil de dom Pedro I, os capoeiras detidos pela polícia do Rio de Janeiro ganharam um destino certo: os trabalhos forçados[23], que haviam se tornado comuns no fim da colônia, combinados às chibatadas.

Em agosto de 1824, começou a ser erguido um dique para o conserto de grandes navios na ilha das Cobras, próxima à orla carioca (a construção só ficaria pronta em 1861).

A necessidade de mão-de-obra fez com que muitos dos capoeiras presos no Arsenal da Marinha (então a maior casa de detenção do Rio) fossem obrigados a trabalhar lá. Seus senhores ficavam indignados. Não necessariamente por razões humanitárias, os cativos eram vistos como propriedades caras que não deviam se desgastar trabalhando de graça para o Estado.[24]

O africano Francisco Congo foi um dos que receberam a pena de três meses de trabalhos forçados no dique da ilha das Cobras.

Às 5 da tarde de 29 de setembro de 1824, ele foi preso com outros três escravos por praticar capoeira no cruzamento das ruas do Sabão e da Vala (atual rua Uruguaiana, no centro do Rio).

O senhor de Francisco, Domingos José Fontes, apelou ao imperador para que tivesse seu escravo devolvido. Alegou que o cativo lhe servia há mais de dez anos.

Ao pedido escrito, Fontes anexou uma certidão médica dizendo que Francisco não podia com trabalhos pesados.

Lamentou em vão a falta do escravo, que seguiu à disposição do Arsenal da Marinha e ainda recebeu 200 açoites, conforme estipulado por uma nova lei daquele ano.

Em poucos anos de Império, a arbitrariedade na aplicação das penas aos capoeiras parecia sem limite. O forro Manoel Crioulo, por exemplo, foi sentenciado a dois anos de trabalhos em obras públicas e mandado ao Arsenal da Marinha em 14 de maio de 1827, por ter dado “uma bofetada de mão aberta”.

Ø      Mesmo sendo considerados marginais e desordeiros pelo Estado, os capoeiras acabaram sendo solicitados para, manter a ordem.

Em junho de 1828, as tropas estrangeiras do Exército Imperial, formadas principalmente por irlandeses e alemães, ameaçaram um levante militar por conta do atraso no pagamento de seus soldos.

Ø      Armados, com o apoio das autoridades, escravos e capoeiras formaram milícias e conseguiram conter a agitação dos mercenários amotinados.

Uma demonstração de poder e tanto!

 


[1] Grifo AADF

[2] Idem

[3] Idem

[4] Observe-se que esta é uma atividade da população portuária. Grifo e observação de AADF.

[5] Idem

[6] Capoeira como sinônimo de capoeirista. Nota AADF

[7] Grifo AADF

[8] Idem

[9] Idem

[10] Grifo AADF

[11] Idem

[12] Idem

[13] Capoeirstas.Nota AADF

[14] Grifo AADF

[15] Idem

[16] Idem

[17] Idem

[18] Por metonímia. Nota AADF

[19] Idem

[20] Grifo AADF

[21] Idem

[22] Idem

[23] Idem

[24] Idem

 

Texto: Angelo Augusto Decanio Filho – 16/01/2007

Évora: o Nosso Reencontro 2013

Nosso Reencontro

Évora 2013

Oficina Internacional de Capoeira
Local: Piscinas Municipais de Évora
Data: 12, 13, 14 e 15 de Setembro de 2013

 

 

 

Nosso Reencontro – Carta de Apresentação

Caros companheiros, mestres, contramestres, professores, alunos,
em 2009 fechamos um ciclo de dez anos do Nosso Encontro na linda cidade portuguesa de Évora.
Durante 2010 e 2011 a equipe organizadora esteve fazendo uma reflexão de como poderíamos manter o Nosso Encontro face as duras realidades patrocinadas pela crise econômica mundial.

Bom, em 2012 chegamos a conclusão de que poderíamos voltar a realizar o Nosso Encontro se adaptássemos um pouco certos detalhes importantes para a organização… O Nosso Reencontro foi mais uma vez um sucesso!!!

Então, com um “cheiro” de desafio no ar, convidamos a todos os participantes que estiveram conosco durante onze anos, a nos reencontrar, mais uma vez, em Évora numa edição especial do Nosso Reencontro 2013.

O evento vem de encontro ao desejo de muitos capoeiras que, independente da escola, estilo ou “bandeiras”, fizeram das oficinas internacionais de capoeira em Évora um local onde se praticou a boa capoeiragem, norteada por uma camaradagem flagrante e onde muitos começaram adolescentes e concluíram os onze anos como adultos.

Muitos que iam como alunos participantes foram nos últimos encontros, já portando suas graduações e estatutos de professores. Muitos se encontraram durante o evento e constituíram família e hoje já tem filhos, os quais, também convidamos para estar presentes.

Nos onze anos do nosso encontro, se praticou, acima de tudo, o resgate da capoeiragem antiga que não necessitava de rótulos e logótipos. Se produziu momentos que nos transportaram a tempos remotos onde o bom capoeira se apresentava através da sua expressão de jogo e através da sua interação com a própria roda, demonstrando sua competência pela ação e não pela fantasia de um uniforme.

A organização, sempre incógnita pela ausência dos seus nomes em cartazes e camisetas, chama mais uma vez todos vocês que, efetivamente, produziram o Nosso Encontro para realizar, em Setembro próximo, o Nosso Reencontro de Évora.

