Capoeira na Educação Formal
13 Mar 2006

Capoeira na Educação Formal

Já não é de agora que o tema: Capoeira e Educação vem sendo debatido nas rodas e nos diversos meios de comunicação…

13 Mar 2006
Já não é de agora que o tema: Capoeira e Educação vem sendo debatido nas rodas e nos diversos meios de comunicação… Vários companheiros já tem um trabalho formal dentro deste apecto da nossa capoeira. É inegavél o caracter multifacetado da capoeira assim como é inegavel o seu valor cultural para a sociedade. É dentro desta riqueza de recursos e possibilidades da nossa arte que iremos abordar a matéria sugerida pelo editor do Jornal do Capoeira, apontando para a "Capoeira na Educação Formal".
Luciano Milani

Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br
Edição 64 – de 12 a 18/Mar de 2006
 
Nota do Editor:
 
        Conheci Mestre Zulu durante do primeiro Seminário Nacional de Estudos da Capoeira (SENECA), em Campinas, maio de 2004, embora tenha acompanhado, a algum tempo, parte de seu trabalho à partir de sua produção científica sobre capoeira (livro, artigos, "papers", entrevistas em revista especializada etc). Seu livro "Idiopráxis de Capoeira" pode ser considerado um ponto de partida para quem está enveredando pela capoeira enquanto "Educação Formal". A obra, é claro, não busca esgotar o assunto, mas servir com referência para quem está iniciando-se na área.
        Tenho convidado boa parte dos mestres e doutores da "Academia" (Universidades, Faculdades de Educação Física etc), sempre argumentando que, infelizmente, a grande maioria dos capoeiras não tem acesso às dissertações de mestrado e teses doutorais produzidas nos cursos de Pós-Graduação em Antropologia, Sociologia, História e Educação Física espalhadas pelo Brasil. A triste realidade é que boa parte desta rica literatura acaba dormindo nas prateleiras das bibliotecas públicas e particulares, e não chega ao principal público que deveria ser atingido: os mestres e praticantes de nossa arte.
        Felizmente alguns mestres e doutores estão se sensibilizando da importância de se tornar mais acessível suas "produções científicas". Alguns disponibilizam por meio de revistas especializadas em capoeira, como é o caso do doutor em Sociologia e Mestre de Capoeira Luiz Renato. Outros estão, a algum tempo, contribuindo por meio deste nosso Jornal do Capoeira, com é o caso da Dr. Letícia Vidor (SP) e do Dr. Falcão (SC).
        Sabemos que ainda não é o ideal. O ideal seria mesmo que um Ministério da Educação publicasse e distribuísse, para toda a rede pública de ensino, e mesmo para as principais bibliotecas e institutos de pesquisa do Brasil e do Exterior, uma espécie de periódico, em forma de revista mensal, democratizando-se por completo a Literatura recente produzida sobre nossa Capoeira. Seria uma tacada de mestre se o próprio Ministério da Educação republicasse algumas obras raras da literatura clássica da capoeira. As obras de Plácido do Abreu, ODC, ZUMA e Inezil Pena Marinho seriam, sem dúvida alguma, as primeiras da lista.
        A seguir apresentamos a primeira de uma série de contribuições que MESTRE ZULU estará publicando em nosso Jornal do Capoeira. O artigo a seguir apresenta trechos da palestra "Capoeira na Educação Formal", proferida pelo Mestre Zulu, no VIII Fórum Nacional de Capoeira, realizado em Brasília no mês de dezembro de 2005, na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Na primeira foto estão Mestres Zulu e Falcão (Santa Catarina).
Miltinho Astronauta

Em 11 de agosto de 1972 iniciei o ensino de capoeira no Colégio Agrícola de Brasília como atividade extraclasse autorizada pela direção daquela unidade.
 
            Senti a necessidade de sistematizar os procedimentos de: ensino-aprendizagem; intercâmbios com outras unidades de capoeira; interação com a escola e com o meio acadêmico; convivência com as artes marciais, as lutas, a educação física e com a dança. À medida que eu acumulava experiências sentia também um desejo cada vez maior de criar, recriar, redimensionar, formular, selecionar, produzir, estudar, discutir, e também ouvir, e muito, os meus alunos.
 
            Inúmeras e variadas foram as minhas iniciativas na busca de alternativas para ampliar e sedimentar o projeto da capoeira na educação formal e mais especificamente nas escolas públicas do Distrito Federal.
 
            Apresentamos à Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal um projeto integrado de capoeira e ginástica brasileira. Durante o segundo semestre de 1981, fiz algumas alterações naquele projeto a fim de atender às exigências e às disponibilidades daquela Secretaria.
 
            No decorrer do mês de janeiro de 1982, após receber as modificações exigidas, o "Projeto Ginástica Brasileira e Capoeira" tramitou por algumas seções, da Fundação Educacional, obtendo parecer favorável, e definição de implantação experimental do referido projeto. Criou-se, a partir daí, um núcleo experimental de capoeira e ginástica brasileira que atenderia aos alunos a partir da 5ª série do ensino fundamental até a 3ª série do ensino médio.
 

