Bahia: Profusão de sotaques e mercadorias vira emblema da identidade cultural
02 Ago 2006

Bahia: Profusão de sotaques e mercadorias vira emblema da identidade cultural

A primeira configuração do Mercado Modelo, consumida por um dos quatro incêndios No burburinho que envolvia um sem-número de idiomas, era quase

02 Ago 2006
A primeira configuração do Mercado Modelo, consumida por um dos quatro incêndios
No burburinho que envolvia um sem-número de idiomas, era quase impossível distinguir alguma frase com sentido. Mas, incrivelmente, toda aquela confusão de sotaques dava certo. Na linguagem universal do comércio e do negócio popular, portugueses, espanhóis, árabes e mais uma infinidade de trabalhadores, recrutados de Itapuã a Itapagipe, davam vida e alma ao Mercado Modelo, enchendo-o de uma confusão sonora. Eles chegavam pela manhã e preparavam aquela enorme babel para mais um dia na embaixada popular.
No bairro Comercial, que concentrava função portuária, a Torre de Babel se não atingiu o céu, seduziu baianos, boêmios ou não, turistas, intelectuais e gente do povo. Hoje, a pronúncia por lá não é única. O mercado continua sendo parada obrigatória para estrangeiros que fazem do passeio uma experiência de descoberta sobre o comportamento local. Quando foi criado, no entanto, o seu público era formado basicamente por baianos e apenas curiosos viajantes.
A primeira versão do Mercado Modelo foi construída em 1912, no governo de J.J. Seabra. Ficava entre a Praça Visconde de Cairu e a Escola de Aprendizes da Marinha – atualmente representado pela fonte-escultura de Mário Cravo Júnior – e correspondia a um exemplar do remodelamento urbanístico da época.
Ali, bem em frente à rampa, o mercado magnetizava. À primeira vista, a simplicidade do lugar camuflava a riqueza de nacionalidades, de produtos e mercadorias, atitudes, modos de ver o mundo. Lá, "se entrava nu e saía comido e vestido", conforme ditado popular corrente das primeiras décadas do século XX. De quebra, poder-se-ia fazer um jogo, atualizar-se na literatura de cordel, comprar folhas para um banho e provar da mais límpida e irresistível cachaça aos desejosos pratos da comida baiana.
Sua força aglutinadora o transformou em um dos grandes centros de abastecimento da capital e não só dela. Era entreposto de escoamento de toda a produção do recôncavo. Os saveiros vindos de lá e de Itaparica, carregados de mercadorias, retornavam com os mastros inclinados cheios de novas experiências e histórias. Sem esquecer, claro, da farinha de trigo, querosene e gêneros alimentícios de outras regiões, após a estadia encerrada com samba-de-roda, jogo e capoeira.
No mercado era possível encontrar comerciantes dos ramos de secos e molhados, verduras e frutas, armarinho e confecção, bares, carnes, animais silvestres, mariscos e peixes. Se não dentro do edifício retangular – que surpreendeu o imaginário barroco da época ao ser construído todo em metal, nas barracas que se espraiavam ao longo da rampa ou cercando-o. Outra infinidade era a de personagens: saveiristas, comerciantes locais e estrangeiros, donas de casa, sambistas, malandros, carregadores, mulatas, crianças, artistas, políticos e personalidades mundiais.
Babilônia da cultura popular, era a "Porta de Deus" – do assírio báb-ilu – com exemplares variados e surpreendentes da fauna e flora regionais e também de espécimes originárias do outro lado do Atlântico: noz de cola, orobôs, panos-da-costa, miçangas, que ocupavam as barracas de fundamentos de candomblé, variedade comandada por iniciados e figuras simbólicas como mãe Senhora, proprietária da emblemática A Vencedora, e Camafeu de Oxóssi, que antes do famoso restaurante, era visto em sua Barraca São Jorge.
"O Mercado Modelo era um exemplo de alegre confusão, onde se acotovelavam comerciantes de legumes, de charque, carne-de-sol e farinha de mandioca, as bancas de peixe, as de ervas medicinais, imagens religiosas e objetos para o candomblé, velas e literatura do cordel, roupas, calçados, chinelos, arreios, correias, cintos e sacola de couro, cestos e objetos de vime, fumo de rolo em forma de corda e charutos feitos de mão", escreve no livro Retratos da Bahia, Pierre Verger, que focalizou ainda a dormência dos peões depois do expediente, recostados na balaustrada defronte ao Mercado.