As informações pertinentes ao evento poderão ser encontradas nos seguintes sites:

http://portalcapoeira.com
http://nossoreencontro.portalcapoeira.com
http://www.facebook.com/groups/441609419187571/

Vamos fazer desse Reencontro um momento de exautação a nossa arte capoeira.
Nos vemos por la,
Forte axé pra todos,

Mestre Umoi.

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Depoimentos

“Encontros como esse, permitem um interessante diálogo e uma rica convivência entre os participantes, e mais do que isso, permite uma conscientização cada vez maior sobre a importância de se conhecer a capoeira com mais profundidade, de se respeitar sua diversidade, de compreender e valorizar as tradições dessa arte, sem ignorar as transformações pelas quais a capoeira também passa, pois capoeira é cultura e como tudo que é cultura, é dinâmico e se transforma constantemente. Por isso vale aqui lembrar novamente as sábias palavras de Saramago: “…defender o lugar do passado, sem negar o presente“.”

(Pedro Abib)


“A meu ver este encontro foi direcionado àqueles que realmente sempre acreditaram neste evento, que em 4 dias vê-se a União entre grupos como nunca se vê… e àqueles que se tornam curiosos de tanto ouvirem bem do “Nosso Encontro”. Este evento foi realmente mágico porque se viu bons capoeiras, com sorrisos e abraços, bons jogos, muito conhecimento e…Não há encontro como este. Palavras para quê? Posso dizer isto de boca cheia porque sou a aluna que nunca faltou a um evento de Évora desde 2000.”

(Iara Tiago)

“A cidade de Évora, cercada por uma beleza medieval e ao mesmo tempo contemporânea, é um lugar convidativo e hospitaleiro, de clima agradavel que se transformava durante os tres dias do “Nosso Encontro” na CASA DA CAPOEIRA.

“uma experiência fantástica e uma grande honra poder estar com pessoas que tem trabalhado com afinco e com o coração pela nossa arte capoeira e acima de tudo uma grande satisfação ter reencontrado grandes irmãos e conquistado novos amigos…”
Um encontro de PAZ e UNIÃO e muita capoeira!!! É assim que defino o “NOSSO ENCONTRO””

(Luciano Milani)

Maranhão: Franceses aprendem capoeira em Pindaré-Mirim

Franceses são alunos de intercâmbio de capoeira.
Essa é a segunda turma de franceses a vir aprender a luta no Maranhão.

Maranhão… Maranhão… oo… Que saudades do meu Maranhão… oo…

Três franceses apaixonados pela capoeira saíram de seu país para aprender as técnicas da arte marcial brasileira. Serão 15 dias de aprendizado com o grupo Nação Palmares em Pindaré-Mirim.

Os franceses Maria, Simon e Joana são alunos de intercâmbio de capoeira, que vieram da França para aprender todo o gingado e técnicas da arte genuinamente brasileira com o grupo Nação Palmares de Pindaré. O convite foi feito pelo mestre Dorinaldo Oliveira, que já esteve visitando alguns países europeus divulgando essa arte.

Essa é a segunda turma de franceses a vir buscar esse aperfeiçoamento de capoeira em Pindaré-Mirim.

Eles devem passar apenas 15 dias no Brasil, por isso, os treinos são puxados no ginásio de esporte do município.

 

Fonte: http://g1.globo.com

PALMARES 25 ANOS: FCP lança programação de aniversário

Programadas entre 14 de agosto e 23 de outubro, as atividades vão acontecer em quatro regiões para aproximar a FCP dos cidadãos brasileiros

A Fundação Cultural Palmares preparou uma programação especial para celebrar os 25 anos dedicados à arte e a cultura negra. Este ano, os eventos em comemoração ao jubileu de prata da Fundação acontecerão em 10 estados brasileiros: Brasília/DF, Salvador/BA, São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ, São Luis/MA, Recife/PE, Porto Alegre/RS, Vitória/ES, Cuiabá/MT, Maceió/AL. As ações têm início no próximo dia 14 de agosto e seguem até 23 de outubro. É o Palmares 25 Anos levando a FCP para ainda mais perto dos brasileiros e brasileiras.

Com um viés político, o calendário com 25 atividades está recheado de debates e seminários sobre arte e cultura afro-brasileira, além disso, também estão programadas mostra de cinema negro, plantio de árvores sagradas e apresentações artístico-culturais diversas. Confira a programação completa.

Palmares para mais 25 – Entre os principais temas em discussão estão cultura negra e políticas públicas; memória e identidade da cultura afro-brasileira; o corpo negro no audiovisual; artes cênicas e artes plásticas; o universo literário negro; a questão quilombola na perspectiva do Direito; mídia e relações raciais; religiosidade e cultura afro-brasileira, entre outros assuntos.

De acordo com Hilton Cobra, presidente da Fundação Palmares, o intuito do Palmares 25 Anos é reunir reflexões, já em discussão por agentes culturais e a sociedade civil negra, que dêem base para a criação do projeto para uma Palmares pós 25 anos.  “Queremos contribuir para criar uma FCP do futuro, que dialogue com todos os setores da sociedade brasileira que pense cultura e, principalmente, cultura negra”, disse.

O presidente Cobra espera que a partir dessa programação seja possível pensar como a Fundação pode chegar nos demais territórios brasileiros. Para isso, ele destaca o fortalecimento das Representações Regionais já estabelecidas. “Existem povos e comunidades tradicionais de matrizes africanas em todo o país. Arte e cultura negra é o Brasil (sic.).”

