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Novembro 2014

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Roda de Capoeira: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade

“Considerada internacionalmente como uma prática cultural multifacetada e multidimensional que se manifesta como luta, dança, esporte, arte e até “filosofia”, a “Roda de Capoeira” teve a inscrição para recebimento do título aprovada durante a 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda, que é realizada na sede da Unesco, em Paris.
Nós do Portal Capoeira já havíamos noticiado com a candidatura que nos enche de alegria e orgulho…
Luciano Milani – Editor

Roda de Capoeira é mais novo Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade

A 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda aprovou, nesta quarta-feira, dia 26 de novembro, em Paris, a Roda de Capoeira, um dos símbolos do Brasil mais reconhecido internacionalmente, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Agora a  Roda de Capoeira se junta ao Samba de Roda do Recôncavo Baiano (BA), à Arte Kusiwa- Pintura Corporal (AP), ao Frevo (PE), e ao Círio de Nazaré (PA), já reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

“O reconhecimento da Roda de Capoeira pela Unesco é uma conquista muito importante para a cultura brasileira. A capoeira tem raízes africanas que devem ser cada vez mais valorizadas por nós. Agora, é um patrimônio a ser mais conhecido e praticado em todo o mundo”, destacou a ministra interina da Cultura, Ana Cristina Wanzeler.

Além da delegação que representa o Brasil, com a presença da presidenta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jurema Machado, e da Diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial (DPI-Iphan), Célia Corsino, capoeiristas brasileiros também acompanharam a votação, entre eles, os mestres Cobra Mansa, Pirta, Peter, Paulão Kikongo, Sabiá e a Mestra Janja. O som do atabaque e do berimbal comoveram os representantes dos países presentes à sessão.

Segundo a presidenta do Iphan, a inscrição da roda de Capoeira na lista representativa promoverá o aumento de sua visibilidade desse, mas também de outros bens culturais relacionados aos movimentos de luta contra a opressão, sobretudo aqueles pertencentes às comunidades afrodescendentes. “A roda de capoeira expressa a história de resistência negra no Brasil, durante e após a escravidão. Seu reconhecimento como patrimônio demarca a conscientização sobre o valor da herança cultural africana, que, no passado, foi reprimida e discriminada”, conclui Jurema Machado.

Originada no século XVII, em pleno período escravista, desenvolveu-se como forma de sociabilidade e solidariedade entre os  africanos escravizados, estratégia para lidarem com o controle e a violência. Hoje, é um dos maiores símbolos da identidade brasileira e está presente em todo território nacional, além de praticada em mais de 160 países, em todos os continentes. A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira foram reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan em 2008, e estão inscritos no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes, respectivamente.

Inscrição foi aprovada na sede da Unesco, em Paris, nesta quarta (26). 
Prática cultural nasceu no século XVII e simboliza identidade brasileira.

 

A Roda

Profundamente ritualizado, o espaço da Roda reúne cantos e gestos que expressam uma visão de mundo, uma hierarquia, um código de ética, e revelam companheirismo e solidariedade. É na roda de capoeira que se formam e se consagram os grandes mestres, se transmitem e se reiteram práticas e valores tradicionais afro-brasileiros. Forma redes de sociabilidade, gera identidades comuns e laços de cooperação entre seus integrantes. É o lugar de socialização de conhecimentos e práticas; de aprender e aplicar saberes, testar limites e invenções, reverenciar os mais velhos e improvisar novos cantos e movimentos.

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Metaforicamente representa a roda do mundo, a roda da vida, onde há lugar para o inesperado, onde ora se ganha ora se perde. A roda também tem a função de difundir os símbolos e valores relacionados à diáspora africana no território brasileiro. Leva a mensagem de resistência sobre o sistema escravagista.

Decisão da Unesco de reconhecer a prática como Patrimônio Cultural da Humanidade aumenta sua visibilidade e amplia a visão do mundo sobre o Brasil

Saiba mais sobre a candidatura da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade clicando aqui.

Leia mais sobre o Registro da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira.

Fonte: http://portal.iphan.gov.br/

Nestor Capoeira – Capoeiristas, Pulp Fiction Tropical

Uma oportunidade única de conhecer o novo trabalho de Nestor Capoeira que agora firma com o Portal Capoeira uma parceria que irá beneficiar toda a comunidade que ama e vive a capoeira…

Bem Vindo meu amigo
Nestor Passos (o Capoeira)

Seu trabalho é fundamental para toda a nossa comunidade…

uma iniciativa fantástica…

Obrigado pela oportunidade e parceria…

Luciano Milani – Editor do Portal Capoeira

 

Conheça toda nossa Equipe:

Capítulo 1 – Jogador de Capoeira

 

 CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 Nestor Capoeira

2014

 

Para os mestres Marcelo Peixinho Guimarães;

e Dermeval Leopoldina Lopes de Lacerda;

para o iluminado Frede Abreu;

muita saúde, boas rodas, e muita curtição,

se é que estas coisas existem

aonde quer que vocês foram.

 

JOGADOR DE CAPOEIRA

 

Sou jogador do Jogo

que não se aprende na escola;

Eu sou parte da roda

da Brincadeira de Angola.

Ê, olho no olho;

Ê, mão que toca a mão;

Me diz lá quem é você,

forasteiro, meu irmão.

Eu sou Jogador,

jogo no alto e no chão;

Trago dentro do corpo,

da alma e do coração,

as sementes da vida e da morte,

da amor e da destruição.

 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

LIVRO I

OS JOGADORES

 

capítulo 1

VENENO-DA-MADRUGADA

 

O COPACABANA PALACE

Veneno-da-Madrugada saiu do botequinm – a TV transmitia em altos brados as semifinais da Copa do Mundo -, atravessou a rua Rodolfo Dantas, e começou a escalar a fachada lateral do Hotel Copacabana Palace.

O Copacabana Palace foi construído am 1923; é lindo, elegante, sofisticado. Nas colunas da sua fachada, como era costume da época, haviam ranhuras horizontais e escalar até o terceiro andar foi mais fácil  que subir uma escada Magirus do corpo dos bombeiros.

Veneno passou por cima da balaustrada da varanda e olhou para dentro da suíte. O brutamontes estava de costas, sentado na mesa, falando ao telefone; uma garrafa e um copo de uísque singlemalt em cima do tampo de cristal onde tambem se viam, espalhadas, várias maçarocas de dinheiro – dollar.

Veneno olhou rapidamente o prédio do outro lado da rua. Todas as janelas estavam iluminadas pela luz azulada das televisões; as pessoas mesmerisados pelo jogo.

Veneno olhou para baixo. A Rodolfo Dantas, a Avenida Atlântica, e o calçadão da praia estavam inusitadamente desertos. No botequim superlotado, do outro lado da rua, todos os olhares tambem estavam grudados na televisão ao fundo do bar. Era o final do segundo tempo, o jogo estava 2×2, e o Brasil atacava a todo vapor – aparentemente ninguem notara a sua performance de homem-aranha, ningem se dava conta da presença de Veneno na varanda da suite do terceiro andar do Copacabana Palace.

A TV do quarto do gringo devia ser a única desligada em toda a cidade.

 

MATA-LEÃO

O gringo estava rindo ao telefone quando Veneno encaixou o mata-leão – uma gravata no pescoço, dada por trás e de tal maneira que impedia o fluxo de sangue para o cérebro.

O brutamontes reagiu como Veneno  esperava: levantou afobadamente da cadeira tentando desfazer com as mãos o torniquete que asfixiava seu pescoço.

Veneno acompanhou o impulso do gringo; aí, deu um passo para trás, e logo outro. Quando o brutamontes, desequilibrado e fora de base, caiu de costas; Veneno caiu junto e por baixo dele como se estivessem executando uma coreografia há muito ensaiada.

No chão – deitado de costas no caríssimo tapete persa com o gringo tambem de costas e por cima -, Veneno abraçou com suas pernas a cintura do grandalhão que se debatia e grunhia, e apertou o mata-leão um pouco mais.

Agora era questão de tempo. Pouco tempo.

 

PENSAMENTOS ESTRANHOS

Mais tarde, relembrando a loucura bem sucedida daquela noite  – “a sorte é fada madrinha dos corações aventureiros” -, Veneno, na porta de um bar na Praça do Lido, bebendo uma gelada, olhava a festa louca que rolava nas ruas de Copacabana – “Brasil! Brasil!” -, e matutava filosofias com seus botões.

Ideias anacrônicas com a alegria geral reinante; anacrônicas com tudo que tinha rolado nas últimas horas; flanavam de sapato scarpin salto 12 pelo Passeio Público da sua cabeça sem que nem porque.

Em que pensava Veneno?

Em coisas estranhas: por exemplo, num encontro de capoeira onde Muniz Sodré – um mulato baiano, o Americano da academia de mestre Bimba e, hoje, um respeitado professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro – tinha dado uma palestra comentando que nos 1800s a cultura afro-brasileira era vista como uma “primitiva selvageria”.

As representações identitárias do homem negro reconheciamm o escravo como “indivíduo”, mas não como “pessoa”.