Dentre tantos apresentei outro projeto em outubro de 1987, intitulado: "Currículos e Programas: Expansão da Capoeira na Rede Oficial de Ensino". Esse projeto integrou o Plano Quadrienal de Educação da Fundação Educacional e apresentava novos encaminhamentos e orientações que objetivavam a expansão e o desenvolvimento da capoeira na rede pública a partir de três modalidades curriculares: a primeira modalidade consistia no desenvolvimento de atividades de capoeira como opção no conteúdo programático de Educação Física de 5ª e 6ª séries, pelos professores das respectivas séries; a segunda modalidade destinava-se ao atendimento de alunos a partir da 5ª série nos Centros de Aprendizagem de Capoeira, cujo ensino seria dado exclusivamente por docentes de capoeira; a terceira modalidade destinava-se ao atendimento de alunos classificados nas competições dos Jogos Escolares do DF, para integrarem a seleção escolar de capoeira.
  
{mosimage} O projeto previa a implantação e a implementação dos Centros de Aprendizagem de Capoeira (CAC) e a realização de cursos de capacitação para professores. Ele continha ainda outras metas específicas do programa, tais como seminários, debates, publicação de caderno técnico, reciclagem de mestres e contramestres de capoeira, implementação de um núcleo de estudos e treinamentos especiais.
 

            A iniciativa de inclusão da capoeira no currículo oficial do ensino fundamental e médio rendeu vários desdobramentos, dentre eles a inclusão da capoeira como modalidade de competição nos Jogos Escolares Brasileiros (JEB"s). Em 1985 por iniciativa do Distrito Federal, foi aprovada pelos Diretores de Educação Física das Secretarias Estaduais de Educação, reunidos na SEED-MEC, a inclusão da capoeira nos JEB"s.
 
            A primeira participação da capoeira como modalidade de competição nos Jogos Escolares Brasileiros, deu-se ainda em 1985, dividida em duas etapas: uma regional, em julho; e outra nacional, em dezembro.
            A "Capoeira na Educação Formal" deve ser tratada sob a perspectiva: da pesquisa; da produção e disseminação do conhecimento; e da valorização do saber popular.
 
            Ao me referir à Capoeira na Educação estou falando do ensino sistematizado, formal, público oficial, fundamental e médio. Assim sendo, a inclusão da capoeira no ensino escolar deve ser uma atividade gerenciada e supervisionada pelo serviço público de ensino, desprovida de ingerências, gestões ou reproduções de Grupos de Capoeira no âmbito educacional.
 
            As modalidades de ensino de capoeira devem ser, no mínimo duas. A primeira eu a denominei de Atividade Curricular Programática, pelo fato de ser integrante do conteúdo programático de Educação Física, de alguma série do ensino fundamental e o seu ministrante ser o próprio professor de Educação Física, devidamente instrumentalizado. A segunda modalidade eu a denominei de Atividade Curricular Complementar, oferecida em centros de ensino ou de treinamento, aberto ao atendimento de alunos, de um certo número de estabelecimentos de ensino, observados algumas indicações: idade mínima de 7 anos; o aluno fazer opção pela atividade; a partir da 5ª série o aluno optante pela capoeira seria liberado das aulas de educação física, ficando a cargo do docente de capoeira, a freqüência, o acompanhamento, e as avaliações  dos alunos, a serem encaminhadas às escolas de origem. Na Atividade Curricular Complementar as aulas têm duração de uma hora e meia, três vezes por semana.
 
            Uma terceira modalidade de ensino é a Atividade Curricular Suplementar, oferecida em um único centro para ensino e treinamento da Seleção Escolar de Capoeira, centro este sob a responsabilidade de um docente de capoeira, um mestre preferencialmente.
 
            No Ensino Superior a capoeira deve ser oferecida como: curso de extensão; disciplina obrigatória no curso de Educação Física; disciplina optativa para outros cursos universitários; curso seqüencial com abrangência em áreas como: biologia, medicina, educação física, pedagogia, história, etc.; curso de pós-graduação, ao nível de especialização.
               
{mosimage}Gostaria ainda de fazer algumas considerações sobre a "Capoeira na Educação Formal": entendo que não devemos nos arvorar com a sanção da Lei 10.639, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira nos currículos dos ensinos fundamental e médio, e querer fazer a inclusão da capoeira na educação como uma disciplina curricular, como soube de já haver iniciativas nesse sentido; o serviço público de ensino deverá ser atuante na formação e qualificação continuada dos profissionais que desenvolvem essa atividade na educação; o professor de educação física atua como ministrante de capoeira dentro do conteúdo programático da sua disciplina; o docente de capoeira atua como ministrante de capoeira dentro das atividades curriculares complementares e suplementares.
 
Mestre Zulu, Sobradinho
Brasília, Março de 2006
 
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