25 anos de história com a cultura negra – Em resposta às demandas do Movimento Negro, no dia 22 de agosto de 1988, o então presidente da república José Sarney fundou a primeira instituição pública  federal voltada para promoção e preservação da arte e da cultura afro-brasileira: a Fundação Cultural Palmares. Neste ano de 2013, a FCP comemora 25 anos de trabalho por uma política cultural igualitária e inclusiva, que busca contribuir para a valorização das manifestações culturais e artísticas negras brasileiras como patrimônios nacionais.

Para mais informações sobre os eventos, entre em contato com a FCP pelo e-mail: 25anospalmares@palmares.gov.br.

PALMARES 25 ANOS: FCP lança programação de aniversário

Programadas entre 14 de agosto e 23 de outubro, as atividades vão acontecer em quatro regiões para aproximar a FCP dos cidadãos brasileiros

A Fundação Cultural Palmares preparou uma programação especial para celebrar os 25 anos dedicados à arte e a cultura negra. Este ano, os eventos em comemoração ao jubileu de prata da Fundação acontecerão em 10 estados brasileiros: Brasília/DF, Salvador/BA, São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ, São Luis/MA, Recife/PE, Porto Alegre/RS, Vitória/ES, Cuiabá/MT, Maceió/AL. As ações têm início no próximo dia 14 de agosto e seguem até 23 de outubro. É o Palmares 25 Anos levando a FCP para ainda mais perto dos brasileiros e brasileiras.

Com um viés político, o calendário com 25 atividades está recheado de debates e seminários sobre arte e cultura afro-brasileira, além disso, também estão programadas mostra de cinema negro, plantio de árvores sagradas e apresentações artístico-culturais diversas. Confira a programação completa.

Palmares para mais 25 – Entre os principais temas em discussão estão cultura negra e políticas públicas; memória e identidade da cultura afro-brasileira; o corpo negro no audiovisual; artes cênicas e artes plásticas; o universo literário negro; a questão quilombola na perspectiva do Direito; mídia e relações raciais; religiosidade e cultura afro-brasileira, entre outros assuntos.

De acordo com Hilton Cobra, presidente da Fundação Palmares, o intuito do Palmares 25 Anos é reunir reflexões, já em discussão por agentes culturais e a sociedade civil negra, que dêem base para a criação do projeto para uma Palmares pós 25 anos.  “Queremos contribuir para criar uma FCP do futuro, que dialogue com todos os setores da sociedade brasileira que pense cultura e, principalmente, cultura negra”, disse.

O presidente Cobra espera que a partir dessa programação seja possível pensar como a Fundação pode chegar nos demais territórios brasileiros. Para isso, ele destaca o fortalecimento das Representações Regionais já estabelecidas. “Existem povos e comunidades tradicionais de matrizes africanas em todo o país. Arte e cultura negra é o Brasil (sic.).”

25 anos de história com a cultura negra – Em resposta às demandas do Movimento Negro, no dia 22 de agosto de 1988, o então presidente da república José Sarney fundou a primeira instituição pública  federal voltada para promoção e preservação da arte e da cultura afro-brasileira: a Fundação Cultural Palmares. Neste ano de 2013, a FCP comemora 25 anos de trabalho por uma política cultural igualitária e inclusiva, que busca contribuir para a valorização das manifestações culturais e artísticas negras brasileiras como patrimônios nacionais.

Para mais informações sobre os eventos, entre em contato com a FCP pelo e-mail: 25anospalmares@palmares.gov.br.

Vem Capoeirar: Festival de Arte, Cultura e Capoeiragem

Associação Sociocultural de Capoeira Regional Bimbaê, realizará nos dias 29 a 31 de Agosto de 2013, o “Vem Capoeirar: Festival de Arte, Cultura e Capoeiragem”, no município de Camaçari/BA, conforme programação anexa.

Dentro do evento, realizaremos o nosso I Concurso de Quadras e Corridos da Capoeira Regional. Os três primeiros colocados receberão premiações em dinheiro (totalizando R$ 800,00).

 

Inscrições e maiores informações: capoeirabimbae@gmail.com

 

Você é nosso convidado!

Assista nosso vídeo convite:

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Lançamento do Livro: “ABC DA CAPOEIRA PARA CRIANÇAS”

“ABC DA CAPOEIRA PARA CRIANÇAS” será lançado  QUADRA DA G.R.E.S. MOCIDADE UNIDA DO SANTA MARTA, neste sábado, 10 de Agosto de 2013.

Fruto de uma parceria entre o escritor carioca Victor Alvim, o Lobisomem e o ilustrador português Rui Apolinário, o livro infantil “ABC DA CAPOEIRA PARA CRIANÇAS” tem  linguagem simples, nomes de golpes, movimentos, importantes mestres, instrumentos musicais e suas funções, lutas africanas que originaram a capoeira, além de noções de cidadania, respeito à natureza, aos professores e amigos, são alguns dos elementos deste livro. Durante o evento,  Victor Alvim estará autografando os exemplares do livro, que estarão à venda no local.

A programação terá ainda apresentações folclóricas de Maculelê, Jongo e Samba de Roda com as crianças do projeto, além de batizado e troca de graduações, entre outras atividades.

O evento faz parte das comemorações dos 20 anos do trabalho social realizado no Santa Marta pelos professores de capoeira Anderson Bacurau, Chá Preto e Alex Sil. Atualmente os dois primeiros ministram suas aulas na Espanha e Portugal, deixando a continuidade do trabalho no morro Santa Marta aos cuidados do instrutor Alex Sil.