O ser humano nasce “indivíduo” e se torna “pessoa” à medida que se insere na ordem social/cultural de sua época.  No entanto, aos negros era negado esse desenvolvimento.  Era como se fossem parte da paisagem; um cão, uma árvore, ou um bem material com certo valor econômico. 

“Peças”, assim eram chamados os africanos escravizados.

Paralelamente, devido a maior parte da população ser de negros e mulatos, já existia desde o Segundo Império um pessimismo e um diagnóstico depreciativo do “homem brasileiro”_: o Visconde de Taunay, p.ex., depositava esperanças na imigracão de alemães e escandinavos da Europa do Norte para branquear a população – na pele e na mente – e tornar o Brasil “um país viável”.

 

AS MALTAS

É neste cenário que se formaram, no Rio de Janeiro, as maltas de negros capoeiras desde, pelo menos, 1789. A repressão, na época, era extremamente violenta:

 

“No decorrer do processo chegou-se a conclusão que Adão era inocente quanto ao assassinato, mas foi confirmado sua condição de capoeira, sendo, por isso, condenado a levar 500 açoites e a trabalhar dois anos nas obras públicas”.

(ANRJ, 25/4/1789, Tribunal da Relação, cod.24, livro 10)

Os 500 açoites eram um castigo tão brutal que poderia ser mortal.

Era tão violento que, pressionado pelos donos de escravos presos como capoeiras – o escravo morria, o senhor perdia seu investimento -, o regente Feijó determinou que seriam dadas, no máximo,  50 chibatadas num dia, e “um dia de intervalo até a próxima sessão”.

 

A IDENTIDADE DE UM POVO

“Talvez não seja tão estranho relembrar a palestra do Muniz”, matutou Veneno, “no final das contas, o Muniz falava da identidade de um povo; aliás, da ‘construção’ da identidade de um povo. E essa loucura rolando no meio da rua não é, justamente, um dos retratos deste lance?”.

Um bloco passou enlouquecido pela porta do botequim da Praça do Lido. Duas minas que trabalhavam como strip-teasers na Cicciolina, onde Veneno já tinha sido porteiro e leão-de-chácara, se destacaram do grupo; arodearam Veneno, pulando, cantando, beijando-o na boca; e logo sumiram no meio da multidão arrastadas pela euforia e pela festança geral.

 

VIAGEM AOS 1800s

Veneno deu um gole na cerveja e, bizarramente, a história dos capoeiras do século XIX continuou a se desenrolar na sua mente como um filme.

No Rio de Janeiro, a partir da chegada de D.João VI em 1808 – e, talvez, decorrente das grandes mudanças que rolaram na cidade que, de colônia longíncqua transformou-se na capital do Império Português -, os arrogantes e violentos negros capoeiras se organizaram em maltas.

As maltas progressivamente tomaram conta das praças, ruas, ádrios de igrejas, procissões religiosas, desfiles militares; incutindo o terror nas “pessoas de bem”; tornando-se o flagelo das autoridades policiais.

A capoeira carioca – 1800-1850 – foi uma prática cultural urbana; e já existiam símbolos de identificação como o uso de fitas com as cores vermelha e amarela, e determinados assobios para se comunicarem – escravos eram presos por “assobiarem como capoeiras”.

 

OS ESCRAVOS LADINOS

No início, a maioria dos capoeiras era de escravos africanos ladinos já conhecedores da cidade, em oposição ao boçal recem-chegado da Africa. 

Aos poucos, vemos surgir escravos negros crioulos (nascidos no Brasil) e pardos (quase sempre, pai branco e mãe negra), dentro das maltas.

Mais tarde, já no final dos 1800s, as maltas absorveram brancos de diversas camadas:

– os engajados, portugueses pobres que vinham trabalhar em condições quase tão duras quanto as do escravo africano;

– os fadistas do Porto e Lisboa, malandros e rufiões cujos instrumento de trabalho eram o violão e a grande navalha de ponta denominada Santo Cristo;

– marinheiros estrangeiros – ingleses, franceses, alemães, norte-americanos – que, ao chegar no Rio, deparando-se com aquele verdadeiro paraíso tropical povoado por luxuriantes mulatas, cafuzas, e negras, desertavam de seus navios regidos pela duríssima disciplina da chibata;

– os cordões e os margaridas, jovens e violentos estroínas filhos das famílias ricas e aristocráticas que se sentiam em casa no submundo da marginalidade carioca. 

 

A COPA DO MUNDO É NOSSA

Veneno lembrou-se de um lance da sua primeira viagem ao estrangeiro.

Em Paris: duro, tocando berimbau para descolar o rango do dia; dormindo no metrô rodeado de mendigos, bebuns, baratas, ratazanas e clochards.

Um dia num bistrô, um mafioso tipo gigolô tirou uma onda braba com a cara dele. Veneno esperou o mané ir ao banheiro, seguiu-o, detonou o pilantra, e saiu carregado de francos – isto foi bem antes do euro da atual União Europeia -, pulseira e cordão de ouro, anelão de brilhante e rubi.

Com a grana, estruturou sua estadia na capital parisiense.

“De certa maneira”, pensava Veneno, bebendo a cerveja no bar na Praça do Lido, “era uma situação que, agora, se repetia no Rio de Janeiro”.

 

LEMBRANÇAS DE UMA NOITE AGITADA

Veneno se lembrou que quando o gringo apagou e se corpo ficou mole e frouxo; ele tinha apertado o mata-leão mais um pouquinho, só por via das dúvidas.

Aí levantou-se, enfiou dois maços de grana em cada bolso da calça de moleton e fechou os zipers; mais dois em cada bolso do casaco, idem zip-zip; sobrou um maço, Veneno enfiou dentro da cueca.

Resolveu não dar uma geral na suíte.

Estava mais que bom.

O negócio era cair fora rapidamente – quem tem olho grande não entra na China. Em menos de um minuto o grandalhão iria acordar e, mais trinta segundos, ia clarear as ideias.

Veneno atravessou a suíte, a varanda, passou por cima da balaustrada, desceu rapidamente pela fachada externa.

Quando pisou na calçada, os milhares de televisores gritaram eu uníssono: “… penetrou na grande área, driblou um, driblou outro, passou a bola de calcanhar …. é gol! É GOL!! GOOOOOL DO BRASIIIIL!!!”

Um rúgido de milhares de bocas rompeu o tenso silêncio da noite de lua nova na cidade do Rio de Janeiro.

Os torcedores que se amontoavam no botequim foram para a rua gritando e pulando. Veneno descobriu a cabeça do capuz de moleton e misturou-se a eles.

Olhou disfarçadamente para cima e pode ver o brutamontes chegar cambaleante na sacada do terceiro andar do Copacabana Palace.

O locutor agora berrava nos alto-falantes das TVs: “… o árbitro consulta o relógio, e apita o fim do jogo!”.

As pessoas subitamente saíram aos borbtões dos prédios berrando e cantando. Veneno deixou-se levar pela multidão até a esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana e então saiu num trote leve e ligeiro na direção da Praça do Lido enquanto urrava:

“É campeão! É campeão!”

 

 

O MÃO-DE-FACA

 

Please let me introduce myself,

I’m a man of wealth and fame.

(Mick Jagger, Simpathy for the Devil)

 

O ENCANTADO

Os Encantados são entidades; semelhantes às da umbanda e do candomblé; ou talvez sejam anjos, arcanjos, ou demônios.

Existem tambem as Encantadas – maravilhosas! – que enfeitaram a história, antiga e recente, da humanidade; Cleópatra, Lucrécia Bórgia, Isadora Duncan, Mata Hari, Madre Tereza de Calcutá, Carmem Miranda, Marlene Dietrich, Clara Nunes; mas não é delas que vamos falar no momento.

Há muita discussão sobre o que, ou quem realmente são e como vieram a ser. Uma versão bem popular é que, num passado distante, os Encantados foram seres humanos de carne e osso e sangue e sonhos, iguaizinhos a você e a mim; e, como tal, nasceram, viveram e morreram.

Mas aí, logo depois da passagem, aconteceu algo estranho.

Não seguiram, ninguém sabe bem porque, o destino da morte normal dos demais mortais; e terminaram como habitantes do mesmo Plano Espiritual dos Orixás, dos Caboclos, dos Pretos Velhos, dos Erês/Crianças, e do Povo da Rua – com seus Exus, Pombagiras, Ciganas da Estrada ou do Oriente, Malandros e Valentes.

 

SAUDADES DO MATERIAL WORLD

I live in a material world;

I’m a material girl.

(Madona, Material girl)

Corre à boca pequena, embora muitos entendidos dizem ser lenda urbana, que ocasionalmente um destes Encantados, com saudades da vida material no planeta Terra; ou então por curiosidade sobre o que está acontecendo aqui no pedaço; “encostam” num ser humano. Num ser humano que não é exatamente “comum” pois possui um tipo de poder mediúnico muito específico e original.

Este humano pode até, paradoxalmente, ser uma personalidade medíocre e arrogante; um destes que brevemente ascenderam ao poder como recentemente aconteceu com Hitler, Mussolini, Salazar, Franco, Lenin, Stalin, Mao, Papa Doc, Idi Amin, etc e tal.

