04 Mar 2005

ÉTICA NA CAPOEIRA

Nota : (A.A. Decanio Filho) Transcrição do trecho pertinente à elaboração do CE da ABPCOs interessando poderão encontrar o texto integral no

04 Mar 2005

Nota : (A.A. Decanio Filho) Transcrição do trecho pertinente à elaboração do CE da ABPC
Os interessando poderão encontrar o texto integral no Boletim Virtual

V – O QUE É ÉTICA ?

A Ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento. Entretanto, ainda nos é obscuro o comportamento de antigas civilizações, assim como seus conceitos de bem, valor, liberdade, Lei e outros.
O processo de desenvolvimento das civilizações trouxeram muitas mudanças nos conceitos éticos aplicados à sociedade; com isso “não são apenas os costumes que variam, mais também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria de um povo a outro.
Os ideais éticos variam muito, podemos ver no transcorrer da história. Para alguns gregos o “ideal  estava na busca teórica e prática da idéia do bem ou   estava na felicidade- entendida como uma vida bem ordenada, uma vida virtuosa, onde as capacidades superiores do homem tivessem a preferência”. Para os cristãos o homem viveria para servir a Deus, diretamente, e em seus irmãos; já no período renascentista ou iluminista, ou seja, entre o Século XV e XVIII os burgueses tinham como ideal de uma vida ética “viver de acordo com a própria liberdade pessoal e em termos sociais, o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade e fraternidade”.
Atualmente, o sistema capitalista é um fator influenciador da ética social, enquanto os pensadores de existência insistem em ter a liberdade como um ideal ético “em termos que privilegiam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resoluteza, cuidado etc”, e que a maioria dos países ricos buscam a ética do prazer, muitas vezes sem moderação, o mesmo capitalismo reduziu-se à posse material de bens, ou à propriedade do capital”.
No entanto este comportamento ético hoje, talvez não vigore como deveria pois há uma forte influência dos meios de comunicação de massa, dos aparatos econômicos, do Estado e das ideologias que nem sempre são de maioria, fazendo com que não haja cidadãos conscientes, e homens livres de pensar e agir. Suas atitudes tornam-se restritas ou impostas por quem detêm o poder; não há um desenvolvimento crítico. O comportamento ético é manipulado na maioria das vezes por termos cidadãos incapazes de julgar e participar conscientemente.
Com isso os maiores problemas éticos de hoje, são em torno da eticidade, ou seja, família, sociedade civil e Estado-a ética não pode ignorar esses fatores.
No contexto da família, podemos verificar que “as transformações histórico-sociais exigem hoje, éticas  sobre o relacionamento dos pais com os filhos” e isso se dá com a forte influência dos meios de comunicação e, também, o desenvolvimento da mulher na sociedade, assim como outros grupos oprimidos e isso exige uma reformulação ética diante da sociedade de hoje.
A questão ética em relação a sociedade civil não engloba somente a consciência e o comportamento de cada indivíduo; ela está relacionada com o julgamento do sistema econômico e social como um todo.
“Em relação ao Estado, os problemas éticos são muito ricos e complexos”, diante da desigualdade social onde quem detêm o poder é quem possui o saber e consequentemente “a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um estado livre e de direito”. As Leis, a Constituição, as declarações de direito, a definição dos poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais.