Na literatura de cordel brasileira, os “ABCs” são poemas onde cada estrofe se inicia com uma letra do alfabeto de forma sequencial. De A a Z.

Neste livro, “ABC da CAPOEIRA Para Crianças ” o autor apresenta, também neste formato, um poema em que procura citar, comentar e explicar, alguns dos mais importantes fundamentos e aspectos da arte capoeira.

A capoeira é uma arte brasileira que atualmente é praticada em mais de 100 países de todos os continentes. É um valioso instrumento de educação, utilizado em grande parte das escolas, universidades e projetos sociais do país. Costuma dizer-se que é uma “arte que engloba várias artes”, pois trabalha musicalidade, coordenação motora, história do Brasil, defesa pessoal, atividade física e mental entre dezenas de outras qualidades. O capoeirista toca, canta, compõe, joga, luta, interpreta, dança, confecciona instrumentos.

A CAPOEIRA foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO BRASIL.

 

Os autores:

Victor Alvim I. Garcia nasceu no Rio de Janeiro. Iniciou-se na capoeira há mais de duas décadas nas aulas ministradas por Mestre Camisa no bairro de Laranjeiras, onde recebeu o apelido de “Lobisomem”. Membro da ABADÁ-CAPOEIRA, já ministrou aulas de capoeira em creches, escolas públicas e particulares, comunidades e projetos sociais entre outros. Compositor e cantador, depois de participar de diversos cds, em 2009 gravou seu primeiro cd solo intitulado “Capoeira Popular Brasileira”. Poeta popular,  autor de dezenas de títulos, em 2007 foi eleito membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

Rui Apolinário nasceu em Cascais, Portugal. Decidiu iniciar-se na capoeira após uma estadia em Porto Seguro onde assistiu a uma demonstração. É designer e ilustrador. Já ilustrou diversos livros infantis e aplicações multimídia.

 

Serviço:

Data: 10/08/2013 – Sábado
Horário: 9:30 às 12:30
Local: QUADRA DA G.R.E.S. MOCIDADE UNIDA DO SANTA MARTA
Endereço: Rua Jupira, 72 – Morro Santa Marta – Botafogo
ENTRADA FRANCA

O livro será vendido por R$ 10,00 (dez reais)

 

Alguns cordéis publicados pelo autor Victor Alvim:

·         O Magnífico Encontro de Zeca Pagodinho com a Patota de Cosme& Damião

·        A chegada de Bezerra da Silva no céu

·        Zumbi dos Palmares e Mestre Bimba em cordel

·        Cacique de Ramos em Cordel

Iê dá volta ao mundo camará!

Da senzala para o mundo, a capoeira conquistou nações com sua arte, história, força e malandragem. Hoje, é o ritmo que o planeta não consegue deixar de amar

“Esta é a prova de que o mar leva… e o mar devolve: saímos dos porões amargurados dos navios negreiros e voltamos consagrados pela fraternidade da arte. Resistência da Capoeira… “, essas palavras fazem parte de um discurso do então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, na sede da ONU em Genebra. E naquele dia, 19 de agosto de 2004, a Organização das Nações Unidas foi presenteada com uma roda de capoeira, com a presença de capoeiristas de várias partes do mundo. Mestres de capoeira e figuras políticas entusiasmaram-se com o ato, considerado o início do reconhecimento do movimento para a história do Brasil.

Desde que Getúlio Vargas retirou do código penal a punição pela prática da capoeiragem, considerada crime pelos anos de 1890, os capoeiristas resistiram às imposições governamentais de transformar a sua prática cultural em mero desporto regulado em papel, o que poderia descaracterizar o jogo de suas origens. Durante o período da ditadura, entre os anos de 1964 e 1985, houve uma série de projetos dos militares para os esportes em geral, inclusive a capoeira. Criou-se o Departamento Especial de Capoeira, vinculado à Confederação Brasileira de Pugilismo, coordenado por um militar. A Aeronáutica promoveu simpósios no Rio de Janeiro com o objetivo de homogeneizar as nomenclaturas de golpes e graduações para unificar a capoeira como arte de campeonato, como explica a historiadora e doutoranda, pela Fundação Getúlio Vargas, Vivian Fonseca.

– Ela foi reconhecida durante a década de 1970 como esporte, foi feito um regulamento técnico; não encontrou muito eco dentre os capoeiristas, mas de qualquer maneira foram ações que estiveram em pauta. Eu costumo dizer que neste período houve uma atuação muito autoritária sobre a capoeira. Nos simpósios foram chamados os mestres pra ouvir o que eles pensavam, só que havia uma proposta independente das opiniões divergentes. Na verdade, ele não conseguiu se concluir, mas houve essa tentativa de levar à frente e não teve uma consulta pública pra esse campo.

Após a ditadura, a capoeira já fazia sucesso no Brasil e no exterior e muitas vezes suas apresentações integravam parte dos cronogramas oficiais de grandes eventos, inclusive do governo, mas sem obter uma proposta de valorização para a arte genuinamente brasileira, como esclarece Vivian. Para a historiadora, a partir do governo Lula há um novo olhar pra capoeira, com uma maior percepção dos atores envolvidos, buscando a discussão e construção de uma política não autoritária, de cima pra baixo: “A partir do mandato da presidente Dilma, as ações ficaram meio desarticuladas, mais em função de cortes de orçamentos, rearranjo de prioridades, mas ainda há mobilização”.

Quatro anos depois do Ministro discursar na ONU, a capoeira finalmente se tornou Patrimônio Cultural Brasileiro, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. Antes disso, porém, os capoeiristas ainda precisaram se organizar para ter suas demandas respeitadas. É o que conta a pesquisadora Vivian.