Para o Encantado tanto faz como tanto fez: ele não esta sujeito, nem funciona na base das nossas cambiantes leis morais que mudam com o tempo e com o lugar.

Nem tampouco está sujeito à Lei Ética, que para os antigos filosofos gregos era a procura de uma boa “maneira de ser” ou a “sabedoria da ação”; regras e valores – como nos explicou Muniz Sodré – que davam forma à territorialização do sujeito, organizando em vários níveis a morada do grupo num determinado lugar e procurando determinar-lhe os objetos bons ou supremos – o Bem.

A Lei Ética – diferente da lei moral – é a regra do ascendente, a regra do ancestral, do “pai fundador”; uma “teoria do ser” que indaga sobre as finalidades da existência humana e sobre os meios de atingi-la.

Para o Encantado, tanto fez como tanto faz.

O Encantado sabe que a dicotomia, tão cara aos mortais, do Bem versus o Mal, é uma visão imatura da Vida e da Ordem (ou será Desordem?) Cósmica.

“Lá vem o Bem de braços com o Mal.

aos beijos e abraços

num Enlance Astral”

Sentenciou, assim ou em palavras semelhantes, aquele bardo tropical maluco-beleza, Raul Sexas, que partiu, como tantos outros, cedo demais.

 

FIM do capítulo 1

continua no próximo capítulo

 

 

Uma oportunidade única de conhecer o novo trabalho de Nestor Capoeira que agora firma com o Portal Capoeira uma parceria que irá beneficiar toda a comunidade que ama e vive a capoeira…

Bem Vindo meu amigo
Nestor passos (o Capoeira)

Seu trabalho é fundamental para toda a nossa comunidade…

uma iniciativa fantástica… Obrigado pela oportunidade…

Luciano Milani – Editor do Portal Capoeira

 

 

  • Conheça toda nossa Equipe: http://portalcapoeira.com/portal-capoeira/colaboradores

Brasil apresenta a Capoeira para Património Cultural da Humanidade

Brasil apresentou a Capoeira para integrar a lista do Património Cultural da Humanidade da Organização da Unesco, que anunciará uma decisão na próxima semana..

O Brasil apresentou a Capoeira para integrar a lista do Património Cultural da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que anunciará a sua decisão na próxima semana. “Entre os 46 pedidos de registo (…) está o da Capoeira — o único apresentado pelo Brasil e um dos três bens [imateriais] da América Latina na lista”, indica a Agência Brasil.

Dança, luta e símbolo de resistência, a Capoeira envolve os praticantes por meio do canto, dos instrumentos típicos como o berimbau e o atabaque, numa roda, onde os golpes se confundem com a dança. Trata-se de uma prática que é, ao mesmo tempo, jogo e brincadeira. A candidatura brasileira conta ainda com o apoio do órgão técnico da Unesco, que recomendou 32 pedidos de registo entre os 46 apresentados pelos Estados-Membros.

O Comité técnico destaca que a Capoeira nasce da resistência contra a discriminação e favorece a convivência social entre pessoas diferentes. “A Capoeira funciona como uma afirmação de respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos e promove a integração social e da memória da resistência à opressão histórica”, refere o Comité.

No Brasil, a Capoeira é reconhecida como Património Cultural desde 2008 pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A instituição brasileira, que solicitou o registo da Capoeira, indica que irá favorecer a consciência sobre o legado da cultura africana no Brasil e o papel da capoeira no combate ao racismo e à discriminação.

“É uma manifestação cultural de muitas dimensões. É ao mesmo tempo luta, dança e jogo, tão ligada à nossa história, à nossa sociedade, que é um pouco do que é o povo brasileiro”, explicou a diretora do Departamento do Património Imaterial do órgão, Célia Corsino.

Para 2015, o Brasil está a preparar o pedido de registo como património da humanidade do Cais do Valongo, no centro do Rio de Janeiro, conhecido como um dos maiores portos de desembarque de africanos no país no tempo da escravatura.

 

http://observador.pt/

Boa Vista – RR: Casa da Capoeira espaço para a capoeiragem

Casa da Capoeira é espaço para esportistas e divulgação da arte

Local será inaugurado na próxima quinta-feira com café da manhã, apresentação de grupos e recitação de poesias. Espaço é aberto para amantes da arte e população

A Casa da Capoeira está sendo construída em Boa Vista (RR) para reunir os amantes da capoeira e população em geral que queira conhecer o esporte, que também é uma arte. O local, dentro do Parque Anauá, será inaugurado no Dia da Consciência Negra, na próxima quinta-feira, às 9h. Dentro da programação de abertura haverá um café da manhã, exposição de arte plástica, apresentação de grupos e recitação de poesias com o poeta Eliakin Rufino.

Com ideia e execução do Mestre Renato Lopes, que literalmente colocou a ‘mão na massa’ e construiu o espaço com a ajuda de dois pedreiros, o local vai reunir um vasto acervo histórico com dados da capoeira em âmbito mundial, nacional e local. A Casa será aberta para curiosos e todos os grupos que queiram fazer rodas de capoeira.

 A Casa da Capoeira será um pequeno museu e vai reunir material sobre o esporte que não tem na internet. Ela estará aberta para todos os grupos que queiram usá-la. Quem quiser aparecer para uma aula grátis também será bem recebido no espaço do capoeirista. Nossa principal ideia é usar o local como um ponto de divulgação da capoeira – diz Lopes.

Para a inauguração estão confirmadas as presenças de 50 capoeiristas da Venezuela, seis do Acre e praticantes do Amazonas. Quem também estará no local para apresentações e troca de conhecimentos são os mestres Cobra Mansa, Capixaba e Dunga. Da Estônia o professor Cocão será outro presente.

Após ser inaugurada a Casa da Capoeira vai funcionar de segunda a sexta-feira, das 17h às 21h. A ideia é que depois esteja aberta diariamente, nos três turnos. O idealizador quer que o local incentive novas ações em benefício do esporte.

– A inauguração é só mais um passo do projeto de desenvolvimento da capoeira. Quero depois com a ajuda de parceiros ampliar o horário de funcionamento, inclusive deixo o espaço aberto para que os grupos interessados reservem horários para a realização de aulas de capoeira no local. Espero que a iniciativa incentive a criação de outras casas depois como a do jiu-jítsu, entre outras – fala o Mestre.

Dentro da programação de abertura da Casa da Capoeira, no sábado (17h) e domingo (14h) haverá uma atividade especial no Porto do Babazinho com roda de capoeira, feijoada e show de reggae. 

 

Mão na massa

O Mestre Renato Lopes carregava consigo um antigo desejo de construir uma Casa da Capoeira. Sem querer esperar por ajuda ou apoio, ele mesmo tratou de colocar a ‘mão na massa’. Após um acordo com o Governo de Roraima, o capoeirista começou no dia 16 junho de 2014 a recolher o material que sobrou do arraial realizado no Parque Anauá. Aos poucos a ajuda de apoiadores foi aparecendo.

Após alguns dias recolhendo madeiras (material reutilizável) ele estava com parte do que precisava para iniciar um audacioso projeto. Para isso ele precisava de ajuda e contou com a colaboração de dois pedreiros. Lopes precisou além da habilidade nas rodas e berimbau, de ‘jeito’ com a colher e massa de cimento. No dia 28 de junho começou a obra e a Casa da Capoeira será entregue para a sociedade no Dia da Consciência Negra (20).

Por Bruno Willemon – http://globoesporte.globo.com/

Boa Vista, Roraima

Mestre Bigodinho: “Iê Viva o Mestre”

Mestre Bigodinho lança novo CD de CAPOEIRA em uma nova perspectiva onde louva e retrata em suas musicas o amor a Deus, o Mestre de todos os mestres, sem preconceitos e distinções.

Este novo trabalho, “Cantigas de Capoeira – Iê Viva o Mestre”, vem relatar a existência de um mestre incomparável… O Mestre dos mestres… DEUS.

 

“O que me Inspirou foi a vontade de Deus para realizar algo que fosse em sua honra e glória. Através das minhas cantigas, feitas para capoeiristas, eu retrato o amor de DEUS por cada um de nós, e relato que o mestre que hoje eu falo e sigo é o do mestre dos mestre aquele que deu a sua vida por amor… JESUS.

Fiz as musicas sem que elas perdesse a essência da capoeira e as letras trazem uma energia positiva, amor e respeito… com uma mensagem viva e verdadeira.

Não sou fanático e nem sou a favor do fanatismo, apenas quis fazer um agradecimento a ele por ter me dado a oportunidade e o privilégio de poder praticar essa arte maravilhosa que se chama CAPOEIRA.

Iê Viva o Mestre”

 

Mestre Bigodinho

 

Portugal deve pagar indemnizações pela escravatura?

“Os países que escravizaram devem compensar os escravizados?” (Gilberto Gil, sugeriu a leitura através da sua página oficial do Facebook)

 

Os países que escravizaram devem compensar os escravizados? Há quem diga que sim e até aponte um valor para uma indemnização: 30 triliões de dólares vezes 10 mil. Há quem diga que não, porque isso seria voltar à menorização dos colonizados. Antes disso, Portugal deve debater o seu passado esclavagista, dizem historiadores.