No ramo de verduras, os portugueses, em grande parte, estavam à frente. Já os imigrantes árabes respondiam pelo ramo de armarinhos, confecções e sapatos. Quem não podia pagar por roupas novas tinha a opção dos "belchiores", espécie de bricabraque de roupas e sapatos usados, geralmente vendidos por viúvas recentes a comerciantes italianos e brasileiros. Cereais, charque, toucinho e similares eram vendidos em estabelecimentos comandados por brasileiros, espanhóis e portugueses. Os espanhóis dominavam ainda o comércio de bares, instalados em lojas que se abriam para o exterior. Foi numa dessas que o personagem Joaquim Soares da Cunha, o Quincas, ganhou a alcunha de berro d´água, imortalizado na prosa de Jorge Amado.
Aos 16 anos, em uma dessas firmas, a Antônio Garcia Couto, começou Américo de Oliveira Lopes como balconista. Hoje com 84 anos, empresta o nome, seu Américo, a uma das ruas do Mercado Modelo atual, na Praça Visconde Cairu, onde funcionou até 1958 a terceira Alfândega. "Comecei na firma dos espanhóis que vendiam cereais. E fiquei trabalhando com eles por 28 anos. Todo comerciante tinha morada para os funcionários. Eu morava na república, que era então atrás do Mercado", recorda-se seu Américo, proprietário da Cantina Imbé Preto.
Para ele, a simplicidade, o bom tratamento dado pelos negociantes aos clientes, a oferta indescritível de produtos e a feira de mariscos e peixes eram os responsáveis pela atração de uma clientela de intelectuais, plebeus e nobres, como a rainha Elizabeth II que fez uma visita ao estabelecimento em 1968. Mas, por modéstia, o próprio seu Américo esqueceu de elencar aquelas figuras e personagens que, como ele, davam ao Mercado uma cor única.
Para o jornalista Odorico Tavares, freqüentador assíduo da rampa e de uma das mesas do Restaurante Maria de São Pedro no Mercado Modelo, na primeira metade do século XX, aquilo não era bem uma feira: "É uma exposição permanente dos produtos da terra". E não só deles, como também de gente da terra. Afinal, era no mercado que se dava "à conversa solta e sem pressa, ao trago de cachaça, ao caldo da lambreta, ao vatapá oloroso, ao sarapatel de miúdos de porco", resume assim Jorge Amado um centro de vida popular, em Bahia de Todos os Santos: Guia de ruas e mistérios.
Seu Américo é um dos poucos remanescentes do antigo mercado ainda na ativa. A maioria já morreu e os pontos foram passados para outras pessoas ou são gerenciados por descedentes, como Leopoldo Carrera, 57 anos, neto de espanhol e filho de Leopoldo Carrera Pinheiro, 82 anos. Ele herdou do pai, que dá nome à rua onde está instalado o bar, um local de resistência ainda freqüentado por baianos.
O encantamento resistiu a três incêndios no antigo mercado, nos anos de 1922, 1943 e 1969, e ao último, em 1984, já quando instalado no prédio atual. Envoltos em mistério e contradições nunca foram totalmente esclarecidos. O mercado acompanhou as alterações da vida econômica e social da cidade e quando é forçado a mudar para o imponente prédio da Alfândega, em 1971, passa a vender apenas artesanatos e produtos de lembranças da Bahia.
Com novo ramo, muitos continuaram acreditando. O marchand e colecionador Dimitri Ganzelevitch, francês, nascido em Marrocos e de ascendência russa, sentiu aquela energia magnetizante e fez história, como os demais estrangeiros, ao abrir a primeira galeria de arte dentro do Mercado Modelo na década de 80. "O Mercado Modelo me ajudou a entender melhor a Bahia: a convivência harmoniosa entre diversas classes sociais. Foi uma experiência humana muito forte. Eu sempre me interessei por arte popular, mas a cultura popular brasileira, o conjunto de bens imateriais se impôs para mim nas portas do mercado", contou Ganzelevitch, proprietário por 16 anos da Galeria Flecha, que divulgava artistas locais. Mistério e descobertas fazem parte deste universo do Mercado Modelo. Onde encanto e magia reinaram absolutos e crenças e superstições alimentam a saga de seus novos habitantes. Nas palavras do sambista Riachão que tão bem canta as peculiaridades da Bahia: era mercado da felicidade.
 
 
Fonte: Correio da Bahia – http://www.correiodabahia.com.br

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