– Houve uma disputa com os conselhos de educação física sobre quem teria o direito de ministrar aula de capoeira, se seria o bacharel em Educação Física ou o mestre de capoeira. A partir daí houve um rearranjo no campo e os capoeiristas começaram a se articular um pouco mais politicamente.

 

ORIGEM E LEGADO

A capoeira surge com a escravidão, tendo seus primeiros registros encontrados a partir dos anos 1810. Ela se desenvolve na senzala como forma disfarçada de brincadeira, mas que serviria para a própria defesa dos escravos. A prática de jogos como a capoeira se desenvolveu em diversas partes do país, cada qual ao seu jeito, inspirada em diferentes lutas africanas.

No início do século XX, Manoel dos Reis Machado, mais conhecido como mestre Bimba, começou a desenvolver um novo estilo de jogo, que fundia movimentos da capoeira antiga, conhecida como Capoeira Angola, com o Batuque, jogo violento de pernadas praticado por seu pai. Mestre Bimba desenvolveu uma prática de capoeira mais voltada para a luta, atraindo muitos alunos, inclusive filhos de doutores e universitários, para sua academia. A esse estilo, mestre Bimba chamou Capoeira Regional. Ele desenvolveu técnicas e disciplinas e foi consagrado por seus discípulos como grande homem, lutador e sábio, que tornou aceitável para a sociedade brasileira muitos aspectos da cultura negra. Bimba cultivou 7 toques que determinavam o jogo de sua capoeira: São Bento (jogo rápido e duro), Cavalaria (também violento), Santa-Maria (que permite os floreios, acrobacias), Benguela (mais próximo da Capoeira Angola), Idalina (jogo alto e malicioso), Amazonas (sutileza e variação) e Iúna (para a exposição dos conhecimentos em ocasiões de festas). Bimba preservava as práticas do Candomblé e outros costumes antigos como, puxada-de-rede, samba-de-roda e maculelê.

Por outro lado, Vicente Ferreira Pastinha, mestre Pastinha, conseguiu manter viva a tradicional Capoeira Angola, sendo atualmente as principais vertentes praticadas da Capoeira aquelas preservadas ou desenvolvidas por ele ou Mestre Bimba, a Angola e a Regional.

Muniz Sodré, jornalista e emérito professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está entre aqueles que treinaram com Mestre Bimba na juventude. Ele escreveu o livro Corpo de Mandinga, que inspirou o documentário sobre o capoeirista lançado em 2007. Há uma grande admiração pelo mestre de Capoeira, sendo indiscutível o consenso entre seus alunos, doutores ou não, sobre a inteligência e sabedoria de Bimba. Muniz Sodré compara seu mestre ao filósofo alemão, quando diz em seu livro que “Bimba jamais ouviu falar de Nietzsche, mas filosofava de jeito parecido, porque jogava do lado do corpo, do pensamento não-conceitual, do sentimento do instante”. E, com empolgação, o ex-Diretor da Biblioteca Nacional discorre sobre a cultura de sua origem e de seu mestre:

– Eu percebi que, mesmo na esfera do que é ágrafo, que não tem escrita, do analfabeto, na esfera mais rudimentar aparentemente da cultura popular, há uma erudição. A capoeira tem um aspecto erudito por detrás. Bimba era analfabeto, mas era um sábio, realmente sábio, até falando, no comportamento dele. A capoeira junto com o candomblé me mostraram a força da cultura do povo. E isso mudou a minha vida… Porque eu estudei na Europa, sou professor de cultura europeia, mas minha visão, minha perspectiva vem daí, do candomblé e da capoeira.

Além de Muniz Sodré, Bimba fez discípulos que permanecem na capoeira até hoje, tanto na Bahia, preservando a capoeira Regional, tal como ele criou, como pelo resto do país e mundo afora. Hoje, nome dos mais conhecidos da capoeira e grande propagador da arte pelo mundo, Mestre Camisa, que também foi aluno de Bimba – seguindo mais que os passos, a forma inovadora de pensar de seu mestre – é o fundador do grupo Abadá Capoeira, conhecido por ter um jogo próprio, que mescla as sequências de Bimba com novos estilos de esquiva e de golpes. Ele chegou ao Rio de Janeiro em 1972, com 17 anos, e logo começou a ensinar o que sabia de capoeira, um pouco do que tinha aprendido com o mestre somado à capoeira de rua que praticava antes da mãe permitir que frequentasse a academia. Mestre Camisa diz que a proibição de treinar com Bimba por parte de sua mãe era uma espécie de castigo, “não tá indo bem na escola, então não vai pra capoeira”.

Camisa começou ensinando aos colegas no bairro da Lapinha, em Salvador o que tinha aprendido na rua e, ao adquirir mais conhecimentos na escola de Bimba, reforçou para seus primeiros alunos como se jogava a capoeira. Bimba desenvolveu seu método em 8 sequências básicas, de onde resultava todo o jogo da capoeira Regional, e era isso que Camisa ensinava na primeira escola em que começou a dar aula, assim que chegou ao Rio. Ele conta que sentia falta de alguma coisa, de um jeito novo, esclarecimento, experiência, porque era muito jovem:

– Comecei a dar aula numa escola aqui no Rio e fui adaptando ao meu jeito, pela deficiência… ele tinha uma estrutura lá, com vários alunos formados e aqui eu não tinha nada. Passei a dar aula em outros lugares e a encontrar capoeiristas também, que jogavam de uma forma diferente. E com o tempo, eu fui tirando a experiência e o resultado de cada lugar. Fazia as rodas no fim de semana e cada um ia trazendo alguma coisa, de forma espontânea e fui estudando em cima disso, da necessidade, porque era meu ganha-pão. Tinha que ter resultado.