É um tema que tem vindo a debate regularmente, mas de que pouco se fala em Portugal. Devem os países que participaram na escravatura pagar indemnizações? Quem o deve fazer, quem deve ser indemnizado?

Em Maio, a organização Comunidade das Caraíbas (Caricom) reuniu-se na conferência da Comissão de Compensações/Reparações e incluiu Portugal na lista dos países europeus aos quais querem exigir indemnizações. Chegaram, na altura, a um programa de dez pontos que consideram essenciais para o processo de reparações: passa pelo pedido de desculpas formal, apoio ao repatriamento para África, criação de programas de desenvolvimento para indígenas, criação de instituições culturais, erradicação da iliteracia ou cancelamento das dívidas dos países africanos.

Há três semanas, a Caricom voltou a reunir-se em Antígua e Barbuda numa segunda edição da conferência e voltou a fazer as mesmas reivindicações. As negociações continuam e estão agora nas mãos do comité liderado pelo primeiro-ministro de Barbados, Hon Frendel Sturat, diz Verene Shepherd, presidente da Comissão Nacional para as Reparações da Jamaica e uma das três vice-presidentes da Comissão de Compensações.

Apesar de estar incluído na lista, Portugal ainda não terá tido uma abordagem formal da parte da Caricom, pelo menos que Shepherd saiba. Os países da Caricom são Antígua e Barbuda, Baamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Suriname e Trindade e Tobago. Além de Portugal, são pedidas indemnizações a Espanha, Reino Unido, França, Holanda, Dinamarca ou Suécia.

O próximo passo da Caricom será o envio de uma carta aos governos destes países europeus e uma terceira conferência com a Universidade de Essex em data a definir, mas que esperam ser em 2015, revela Shepherd. Assim, a revindicação não vai ficar por aqui. “A escravatura e o comércio de escravos foram um crime contra a humanidade”, diz a também professora de História Social, por email. “Houve uma política de genocídio deliberado contra os indígenas das Caraíbas. Aqueles que cometeram crimes contra a humanidade ou que se envolveram em actos de genocídio devem primeiro pedir desculpas e depois integrar um programa de justiça reparatória. Não há limite estatutário para um crime contra a humanidade e portanto os países europeus colonizadores nas Caraíbas e na América Latina devem responder por isso. A reparação é uma questão de justiça.”

 

“No mínimo, aquilo de que precisamos é de maior transparência sobre quem beneficiou da escravatura e quanto”
Thomas Piketty, economista

Nesta resposta, Shepherd aborda vários pontos polémicos que têm provocado acesos debates entre quem defende e quem é contra as reparações: é a escravatura um crime contra a humanidade? Pode ser considerada genocídio? Devem os governantes dos países comerciantes de escravos pagar hoje por um crime cometido até há dois séculos? O que há a reparar e como?

“No mínimo, aquilo de que precisamos é de maior transparência sobre quem beneficiou da escravatura e quanto”, diz o economista francês Thomas Piketty, autor do best-seller O Capital no Século XXI, numa curta resposta por email à Revista 2. “Isto implica a abertura dos arquivos públicos e privados e a criação de museus”, acrescenta.

Piketty, que em 2013 escreveu sobre a escravatura na sua coluna de opinião no Libération, defendendo “uma reparação pela transparência”, é a favor, “em alguns casos”, das “reparações directas e da transferência de bens”, esclarece à 2. Por exemplo, através da “reforma agrária em algumas antigas ilhas escravas como Reunião, Martinica ou Guadalupe, no caso francês”, ilhas que têm altos níveis de “desigualdade entre descendentes de escravos e descendentes de donos de escravos”. “A dimensão destes casos ainda está por saber”, conclui o perito em concentração e distribuição de riqueza.

Quanto renderam e valiam os 12 milhões de escravos que se calcula terem atravessado o Atlântico não se sabe. Mas há dados sobre as indemnizações “ao contrário”, como o valor pago pelo Estado britânico aos donos de escravos, quando a Inglaterra aboliu a escravatura em 1833: 20 milhões de libras (25,5 milhões de euros).

Isto é um dado relevante para uma discussão sobre as compensações, sublinha o britânico Nick Draper, autor de livros como Slave Compensation Records, The Price of Emancipation: Slave-Ownership, Compensation, Capitalism and Slave Ownership, ou British Society at the End of Slavery. “Mostra que os donos de escravos foram indemnizados, enquanto os escravos não receberam nada — hoje podemos dizer que a indemnização foi para as pessoas erradas.” Nick Draper é um dos investigadores associados do projecto Legacies of British Slave-Ownership, da University City of London, que disponibiliza online uma base de dados dos britânicos envolvidos no comércio de escravos — mas não toma posição sobre o tema das compensações. “Esses 20 milhões representavam entre 40% e 45% do valor das pessoas escravizadas”, acrescenta. Quanto vale isso hoje? “Depende do que se mede na inflação, qual o preço do pão agora e qual o preço do pão na altura: os 20 milhões da altura equivalem a 1,6/1,7 mil milhões de libras hoje. Se pensarmos em termos de salários e da média, esse número é dez vezes mais — seria 16/17 mil milhões de libras. E se pensarmos em termos de PIB e dívida pública os números ainda aumentam mais.”

Ser a favor ou não das reparações é uma questão que não tem uma resposta directa, nem simples. “O mundo hoje reflecte o que fizemos colectivamente como europeus há 200 anos, e uma das coisas que fizemos foi contribuir para o não desenvolvimento das Caraíbas”, reconhece Draper. “Sinto vontade de voltar atrás e tentar abordar algumas das heranças da escravatura? Claro. O programa da Caricom é sobre transferência de pagamentos da Europa para as Caraíbas. Não lida com a questão das diásporas no resto do mundo. A questão de como é extraordinariamente difícil, mas ainda nem estamos lá — estamos a debater o princípio. O resto é detalhe.”

Independentemente de tudo, o primeiro passo deve ser o reconhecimento da história britânica, acrescenta. “A identidade britânica está muito ligada à abolição e isso é importante, mas tende a minimizar a escravatura e o comércio de escravos. Os primeiros passos no Reino Unido são reconhecer, colectivamente, que a nossa história é marcada pela abolição, mas também pela escravatura.”

Em 2009, um parque de estacionamento estava a ser construído em Lagos, junto à Cerca Nova, no Vale da Gafaria, quando foram encontrados 150 esqueletos. Tratava-se de um cemitério de escravos africanos do século XV, o mais antigo conhecido no mundo e o único na Europa, segundo peritos.

Com a descoberta, o Comité Português do projecto UNESCO A Rota do Escravo propôs a criação do Museu da Escravatura, já que este achado “impunha uma atenção e uma preservação adequada do sítio”. Foi desenhado um pré-projecto de museu, com três núcleos — o mercado do escravo, um memorial no local do cemitério e um centro de estudos sobre a escravatura —, aprovado pela autarquia em 2011. Hoje, no local está um minigolfe, uma obra que teve parecer favorável do Igespar (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) em Dezembro de 2011, segundo a Câmara Municipal de Lagos. Diz a vereadora da câmara Fernanda Afonso que “o executivo continua determinado a projectar toda a temática que envolve a descoberta do cemitério, bem como o Museu da Escravatura”. Mas para Isabel Castro Henriques, historiadora especialista em escravatura, e presidente do comité, se a autarquia se tem preocupado com o museu, “já no caso do cemitério parece interessar -se mais por preservar o parking e o minigolfe”.

Isabel Castro Henriques conta este episódio para ilustrar o desinteresse que existe em Portugal pelo tema da escravatura, algo que começa no poder público. Se um achado arqueológico desta importância não gera interesse, então falar de reparações é um tema ainda mais obscuro. “A escravatura não é considerada uma questão que interesse à sociedade. Continua a haver uma desvalorização dos africanos”, diz.

Porque é que não houve em Portugal um debate sério e aprofundado sobre o envolvimento do país no tráfico de escravos e na escravatura?, pergunta o historiador Miguel Bandeira Jerónimo, que nota uma “reserva colectiva em abordar inúmeros aspectos relativos ao nosso passado colonial”, aos quais chama “lutos inacabados”, que têm sido sujeitos a todo o tipo de mistificações.

Dá como exemplo negligenciar-se o facto de não terem existido movimentos abolicionistas “com um mínimo de importância” no Portugal de 1800, e ignorar-se, sobretudo fora da academia, a existência da escravatura e de “condições análogas à escravatura” no “terceiro império colonial português” (1822-1975). O trabalho forçado só é legalmente abolido em 1962, diz. “Do mesmo modo, a história do envolvimento do Estado português no tráfico de escravos e na escravatura é um assunto relativamente ocultado.”

Por outro lado, como lembra Isabel Castro Henriques, é comum referir-se que Portugal foi o primeiro país a abolir a escravatura, pois o Marquês de Pombal, em 1761, decreta-a, mas “fá-lo para evitar que os escravos venham para Portugal, sendo desviados do Brasil, onde são essenciais ao desenvolvimento económico”.