VI – ÉTICA NA CAPOEIRA

“A partir do momento que se corta as raízes como irá se perpetuar a espécie?” (Mestre Nô-ABCP-Ba).
O estudo da Ética na capoeira se faz necessário tendo-se em vista o propósito que a capoeira palmares vem implantando na Paraíba e no Brasil.
Partindo deste conceito de ética que diz “ser o estudo das ações ou dos costumes” e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento, podemos por meio de uma análise histórica e atual, fazer um estudo do contexto ético na capoeira.
O capoeirista, como sabemos, sempre foi alvo da marginalização, já que a capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República e seu simples exercício na rua davam até seis meses de prisão. Mas para fugir deste conceito o baiano Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mstre Bimba, inovou a capoeira e criou, também, um código de ética rígido que exigia até o ato da higiene pessoal.
Não só Bimba, mas os capoeiristas em geral que trabalharam para o crescimento e valorização dessa arte, sempre buscaram métodos eficazes para bem desenvolvê-la.
Um dos princípios fundamentais, em comum à capoeira Angola e Regional começa com quem joga. Este tem de cumprimentar o parceiro “ao pé do berimbau”, quer dizer, agachados perto do instrumento que dará o ritmo dos golpes. Ambos devem estarem limpos, “devidamente trajados”, e jamais sem camisa. Deve-se procurar a harmonia, na qual um movimento de defesa já é o começo de outro, de ataque, sem ferir o companheiro. Os oponentes não se atracam, mas lutam “por aproximação”, respeitando a hora de entrar e sair da roda. E ninguém deve aprender capoeira para sair Batendo nos outros.
Já dizia o mestre Pastinha que “capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta”. Com isso a tática do bom capoeirista sempre foi de se fazer de fraco diante do oponente, tornando em luta violenta no momento certo, mas perigosa sempre.
Com o passar dos anos a luta brasileira tornou-se umpouco mais “respeitada”, foi reconhecida pelas autoridades e divulgada pelo mundo, em contrapartida, inova em sua expressão. Muitos grupos descaracterizaram a capoeira, desincorporando seu joga ou luta das raízes que até pouco tempo a classificava como uma manifestação folclórica. Mas todo este quadro deixou a capoeira numa situação de conflito sem igual: se mantida e ensinada apenas como manifestação cultural, sem nada acrescentar, provavelmente ela estagnará e não terá sua merecida difusão; se evoluir de maneira desenfreada poderá descaracterizar-se.
Ainda existem alguns mestres que ensinam a seus alunos a luta e impõem à disciplina, o seu ensinamento como uma manifestação de nossa cultura, mesmo assim, muitos adeptos da capoeira a buscam, apenas para cultuar a forma física ou porque é moda.
Eles esquecem, e creiamos nós que alguns mestres também, que “capoeira é um diálogo de corpos, “eu venço quando o meu parceiro não tem mais respostas para as minhas perguntas” (mestre Morais).
O resultado desta nova identidade da capoeira, desvirtuada de suas raízes, são os campeonatos e “vale-tudo”. Eles provocam uma enorme evasão nas academias, pois acabam desistimulando o aluno que quer treinar e que busca, na luta brasileira resistência e luta. A capoeira é única, mas nestas competições ela perdeu o estilo da própria luta. A falta de metodologia de ensino e o desinteresse em
aperfeiçoar o conhecimento sobre a arte são os principais motivos apontados por professores e mestres do grupo Palmares. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, mestre Nô, a “questão ética na capoeira está um self-service”, onde cada um faz o que quer, deixando para trás toda cultura que a capoeira carrega.
Outro fator de peso no desenvolvimento da capoeira é a sua divulgação na mídia. Com isto ela recebeu novos adeptos, se apresentou aos desconhecidos e conquistou um pouco mais de respeito e confiança. Por outro lado, este crescimento desorganizou toda uma estrutura de trabalho, o que antes era voltado para a conscientização e preservação dos costumes, hoje é dirigido para performance e/ou vale-tudo. Mesmo com toda esta transformação, ainda não foi extinto pela sociedade o preconceito por aqueles que praticam capoeira. De acordo com o professor Henrique (kiluangi de Palmares) “nós podemos ter acesso à mídia, isso não é negativo; mas para conseguirmos tirar essa imagem marginal é preciso mostrar que a capoeira realmente mudou, que é uma arte unificada com as camadas sociais, que ela é uma arte do mundo e não de uma região, cidade ou bairro. E para isso, os professores, os instrutores os mestres, ambos tem que passar informações por meio de uma didática-metodologica-que busque disciplinar e formar seus alunos, sem perder o espaço na sociedade e nem enterrar esta cultura de mais de 300 anos”.
O ingresso da capoeira nos jogos olímpicos é outra grande conquista, mas preocupa muito. Na pesquisa realizada com os mestres de capoeira tanto angola como regional, no 5?? batizado e troca de cordéis do Grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares, em março de 1997, verificamos que todos os entrevistados estão a favor desse novo passo mas, ao mesmo tempo, preocupados com as regras que irão prevalecer e, principalmente, com a formação do capoeira. Muitos professores são contra e alegam que “a partir do momento que ela entra em competição, seus adeptos deixam de fazer a parte histórica e cultural da capoeira” para desenvolver o lado agressivo, o que poderá acarretar em “um companheiro querendo destruir o outro por causa de uma medalha”, conforme afirmou o mestre Naldinho.
Após conquistar seu espaço e reconhecimento pela maior parte da sociedade brasileira, a capoeira atingiu uma das áreas fundamentais de necessidade humana e social-a educação. Ela faz parte do currículo em diversas escolas e universidades do país e do mundo. Este ponto é fundamental e gera muitos debates nos grupos, onde, ensinar capoeira é muito mais que fazer um ou dar uma chapa de angola. Os experientes professores e mestres acreditam que as escolas e universidades, ao selecionarem seus discentes, devem buscar nestes qualidade, orientação, metodologia, responsabilidade e fundamentos, pois estes são elementos fundamentais para que se ministre uma verdadeira aula de capoeira. Contudo, esperamos que esse novo contexto histórico-social seja analisado e direcionado para o cumprimento legítimo das atividades da capoeira e que seus adeptos saibam destinguir a ética da estética, assim como a responsabilidade de mais um modismo social. A ética se tornará real a partir do momento que os capoeiristas forem conscientes e empenhados na valorização e preservação dessa  arte que encanta o mundo inteiro.


Patricia Morais – João Pessoa/PB – Outubro/97

Leave a comment
Mais Artigos
comentários
Comentário

Deixar um Comentário