Mestre Camisa, ora questionado por alguns capoeiristas, que o consideram um transgressor da Capoeira tradicional, ora admirado como uma extensão de Bimba, por continuar a criar e instituir formas e regras numa nova escola de aprendizagem, faz crescer por todo o mundo a Abadá Capoeira, criando mecanismos de comprometimento social e ambiental, pensando formas de expandir a profissionalizar a capoeira. Um de seus próximos planos é criar uma escola profissionalizante da Abadá Capoeira, com categorias que atendam aos diversos níveis de escolaridade de seus capoeiristas, e que seja reconhecida pelo Ministério da Educação. Dentre aqueles que o apoiam e enxergam em Camisa um eco do grande espírito de Bimba, está o professor Muniz:

– Mestre Camisa tem no mundo mais de 40 mil alunos, é mais que uma universidade! Onde estão esses alunos? Na China, no Japão, em Israel, na Rússia, na Hungria. São alunos de alunos e ele é chamado constantemente pra fazer batizado, pra dar curso nesses lugares, vive viajando. É uma universidade invisível que ele comanda. Eu vi na Alemanha, na França, moças jogando capoeira muito bem e cantando chulas de capoeira sem saber falar português, mas cantando sem sotaque em português. Isso foi uma coisa que me emocionou muito, aqueles gringões grandes, fortes, jogando capoeira. E você vê que é uma coisa que não se enraizou, não foi a partir de adido cultural de embaixada, não foi a partir do nível escrito, foi dessa prática que não envolve dinheiro – claro que se eles vão dar um curso, eles vão cobrar, mas não é dinheiro que se contabiliza como investimento, é o salário dele. É uma arte que se propaga sem dinheiro, não é como o espetáculo do futebol… E isso vai penetrando. Já se disse que a capoeira ia acabar, com a vinda dessas artes marciais, como karatê, jiu-jitsu, mas, pelo contrário, a capoeira vai crescendo porque ela tem esse fundo cultural. A capoeira não é só luta. É luta, dança, canto… Talvez seja a única arte marcial que se pratica de forma alegre… Todo capoeirista que jogou com Bimba era um fominha de jogar. É como o Camisa conta, quando subia a escada e ouvia o berimbau tocar, o coração começava a bater bum bum bum bum bum bum… Todo mundo queria jogar!

 

DO BRASIL PARA O MUNDO

Lila Sax é americana e reside na Alemanha há 12 anos, mesmo tempo em que começou a jogar capoeira. Ela conta que estranhamente a capoeira foi a sua porta de acesso para a sociedade alemã, tendo inclusive aprendido o idioma a partir do esporte. Foi na capoeira que fez seus primeiros amigos e que encontrou um espaço naquele país. Hoje ela é antropóloga mas seus planos são de prosseguir com o jogo e se profissionalizar cada vez mais no esporte. Ela é uma das mulheres mais graduadas na Europa e, por conta de suas viagens pelo continente para competições e eventos, tornou-se muito conhecida no meio, inclusive no Brasil. Ela faz parte do grupo Abadá Capoeira. A principal bandeira levantada por Lila tem relação com o fato de ser mulher. Ela acha importante que as pessoas saibam que todo mundo pode jogar capoeira, que uma mulher estrangeira é capaz de jogar bem, cantar bem, tocar instrumento, como qualquer outro capoeirista.

– A diferença da capoeira, e eu acho que isso que atrai muito as pessoas, é que tem um lugar pra todo mundo. Se você não gosta de lutar, você vai dar mais ênfase ao lado musical da capoeira, vai aprender as músicas, as acrobacias e a história da capoeira; se você não gosta de música nem da acrobacia, vai dar mais ênfase ao lado da luta, vai chutar, dar galopante, banda… E é por isso que o pessoal lá fora, que faz judô, muay thai, eles vem pra capoeira e veem que tem um espaço pra todo mundo e que todos são aceitos, o que muitas vezes não é possível em outros esportes. E o legal que, independente de idade, altura, de flexibilidade, de deficiência, as pessoas fazem capoeira.

Já Luiz Carlos dos Santos Sobrinho, mais conhecido como Cao Capoeira, saiu do interior do estado do Rio, Campos dos Goytacazes, em busca de oportunidades para desenvolver suas ideias que desde muito jovem envolvem a Capoeira. Por causa do jogo, ele se formou em Educação Física e, no meio de sua graduação, fez um intercâmbio pela Alemanha, onde conheceu excelentes universidades que, segundo ele, valorizam bastante a pesquisa, principalmente na área técnica. No Brasil, ele chegou a conseguir uma bolsa para pesquisar na área de História da Capoeira, mas o projeto não conseguiu ir adiante, por falta de apoio. Após concluir o bacharelado, retornou à Alemanha e apresentou uma proposta de projeto para mestrado ao Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, uma universidades de elite no país. Sua ideia, que logicamente envolvia capoeira, foi aceita. Morando há quase dois anos na Alemanha, ele já pensa em temas para prosseguir com o doutorado em Karlsruhe:

– Infelizmente no Brasil a gente vê que não tem assim um apoio tão grande pra essa área de pesquisa. O conhecimento que tenho desenvolvido no Instituto, aplico na minha dissertação de mestrado, que é sobre capoeira, suas esquivas e o nível de lesão mecânica que essas esquivas podem causar principalmente nas articulações do joelho e do tornozelo. É do senso comum que capoeira faz mal pro joelho, pelos seus movimentos baixos, de chão. E a minha ideia é quantificar a lesão mecânica que ocorre nas articulações quando o capoeirista realiza esquivas específicas, entender isso melhor. Esse é um primeiro passo para mais tarde a gente otimizar a técnica, talvez alterar pequenas coisas, adaptar a capoeira para que pessoas de mais idade ou com problemas articulares também possam praticar de forma menos lesiva e, quem sabe mais à frente, usar esse conhecimento no desenvolvimento de uma metodologia de capoeira reabilitativa, para pessoas que tem problemas em joelho, tornozelo, aplicar a capoeira de forma adaptada e dosada como forma de reabilitação.

 

A CAPOEIRA EXPORTADA

Segundo o professor Acúrsio Esteves, formado em Educação Física pela Universidade Católica de Salvador e pesquisador da arte da Capoeira, o jogo começou a ganhar asas para fora do país a partir da década de 1950. Ele conta que mestre Bimba, mestre Pastinha e alguns outros mestres de Salvador, começaram a fazer, além da capoeira que eles ensinavam em suas academias, shows folclóricos que tinham como público-alvo os turistas que vinham conhecer o Brasil. Com uma visão crítica sobre a exportação da capoeira como elemento exótico do nosso país, o professor escreveu o livro A “Capoeira” da Indústria do Entretenimento. Ele sintetiza suas conclusões sobre a origem da difusão mundial da capoeira, a partir da formação de grupos parafolclóricos, formados no Brasil e levados para outras partes do mundo, a convite de estrangeiros. Para Acúrsio, esses grupos começaram a se estabelecer no exterior e seus integrantes iniciaram uma nova vida nesses países, dando aulas de capoeira para estrangeiros. O professor elenca o que considera os grandes difusores da capoeira pelo mundo afora, em ordem cronológica:

– Elas saíam do grupo e começavam a desenvolver uma atividade própria, particular. Depois vieram as academias de capoeira, que foram criando filiais no Brasil inteiro. E o processo foi esse, de uma forma bem resumida: primeiro pelo viés da cultura, depois pelas academias e, em terceiro plano, começaram a vir as publicações, os livros, e por último o cinema. Outro viés muito importante e bem recente é a divulgação pela internet, através de sites como o Portal Capoeira, do Professor Luciano Milani. Desde 2005 que Luciano Milani, capoeirista brasileiro, residente em Portugal há 10 anos, criou o Portal Capoeira, principal meio de comunicação direcionado ao capoeirista na atualidade, com uma média de 3 a 4 mil acessos por dia, segundo o editor do site. Atualmente, o Portal possui cerca de 20 colaboradores, sendo os mais atuantes o jornalista de Brasília Mano Lima e os professores baianos Pedro Abib e Acúrsio Esteves. Desde quando criou o site, ele mantém contato com capoeiristas do mundo todo, principalmente do Brasil, a fim de fortalecer as trocas sobre toda a cultura que envolve a capoeira. Dessa forma ele desenvolveu uma sólida amizade com mestre Decânio, discípulo de Bimba e médico em Salvador, foi o grande responsável e incentivador que possibilitou a criação do portal, diz Milani:

– A ideia básica do Portal é reunir o maior número de informações possíveis. Nós temos trabalhos de teses, mestrados, doutorados, livros, músicas, vídeos, matérias mesmo, subdivididas em diversas categorias. A nossa ideia é criar esse núcleo de cultura e conhecimento da maneira mais vasta possível, porém com coerência e muita responsabilidade. Aqui na Europa eu percebo que há muita preocupação com a pesquisa. Tenho muitos amigos desse meio que são professores, bastante preocupados com a disseminação da capoeira no sentido cultural mais aprofundado. Foi a partir de 2007 que o site ganhou importância, por conta do filme mestre Bimba, Capoeira Iluminada. O filme Mestre Bimba Capoeira Iluminada é um documentário de 2007 realizado pelo carioca Luiz Fernando Goulart que conta a história de Bimba através de seus antigos discípulos, historiadores e antropólogos, suas ex-esposas. Ele é rico em imagens antigas, inclusive vídeos feitos do próprio mestre. Ele é inspirado no livro Corpo de Mandinga, do Muniz Sodré. Sobre o Mestre Pastinha existe o documentário “Pastinha! Uma Vida Pela Capoeira”, realizado por Antonio Carlos Muricy, no ano de 1998.

 

CAPOEIRA E FILOSOFIA

Em 12 de junho de 1996, a Universidade Federal da Bahia concedeu, após 22 anos de sua morte, o título de Doutor Honoris Causa a Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba. Por tudo que aquele negro forte e mitológico representou para o reconhecimento da capoeira, desde a atração que exerceu sobre os doutores que depois vieram a ser capoeiristas, até o reconhecimento por Getúlio Vargas da capoeira como cultura popular e não mais crime, conforme registrava o código penal. Pela institucionalização da capoeira com regras e disciplina, sem perder, no entanto, a alegria.