Este não é um tema de debate, porque continua a predominar um olhar luso-tropicalista, um discurso oficial atenuante, analisa Rui Estrela, activista da Plataforma Gueto, uma associação contra o racismo e racismo institucional. Licenciado em Ciência Política, diz: “Portugal foi o primeiro país a levar a cabo esta engenharia financeira — porque as pessoas foram tratadas como activos financeiros — e é o único país onde não se debate esta questão.”

Se em Portugal o debate não existe fora da academia, nos países colonizados e emissores de escravos comercializados por Portugal o tema também não tem estado em cima da mesa. Miguel Bandeira Jerónimo lembra as palavras do representante angolano Georges Chikoti (hoje ministro das Relações Exteriores) na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Relacionadas em Durban, em 2001, como um marco, ao dizer que era “necessário que a conferência identificasse a escravatura como crime contra a humanidade e que reparações têm de ser feitas às vítimas dessa tragédia”. O envolvimento dos portugueses, os “pioneiros do tráfico transatlântico de escravos”, devia ser notado, acrescentou.

Esta não é, porém, uma posição consensual. Em Luanda há o Museu Nacional da Escravatura desde os anos 1970, situado numa capela do século XVII onde se baptizavam os escravos antes de embarcarem. O historiador angolano Patrício Batsikama refere-o para dizer que serve de memória aos escravos que partiram de Angola. Porém, há muito por saber no estudo da escravatura, que “ainda não é exaustivo”, há apenas “algumas teses pouco sólidas para especificar a desumanização do angolano fora de Angola”.

“Se colocarmos na cabeça que alguém tem de reparar, estamos a sofrer um complexo de inferioridade”
Patrício Batsikama, historiador angolano

Esse conhecimento é essencial antes de se “pensar no que se deve reparar”, defende, por telefone. “Se colocarmos na cabeça que alguém tem de reparar, estamos a sofrer um complexo de inferioridade.” O autor de O Reino do Kôngo e a Sua Origem Meridional defende que “talvez” as reparações devam começar pelos museus internacionais no Reino Unido, Portugal, Estados Unidos devolveram as peças “que foram roubadas” a países africanos como Angola. “Não é a minha geração nem a geração vindoura que vai saber o que de facto foi estragado com os escravos angolanos e que é preciso reparar.”

A partir da instituição que dirige, a Escola Portuguesa em São Tomé, e com o som do recreio como barulho de fundo, a historiadora Isaura Carvalho diz-nos ao telefone que “não faz sentido pedir reparações a estas gerações, cujos dirigentes não participaram directamente” na escravatura. “Há coisas que são irreparáveis: pior do que os danos materiais foram os danos a nível da nossa auto-estima, das mentalidades e da capacidade de decidirmos por nós”, acrescenta.

Isaura Carvalho lembra que a seguir à escravatura veio o domínio colonial, ou seja, foram séculos em que o povo são-tomense foi impedido de pensar, de ser livre, de decidir, e isso é algo interiorizado, que passa de geração em geração. “Ainda hoje há dificuldade de dirigentes africanos se afirmarem junto de dirigentes europeus. São conhecidos pelos corruptos que não gerem bem as finanças e não conseguem tomar em mãos as decisões do país, que continuam a depender do exterior.” Resume, partilhando um ponto de vista parecido com o de Batsikama, que a reparação, “nos moldes em que tem estado a ser vista, cria mais uma forma de dependência”. “Porque vamos continuar a depender desses países para resolver os nossos problemas. [É dizer]: ‘Okay, eles estiveram a explorar-nos durante anos, eles que tratem de nós.’ E voltamos à menoridade. Sabemos que estamos a sofrer as consequências do passado, mas temos que ter uma outra atitude. Se continuarmos com o discurso dos coitadinhos, não vamos lá, é uma boa facada na nossa auto-estima outra vez.”

O historiador Luís António Covane, que foi vice-ministro da Cultura (2000-2004), vice-ministro da Educação e Cultura (2005-2009) e é reitor da Universidade Nachingwea desde 2011 (uma instituição privada da Frelimo), lembra que no estudo da história de Moçambique se classifica a exploração mercantil portuguesa em três fases: a fase do ouro, a do marfim e a dos escravos. “A nossa escravatura culminou com um processo de colonização e, em vez de se mandarem as pessoas para fora, elas passaram a ser exploradas dentro do seu próprio território: o trabalho forçado e outro tipo de escravatura interna, pessoas que trabalhavam sem salário, violência das exportações de pessoas para as plantações, para as minas de ouro e diamante na África do Sul e principalmente aqui dentro.” O sistema colonial português, principalmente durante a fase do fascismo e do nacionalismo económico que impôs medidas para a produção de matérias-primas nas colónias, foi alimentado com este esquema, acrescenta.

Pensar em reparações exige fazer contas. E estas, diz, “serão as contas mais difíceis que a humanidade será obrigada a fazer”: “Quanto custa uma vida? Quanto custa uma grávida? Quanto custa um homem que era chefe do seu povo e foi exportado? Abrangeu imperadores, príncipes, rainhas, soldados, generais que foram deportados de forma indiscriminada. Estas contas entram naquela página que são os erros cometidos no passado e devemos fazer tudo para que não se repita.”

As contas seriam difíceis de fazer também por uma questão territorial, lembra o historiador guineense a viver em Portugal Julião Sousa. “Não creio que haja lugar a indemnização de ninguém: a Guiné era uma grande extensão de território que foi variando ao longo do tempo, não tinha limites definidos. Se houvesse uma indemnização, Portugal iria entregar isso a quem? Os países que existem agora ao longo da costa africana não existiam enquanto países com fronteira definida… Teria de pagar a quem? À Guiné actual? E o Mali? E o Gana? E o Senegal?”

Com uma realidade diferente de países como a Guiné onde já existia uma população residente, Cabo Verde foi sendo habitado por população trazida de outros países africanos e por portugueses brancos. André Corsino Tolentino, embaixador cabo-verdiano, sublinha que “a escravatura se deu de forma diferente” neste arquipélago. “Em 1466 houve os primeiros núcleos destinados à América do Sul e Central. Eram iniciados em Cabo Verde até para acrescentar valor comercial. O escravo boçal, considerado inferior, era usado para ser ladinizado — ou seja, para ensinar a cultura ocidental, fazer a conversão à religião católica, ensinar as artes de servir. Um escravo ladino valia mais do que um escravo boçal. Depois de iniciado em actividades agrícolas, artesanais, etc., o escravo continua a ser exportado e reexportado para o Brasil e Caraíbas.”

Mas Tolentino toca num ponto polémico que é usado por quem é contra as reparações: o facto de os próprios africanos terem participado no comércio de escravos. Diz: “Os escravocratas foram nacionais e estrangeiros.”

É Miguel Bandeira Jerónimo quem recorda a posição do académico afro-americano de Harvard Henry Gates num artigo escrito em 2010 para o New York Times, sustentada nos trabalhos dos historiadores John Thornton e Linda Heywood (centrados na história colonial, sobretudo relativa ao Congo e a Angola): só uma “complexa cooperação comercial entre elites africanas e comerciantes e agentes comerciais europeus” permitiu o tráfico transatlântico de escravos com a dimensão que teve. Uma teoria que Henry Gates continua a defender, cinco anos depois, como disse à Revista 2 por email. Bandeira Jerónimo comenta: “Esta é uma ‘verdade triste’ [expressão de Gates] que agrada pouco a cada um dos lados da barricada. Mais, torna a resposta prática à questão das reparações incómoda. Face ao que sabemos com rigor, quem deve pagar?”

O americano Ron Daniels, do Institute of the Black World 21st Century (IBW), responde indirectamente a Gates, por telefone: “A questão é: quem iniciou e quem beneficiou? Não foram os africanos.” Rui Estrela defende que a participação dos africanos não retira o cunho racial à questão. “É como discutir se um polícia negro pode ser racista — sim, pode. Esse foi, aliás, o trabalho de Frantz Fanon sobre as mentalidades coloniais, sobre quanto tempo depois perdura a mentalidade servilista e colonialista.”

Em casos como o Brasil, por exemplo, a questão das reparações torna-se mais complexa, como faz notar a historiadora Ana Lúcia Araújo, professora na Howard University, em Washington: “Seria complicado pedir a Portugal e não ao Brasil, porque sabemos que os brasileiros nascidos no Brasil estavam envolvidos no tráfico atlântico de escravos desde o começo — então Portugal e Brasil eram parte da mesma questão.”

O que tem existido no Brasil são várias iniciativas “com intento de reparar as atrocidades [vividas] na escravatura”, como as medidas de acção afirmativas. “No Brasil, mais de metade da população é afro-descendente, mais de 100 milhões de habitantes, e a única maneira de reparar os erros do passado é através do aprofundamento de medidas que já estão sendo desenvolvidas”, como as acções afirmativas, com cotas raciais nas universidades. “A escravidão durou praticamente 400 anos no Brasil, todas as esferas da sociedade estavam envolvidas. Fica difícil: para quem pedir e quem deve receber?”