O professor Muniz Sodré, que parece simpatizar bem com o alemão Friedrich Nietzsche, principalmente quando fala de mestre Bimba, também diz em seu livro que o filósofo “jogava capoeira com o pensamento, em especial quando se referia ao corpo como ‘um edifício coletivo de diversas almas’”. E Muniz prossegue no mesmo livro: “Na capoeira, assim como na filosofia de Nietzsche, o corpo pensa. Pensamento e corpo pertencem à ordem do diverso, isto é, a uma simultaneidade de coisas compreensíveis e incompreensíveis que raramente passam pela consciência. “

 

 

Áurea Maria Xavier Pereira Gomes

aureamariaxavier@gmail.com

 

O que é mesmo a capoeira?

Jogo… Dança…. Luta….

É do senso comum dos capoeiristas pensar na Capoeira como uma prática polissémica que é simultaneamente um jogo, uma dança e uma luta. Se perguntarmos a um mestre mais experiente bem como a um novo praticante ambos podem sentir algum desconforto em classificar a capoeira em um campo estrito e preciso. Não sabemos conceituar o que somos ou no que nos tornamos mas sabemos o que não queremos ser. É essa forma enigmática do “decifra-me ou devoro-te” que torna certamente a capoeira uma arte instigante e curiosa.

Há uma certeza entretanto que nos acalenta e que também é do consenso geral dos praticantes, é de que a capoeira é uma arte. Sendo uma arte, concebemo-la como algo do campo da criatividade, da reinvenção e do imaginário. Convém deixar claro que se por um lado a polissemia da capoeira é algo delicioso é também angustiante e pouco didático. Sempre que tencionamos explicar a alguém, não capoeirista, o que ela é, caímos em explicações vagas que ela é uma dança em que se luta, um jogo em que se dança e por ai seguem as combinações. Para além disso o jogo do “ ser ou não ser “ deixa alguma angústia, afinal a pergunta fica sempre por responder. Sou daqueles que acredita que é bom ter certezas no que toca as nossas identidades, mesmo que sejam invenções confortantes.

Para mim há poucas dúvidas de que a capoeira, sendo uma arte, é uma arte marcial. Isso não exclui as suas peculiaridades e ligações mais intrínsecas ao campo da cultura, afro-brasileira em particular, nem tão pouco a restringe a parâmetros mais limitados que possamos conceber as artes marciais em geral, em particular as de origem oriental. Alguns pensam-na como uma filosofia, a da malandragem, como concebe o Mestre Nestor capoeira.

Foi exatamente o Mestre Nestor, cujos livros ainda fazem a cabeça de muitos praticantes no mundo, que primeiro lançou o lema: “No oriente existe o Zen, a Europa desenvolveu a psicanálise, no Brasil temos o jogo da capoeira”. Ora, quando falamos do Zen ou da psicanálise, falamos respetivamente de práticas de meditação, religião e ciência que permitem discernir a natureza humana, trata-la, fazê-la evoluir para níveis mentais mais elevados. Será que podemos enquadrar a capoeira nessa perspetiva atualmente? Ao compreende-la como uma arte marcial podemos conceber que ela pode cumprir esse papel emancipador do ser humano? No íntimo eu tenho as minhas dúvidas, mais por mero capricho prefiro acreditar que sim.

É possível aplicar a capoeira um conjunto de questões fundamentais que circundam também a existência humana, a vida. De onde vem a capoeira? Como ela se formou e o que ela se tornará? Não sabemos responder com total segurança a essas questões, tudo que se diga poderá ser mera especulação, ainda que tenha o crive acadêmico. Mas podemos acalentar algumas certezas a de que ela tem dado contributos importantes para as questões sociais e culturais das sociedades onde ela faz se presente.

Perguntei certa vez a um amigo estudioso do assunto qual era para ele, e até onde o seu conhecimento poderia alcançar, a origem da capoeira. Ele me respondeu que no seu entendimento não era uma questão histórica, que se podia provar por papéis a documentos acadêmicos, isso pouco interessava. Na verdade era uma questão ideológica, pois se dissermos que ela é afro-brasileira, por exemplo, estamos afirmando o papel do negro na sociedade brasileira e conferindo-lhe um certo grau de cidadania. Ou seja é enfim um posicionamento político.

De volta a frase do Mestre Nestor penso que caberá nas nossas reflexões sobre a capoeira questões mais profundas que, certamente os menos reflexivos sentirão dificuldades em compreender e acharão banais, pois a capoeira afinal joga-se apenas na roda e não carecerá de introspeção alguma. A capoeira ultrapassou limites inimagináveis, fronteiras geográficas, territórios culturais, limitações de gênero, classe, idade, enfim todas as contingências possíveis. Tudo isso por força de sua capacidade intrínseca de adaptar-se as mais hostis circunstâncias. No fundo, para quem as pratica sobretudo, ela diz muito sobre as nossas frágeis existências humanas e nos novos tempos globais que vivemos torna-se plena de significados.

Nesse novo encantamento do mundo inúmeras práticas ganham sentido, profanas e sagradas. O indivíduo ou os indivíduos buscam novas significações para as suas existências, novas formas de existir e ser para além das que habitualmente nos são concedidas a nascença. Somos brasileiros, espanhóis ou alemães por que nascemos em um determinado país que nos concedeu a cidadania, somos homens ou mulheres por que nossos órgãos genitais indicam um determinado género, somo brancos ou negros por que nossa pigmentação da pele assim o indica. Apesar desses traços indeléveis poucos somos tal como “naturalmente “ nos é concebido, mais ainda, somos o que nós construímos em nossas biografias. No jogo do “ser ou não ser “ a capoeira acaba por ter um papel determinante nos tempos pós-modernos e líquidos em que construímos a nossa maneira as nossas próprias identidades.