Isabel Castro Henriques lembra que dar reparações financeiras implicava “ir a todos os países de onde eram originários os negreiros”. “E não estou a desculpabilizar os portugueses de quem sou muito crítica e que não têm feito nada.” “Mas como identificá-los? E todos os outros crimes praticados ao longo da história ?”

Apesar de não estarem directamente no programa de dez pontos, as compensações financeiras têm sido referidas em algumas reivindicações. Em 1999, a Comissão Africana Mundial para as Reparações e Repatriamento exigia que o Ocidente pagasse cerca de 777 triliões de dólares a África.

Argumentos: a desigualdade entre países africanos e caraíbas, por um lado, e ocidentais, por outro, e os diferentes níveis de desenvolvimento são consequência da escravatura. Nos Estados Unidos, o debate já foi mais aceso, mas quem advoga reparações refere igualmente as desigualdades sociais entre brancos e afro-americanos e a necessidade de compensar as comunidades negras no país. É o caso de Adjoa A. Aiyetoro, activista, jurista, professora na University of Arkansas, que escreveu um artigo em que considera que as reparações aos afro-descendentes americanos são essenciais à democracia. “Continua a existir discriminação até hoje”, diz-nos ao telefone. Aiyetoro, que fez parte da National Coalition of Blacks for Reparations in America, explica ainda que para colocar as vozes dos afro-americanos ao mesmo nível das dos outros americanos é preciso reparar. “As nossas vozes têm sido marginalizadas de inúmeras maneiras, desde o emprego à educação até à prisão.”

Integrado numa série que se pode traduzir como Descolonizar a Mente, 20 Questions and Answers about Reparations for Colonialism, o novo livro do activista holandês Sandrew Hira, director do International Institute for Scientific Research, faz um cálculo do valor das reparações que os países colonizadores deveriam pagar pela escravatura e pelo colonialismo. Dá um número esmagador: “O total seria 10 mil vezes o PIB de todos os países europeus, 30 triliões de dólares vezes 10 mil.”

Os cálculos são feitos a partir da área dos continentes colonizados, do período de colonização, do ouro extraído das Américas, do número de escravos trazidos para as Américas, das estimativas da população indígena, do número de nascimentos, do valor à hora para seis dias de trabalho. “O impacto do colonialismo é gigante”, diz, por telefone a partir da Holanda. “Os países europeus não podem pagar isto, mas podem pensar na forma como lidam com o colonialismo. Idealmente, um dia atingem o nível de civismo dos alemães, que tiveram a atitude de dar uma indemnização às vítimas do Holocausto.” “[Foram] 70 mil milhões de dólares até agora, sem qualquer lei, pagos por uma questão de moralidade, de justiça.”

No seu livro, Sandrew Hira construiu uma série de argumentos que desmontam as críticas às reparações. O mais usado é que a escravatura e o colonialismo aconteceram há muito tempo. “O meu contra-argumento é que se trata de uma questão de herança. Se o seu bisavô roubou a minha casa, a minha terra, o meu carro e se hoje nos conhecermos, o que é que vamos dizer um ao outro?” Outro argumento é que quem deve pagar a indemnização deve ser quem cometeu o crime. “Nos Estados Unidos a Al-Qaeda cometeu o crime do 11 de Setembro — foram os contribuintes americanos que pagaram reparações às famílias das vítimas e às companhias aéreas. Na Europa, as pessoas aceitam que, se abrirmos um negócio na propriedade de alguém, se deve pagar algo — os colonialistas europeus abriram muitos negócios nas terras dos colonizados sem pagar renda. Se alguém trabalha para si, deve ser remunerado por isso. Os países colonizadores puseram as pessoas a trabalhar e, não tendo pago por isso, têm hoje uma dívida para com os seus descendentes. Se for ao supermercado, paga pelo que leva, os colonizadores chegaram aos países colonizados e levaram coisas sem pagar.”

A quem pagar é sempre a questão que se coloca sobre as reparações. Hira sugere que se olhe para o modelo judeu. “No caso do colonialismo, pode começar-se a negociar com o Estado e com as organizações. Em Israel, além de dinheiro, houve também apoio a infra-estruturas, bens que vieram da Alemanha, há uma cadeia de apoios até agora e é uma questão de montar a estrutura para isso. O dinheiro foi também usado para programas que ensinavam aos alemães por que se deviam fazer reparações.”

“No caso da escravatura a memória foi enterrada e há um silêncio em relação ao Holocausto dos negros”
Sandrew Hira

 

O Chafariz d’El Rey no século XVI, de autor desconhecido

“O Holocausto é considerado um crime contra a humanidade. Toda a gente no mundo sabe e leu sobre o Holocausto. No caso da escravatura a memória foi enterrada e há um silêncio em relação ao Holocausto dos negros.” 

Vantagens? “O Holocausto é considerado um crime contra a humanidade. Toda a gente no mundo sabe e leu sobre o Holocausto. No caso da escravatura a memória foi enterrada e há um silêncio em relação ao Holocausto dos negros.” A questão, para Hira, é que na Europa “ainda existe a ideia de que se fizeram muito boas coisas com o colonialismo, em vez de se assumir que foi um crime”.

Autor de várias obras sobre escravatura, João Pedro Marques descreveu como em Portugal persistiu uma forte corrente toleracionista da escravatura e uma ausência de abolicionistas, pois “temia-se geralmente que ela lesasse os interesses nacionais e equivalesse à perda das colónias”. Existia também complacência social em relação aos implicados na escravatura ilegal. “Mesmo na década de 1840, quando os governos se esforçavam por acompanhar o ritmo do abolicionismo britânico, vários indivíduos reconhecidamente implicados no comércio negreiro receberam recompensas do poder central”, escreveu.

Mas João Pedro Marques “é completamente contra a ideia de reparações” pela escravatura. “A história é um tecido enorme de injustiças e horrores, [só que] não podemos aplicar retrospectivamente os nossos conceitos a épocas distanciadas de 200, 300, 400 anos”, diz à Revista 2. “Não faz qualquer sentido julgar, criminalizar ou pedir indemnizações de coisas que não eram entendidas como crimes. Se fingimos que somos Deus e começamos a aplicar ao passado as nossas próprias ideias, onde é que a gente pára? Então, temos de nos começar a indemnizar todos uns aos outros. Imagine que resolvemos pedir uma indemnização aos franceses pelas invasões. Podemos dizer que foi por causa das invasões napoleónicas que a corte teve de fugir para o Brasil, etc., etc., até chegarmos à troika.”

Algo completamente diferente das reparações aos judeus, defende, porque os crimes nazis eram vistos como crimes, quando foram cometidos, “enquanto aquilo que se passou com os escravos não era entendido como crime em parte nenhuma do mundo, nem na América, na Europa, em África”. Louis-Georges Tin contra-argumenta: “As pessoas que eram escravizadas consideravam-no um crime… Mais uma vez, quando se diz isso, está a dizer-se que os africanos na altura não eram seres humanos, não tinham importância e o que eles dizem não tem importância. Até entre europeus era considerado um crime; em França no século XIII, havia uma lei que dizia que a terra do reino não podia ter escravos.”

Porém, João Pedro Marques defende: a ideia de abolir a escravidão de forma universal é ocidental e foram os ocidentais “que pagaram para acabar com a escravidão”.

Foi no Congresso de Viena, em 1815, que o comércio de escravos foi condenado. Em 1836 é abolido o comércio em Portugal, mas o tráfico continua clandestinamente. Na década de 1850, Sá da Bandeira decretou a abolição da escravatura e estabeleceu um prazo de 20 anos até que os libertados fossem efectivamente livres. “E portanto passaram de escravos a libertos e continuaram a trabalhar para os mesmos senhores. Só ao fim de 20 anos se tornaram livres”, contextualiza. O fim oficial da escravatura é em 1878.

Ao contrário de no Reino Unido, em Portugal não existiu qualquer indemnização. Desde 1500 que há uma consciência do crime da escravatura e isto está registado por vários estudiosos, defende, por seu lado, Rui Estrela. É com convicção que diz ser preciso discutir a legalidade do termo jurídico reparação — e “assumir que houve uma acção criminosa, é preciso pôr isto nos livros de História”. A palavra “genocídio” ou “negrocídio” deve ser usada para falar da escravatura e do comércio de escravos, afirma.

A verdade é que hoje há uma hierarquia racial herdeira do sistema esclavagista que se reflecte na hierarquia social, nota Estrela: em Portugal, a maioria das pessoas que saíram dos países colonizados por Portugal vive em guetos. “Com as questões do racismo e do racismo institucional, há uma certa continuidade. Há toda uma psicologia herdeira do sistema colonial e temos de assumi-la e travá-la. Discutir a reparação vai obrigar a discutir uma série de temas relacionados com o que Portugal é agora e com o que quer ser.”

Nascido no Haiti, o activista Louis-Georges Tin, presidente do Conseil Représentatif des Associations Noires de France (CRAN), explica que, “quando um crime é cometido, deve existir reparação” e a História tem inúmeros exemplos disso: “Muitas reparações aconteceram depois da I e II guerra mundiais; os nativos americanos tiveram reparações para o genocídio que é mais antigo do que a escravatura; o Quénia teve reparações do Reino Unido pelos mau-mau. Não há prescrição para um crime contra a humanidade e este é um exemplo.”

Por isso, primeiro devia ser feito um pedido de desculpas formal, depois devia haver indemnização para ajudar a reparar e, finalmente, quando a justiça for feita, pode existir reconciliação, afirma Ron Daniels. Quem pagaria? Nos Estados Unidos, os governos, instituições e empresas que estiveram envolvidas na escravatura. Quem recebe? “Com os afro-americanos é difícil, mas temos defendido que não interessa uma compensação individual mas a um grupo — por exemplo, um fundo para ser usado em instituições de Educação, de Saúde ou noutra estrutura comunitária.”

Embora não concorde com as reparações financeiras, Isabel Castro Henriques advoga manifestações públicas que mostrem uma consciência europeia sobre a natureza e dimensão da escravatura e do tráfico negreiro — por exemplo, acções pedagógicas, homenagens, memoriais. A criação de debates, produção cultural, tudo o que possa eliminar o que chama “silêncios envergonhados” e contribuir para “a assunção dos erros cometidos, o reconhecimento do preconceito e do racismo” seriam iniciativas a desenvolver.

Já Rui Estrela defende que parte da cooperação internacional — “que é tratada como filantropia, humanismo, solidariedade” — “poderia ser tratada como reparação jurídica”.

É também de cooperação, mas com um propósito oposto, que fala o embaixador Corsino, ao considerar que a questão das reparações deveria ser colocada “no plano da cooperação/colaboração e não da reivindicação”. Por outro lado, “uma coisa com custo zero, mas que teria um impacto simbólico muito grande seria Portugal, Grã-Bretanha, ou Bélgica, etc., reconhecer que esvaziar a região africana ou transportar os escravos do continente africano provocou os prejuízos tais e tais”.

De qualquer modo, a questão das reparações deve ser debatida, declara convictamente Rui Estrela. É verdade que em Portugal não têm aparecido, até agora, movimentos que reivindiquem activamente as reparações. O activista não sabe explicar porquê. Na geração anterior, diz, dos seus avós, o discurso “era muito feito para a questão da independência”. “Só agora, passado o capítulo da descolonização, é que há a questão de eu nascer em Portugal e de haver uma comunidade nascida em Portugal, amadurecida, com sentido de comunidade africana ou de afro-descendentes.”

Sandrew Hira e Louis-Georges Tin referem que mais cedo ou mais tarde este tema será colocado em cima da mesa dos países europeus. “Pagar as reparações custa dinheiro, mas não pagar vai custar ainda mais — muitos países africanos dizem que não querem fazer negócios com países que nos negam justiça”, diz Tin. Sandrew Hira conclui: “Os portugueses podem esperar que o tema apareça ou podem fazer como os alemães e pensar na questão da moralidade. Comecem a debater a história do colonialismo, porque senão os fantasmas irão perseguir-vos quando menos esperarem.”

 

Fonte: http://www.publico.pt/portugal

 

Joana Gorjão Henriques

Entrei para o PÚBLICO, no final de 1999, para estagiar na Cultura, onde fiquei durante dez anos, cobrindo um pouco de tudo e muito de teatro. Nessa altura, as vozes de contestação às medidas dos ministros eram diárias e a cobertura da política cultural intensa. Ao mesmo tempo, sempre escrevi sobre outras áreas. Em 2007 participei no lançamento do novo Ípsilon, onde estive como editora adjunta até 2009. A seguir fiz uma pausa na profissão e no país. Primeiro, ganhei a bolsa de um ano da Nieman Foundation for Journalism na Universidade de Harvard, EUA; depois, fui estudar Sociologia na London School of Economics, em Londres, e nesses dois anos foi quase como aprender tudo de novo. Desde o meu regresso em Julho de 2011 que escrevo sobre várias áreas, cá dentro e lá fora.

O golpe, a ingratidão e o descaso

O golpe, a ingratidão e o descaso…

Em 1971 aos oitenta e dois anos de idade, Pastinha já quase cego por causa de uma catarata, é obrigado pela prefeitura a se retirar do casarão, que entraria em reformas, com a promessa de que assim que estivesse pronto poderia voltar. E voltou?

Mestre Pastinha teve então que se mudar. Foi morar na Rua Alfredo Brito n° 14 no Pelourinho, em um quarto escuro, úmido e sem janelas. Único lugar que dava para pagar com o mísero salário que recebia daprefeitura, já que não podia contar mais com o dinheiro das aulas. Ainda na mudança, foram perdidos muitos móveis, quadros que o mestre pintava e fotografias, que juntos hoje, constituiriam um grande acervo cultural da nossa história.

Para piorar o prédio foi doado para o Patrimônio Histórico da Fundação do Pelourinho que posteriormente o vendeu para o SENAC que transformou o prédio em um restaurante.

Este foi um dos maiores absurdos praticados contra a nossa cultura. Mestre Pastinha foi usado, enganado e abandonado.

 

Tristeza

Após a mudança e a perda de sua academia, Pastinha entra em uma profunda depressão e em 1979 com 90 anos é vítima de um derrame cerebral, que o levou a ficar internado por um ano em um hospital público. Após esse período foi enviado para o abrigo para idosos Dom Pedro II, onde permaneceu até a sua morte. Mestre Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado.

No dia 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, o Brasil perdia um dos seus maiores mestres. Não só o mestre da capoeira angola, mas o mestre da filosofia popular. O menino fraco e magrinho que conquistou o respeito e admiração do mais forte.

 

A estrela ainda brilha
 
Mestre Pastinha foi um dos maiores ícones da cultura do Brasil. Dedicou sua vida inteira em favor da nossa cultura, ajudou a tirar a capoeira da ilegalidade e a colocá-la no seu devido lugar como prática esportiva e cultural, preservou e divulgou a nossa arte até fora do país, ensinou jovens e adultos a enxergar a vida de uma forma simples, mas nobre. Mestre Pastinha foi uma estrela que veio para a terra em forma de homem, para nos ensinar a filosofia da simplicidade, mas teve que voltar ao céu, pois o seu brilho já não cabia mais aqui em um lugar tão pequeno. Um homem que transformou e formou crianças em grandes adultos e fez os mais velhos brincarem como crianças, literalmente de pernas pro ar.

V Prêmio Zumbi de Cultura 2014

Como comemoração da Consciência Negra, o V Prêmio Zumbi de Cultura vai premiar as personalidades de 2014

O objetivo da premiação é mostrar a verdadeira imagem do negro brasileiro, sua beleza e altivez.

No mês da consciência negra, V Prêmio Zumbi de Cultura 2014 comemora os 319 anos de Luta e Morte de Zumbi de Palmares e contemplará 10 pessoas (mestres e artistas) que atuam nas artes negras em Minas Gerais. O prêmio foi idealizado pela Companhia Baobá Minas.

A votação é feita através das entidades que indicam 03 (três) nomes de pessoas para concorrer ao V Prêmio “Zumbi de Cultura“ no ano de 2014. Uma comissão formada com representantes da sociedade civil, classe artística, poder público e a representante da Cia Baobá, Júnia Bertolino, idealizadora do Prêmio que elegerá os premiados deste ano. O prêmio é distribuído nas seguintes categorias: dança, teatro, música (canto, samba, percussão, hip hop), religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa e atuação política.

Para a quinta edição, o Prêmio Zumbi de Cultura irá reconhecer mais importantes nomes da cultura negra brasileira. A abertura da premiação será no próximo dia 17 às 19h no Centro Cultural Banco do Brasil.

Sobre a Companhia Baobá Minas: criada em 1999, por Júnia Bertolino, a Companhia busca abordar o cotidiano do negro, a cultura, ritmos, poesia e dança afro-brasileira no intuito de trazer para o público uma imagem do negro em toda sua beleza e altivez. Além disto, mostrar a cultura popular das diversas comunidades do território nacional ressaltando valores e temáticas importantes nesta cultura como a oralidade, memória, ancestralidade e identidade, sobretudo notório saber dos mestres populares e a valorização da cultura de matriz africana.

 

A seguir a programação completa:

 

17/11/14 (segunda) – 19h às 22h – CCBB – Abertura do Prêmio Zumbi de Cultura 2014 – Roda de conversa – Política Públicas e  grandes  eventos

– Exibição do vídeo: Prêmio Zumbi de Cultura 2013– Cia Baobá Minas – comemoração da Consciência Negra

 

– Debatedores:

Cesária Macedo – Ministério da Cultura Regional Sudeste(BH)

Eliana Parreiras – Secretaria de Cultura do Estado de Minas gerais (MG)

Lindivaldo Junior- Diretor de Fomento da Fundação Cultural Palmares (BSB)

 Leônidas José de Oliveira – Presidente da Fundação Municipal de Cultura (BH)

Representante da coordenação do 7ªFAN2013(BH)

Junia Bertolino – Idealizadora do Prêmio Zumbi de Cultura(BH)

Fomentadora: Rosângela Silva – Coordenadoria Municipal de Promoção de Igualdade Racial ( BH)

 

– Encerramento: Roda Djembê – coordenação de Mateus Bahiense e Cia Baobá Minas.

 

18/11/14 (terça) 19h às 22h – Sesc Palladium – Entrega do Prêmio Zumbi de Cultura 

– Exibição de Vídeo: IV Prêmio Zumbi de Cultura 2013 – Cia Baobá Minas

– Abertura: saudação aos ancestrais

Grupo Afoxé Bandarerê

– Solenidade com autoridades e representante do projeto Prêmio Zumbi de Cultura

– Abertura:

Eliane Parreiras – Secretaria de Estado de Cultura

 Leônidas José de Oliveira (Presidente da Fundação Municipal de Cultura)

Júnia Bertolino (Idealizadora do Prêmio Zumbi de Cultura/Cia Baobá Minas)

Representante do Sesc Palladium

– Entrega do prêmio

– Shows 

– Performance Ricardo Aleixo e Djalma Correia

– Mestre Conga

– Carla Gomes

– Solo de dança Mestre João Bosco

– Performance dos alunos do CEFAR  2014

– Tom Nascimento

– Bateria Imperatriz –  NECUP

– Cia. Baobá Minas

–  Pata de Leão

 

25/11 (terça) 14 às 22h – Sala Juvenal Dias – Palácio das Artes –  O artista na arte contemporânea com sua tradição

Elissandra Flávia  – (Sandrinha)– Encrespa BH

Rubens Giaquinto – (músico – Banda João Andante)

Fomentadora: Lu Dioh (artista plástica e arte educadora da Rede Municipal)   

 

– 18 às 19h – Mostra CineAfroBH

 

– 19 às 22h –  Performances e shows

As  Damas  do  Soul

Elenice  Zuim e  Jonathan

Rodrigo Jerônimo

Cia  Baobá  Minas

Contação  de  História

 

26/11 (quarta) 14 ás 22h – Funarte-MG – Rede, Juventude e Diversidade Cultural

Roda de Conversa – 14h às 17h

 – Zaika dos Santos – Cantora e produtora cultural

 – Aruanã Leonne – Levante Popular da Juventude – Técnico Artes Visuais

– Vanicléia Silva Santos – (doutora pela USP e professora da UFMG)

Fomentadora: Vanessa Beco –  Negras Ativas

 

– 17 ás 19h – Exposição Moda, cabelo e artigos diversos

– 18 às 19h – Mostra CineAfroBH

– 19h às 21h – Roda de Conversa-  Mulher Negra, beleza e resistência

Neusa Santos – Atriz

Érica Janusa – jornalista

Etiene Martins –  Jornalista Revista Raça

Fomentadora:  Júnia Bertolino – capoeirista e bailarina afro

 

– 21h Encerramento:  Performances, Cia Primitiva de Arte Negra  e  Samba da Meia Noite

 

28/11 (sexta) 19h30 a 22h – Centro de Referência da Moda – CR Moda – Empreendedorismo nas artes negras – moda, legado e cabeça feita    

– Énia Dara –  Feira Ébano

– Mara Catarina Evaristo – ( Relações Étnico Racial -SMED/BH)

– Betina Borges –  Beleza Negra

– Edna  –  Moda   África IN

Fomentadora: Makota Kizandembu –  ANAMAB- Associação Nacional da Moda Afro-Brasileira

Encerramento: Performance e Desfile de produtores  negros

 

Assessoria de Imprensa

Luciana Braga

(31) 8742-9632

 
 
Crédito fotos: Pedro Vilela

BH: 4º Encontro Nacional de Capoeira Angola

Símbolo de cultura, miscigenação e resistência, a Capoeira Angola envolve Belo Horizonte

O 4º Encontro Nacional de Capoeira Angola traz informação e faz reflexões sobre o papel cultural e social da capoeira

Belo Horizonte, sedia pela quarta vez o Encontro Nacional de Capoeira Angola, que, nesta edição, será realizado de 13 a 15 de novembro de 2014. O evento vai discutir a participação da Capoeira Angola na educação e os 10 anos da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio. O Encontro também vai proporcionar reflexões críticas sobre os impactos simbólicos e políticos da capoeira como patrimônio imaterial. Ainda, este ano o Encontro presta uma homenagem aos 125 anos de Mestre Pastinha.

 

Com entrada gratuita em toda a programação, o 4º Encontro Nacional de Capoeira Angola vai gerar a troca de informações sobre o papel cultural e social da capoeira, por meio de palestras, debates, oficinas, exposições fotográficas e rodas de capoeira, além da Festa do Encontro. As oficinas serão ministradas por Mestres da BA, SP, RJ e GO, que participarão também das rodas de capoeira durante o Encontro, nos dias 13 e 14 de novembro. O evento vai reunir, na capital mineira, grupos de capoeira, pesquisadores, mestres, contramestres, capoeiristas de diversos lugares do Brasil, admiradores da prática, educadores, estudantes, professores, artistas, músicos, bailarinos, lideranças comunitárias e ONGs interessadas.

 

A capoeira é considerada, desde 2008, patrimônio Cultural Imaterial do Brasil por iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Ministério da Cultura. 14º saber imaterial a ser registrado como um bem cultural brasileiro, sendo reconhecido o seu valor político como prática ancestral de resistência dos negros aos antigos feitores. Uma expressão cultural que mistura arte-marcial, esporte, cultura e música, isso é a capoeira. Símbolo da cultura afro-brasileira, símbolo da miscigenação de etnias, símbolo de resistência à opressão. Outro benefício do Registro no IPHAN foi assegurar os direitos dos profissionais dessa expressão cultural afro-brasileira.

 

O Encontro Nacional de Capoeira Angola acontece desde 1998, em Belo Horizonte, e é promovido pelo Grupo IUNA de Capoeira Angola, ONG criada em 1983. Coordenado por Mestre Primo e organizado por jovens e moradores da comunidade do bairro Saudade/BH, o grupo é um Ponto de Cultura e oferece em sua sede oficinas gratuitas de Capoeira Angola para mais de 150 crianças, adolescentes e adultos.

 

O 4º Encontro Nacional de Capoeira Angola de BH é financiado pelo Fundo Municipal de Incentivo à Cultura de BH, com o apoio do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN MG), Ponto de Cultura Dim…Dim…Dom….Berimbau chamou, eu vou!, Conselho de Mestres de MG, em parceria com a SMED-PBH, CPIR e Centro Cultural da UFMG.

 

Outras informações e inscrições, gratuitas e obrigatórias, devem ser feitas pelo telefone (31) 3483-5301

Programação:

 

4º Encontro Nacional de Capoeira Angola de Belo Horizonte – 2014

 

13 de novembro

Debate – A escola na roda de Capoeira

Auditório na SMED – 13h às 17h

Rua Carangola, 288, 7º andar, Santo Antônio – BH

13h15 – Abertura com a bateria da capoeira do Grupo Iuna

13h30 / 14h30 – Mesa 1 – Educação Integral e Cultura: a Capoeira como Patrimônio

– A Capoeira e o Patrimônio Cultural – IPHAN

– O Ensino da cultura Afro-brasileira nas Escolas e a Lei 10.369

– CPIR | Política de Promoção Racial de BH

15 min aberto ao público para debate

 

Intervalo

 

15h / 17h – Mesa 2 – A Educação Integral na Roda de Capoeira

– A Escola na Roda de Capoeira – Representante da Escola Integrada da PBH

– Conselho de Mestres de MG | Objetivos e metas do Conselho – Mestre Legalzinho

– Fechamento com Mestre Primo

– Mediadora – Sra. Mara Evaristo – SMED/PBH

20 min aberto ao público

 

19h – Roda de Capoeira na Praça da Liberdade

 

14 de novembro

Oficinas e Roda – 9h às 21h

Centro Cultural da UFMG

Avenida Santos Dumont, 174 – Centro

9h às 10h – Oficina – Mestre Cenorinha/SP

10h30 às 11h30 – Oficina – Mestre Célio/ RJ

14h às 15h – Oficina –  Mestre Guaraná/GO

15h30 às 16h30 Oficina – Mestre Roberval/ BA

17h às 18h – Oficina – Nani de João Pequeno/BA

18h às 19h – Mostra CineAfroBH *

                    – PAZ NO MUNDO CAMARÁ: a Capoeira Angola e a volta que o mundo dá Brasil

          54´, 2012, Brasil

                     – Berimbau Chamou Eu Vou – Grupo Iuna

                       8´, 2011, Brasil

19h às 21h – Roda com todos os mestres, participantes e convidados

 

15 de novembro

Festa do Encontro – 13h às 18h

Sede do Grupo Iuna de Capoeira Angola

Rua Doutor Brochado, 1500 – Saudade

Apresentações culturais (Aberto ao público):

Grupo 1 Novo Jeito

Veríssimo e os Gigantes

Intervenções do Palhaço Bambulino

Grupo de Flauta do Iuna

Anderson Junior (voz e violão)

 

Assessoria de Imprensa:

Ágora Comunicação e Cultura

(31) 3075.9190

 

Assessora responsável:

Luciana Braga

(31) 8742-9632