A FASCINANTE ANGOLA… de PASTINHA À MORAES
06 Abr 2005

A FASCINANTE ANGOLA… de PASTINHA À MORAES

 Crônica em homenagem aos Mestres Pastinha (nascido em 5 de Abril de 1889), e um de seus sucessores, Moraes   Dia Nacional

06 Abr 2005
 
Crônica em homenagem aos Mestres Pastinha (nascido em 5 de Abril de 1889), e um de seus sucessores, Moraes
 
Dia Nacional e Internacional da Capoeira Angola
 
 
Como preliminar, devo deixar claro, que a Capoeira Angola  não se limita a esses dois grandes mestres, tem vários outros, excelentes, sendo que  alguns até completamente esquecidos e jamais mencionados em artigos e livros.   Escrevo hoje sobre esses dois   " Pastinha (Vicente Joaquim Ferreira) e Moraes (Pedro Moraes Trindade) " pois, sem sombra de dúvida, já estão consagrados como responsáveis por duas fases marcantes na existência e na sobrevivência e consolidação deste cada vez mais fascinante Jogo de Angola. Pastinha, nos primórdios, Moraes, mais adiante, na sua luta heróica e vitoriosa para não deixar a Angola morrer (em certa época foi dada como prática em extinção). Claro, nomes como Cobrinha Verde,  Waldemar de Corta Braço, João Grande, João Pequeno, Caiçara, Canjiquinha, Gato Preto, Paulo dos Anjos, Curió e tantos outros devem ser, e serão sempre reverenciados. Já estamos, inclusive, selecionando artigos sobre toda esta gente. No momento, entretanto, é obrigação de todos nós, amantes da verdadeira Capoeiragem, lembrar a fundamental importância desses dois nomes.  Com ênfase até no relativamente jovem mestre Moraes, pois foi ele que, dominando um bom inglês, peregrinou pelos Estados Unidos e Europa alertando para os malefícios de uma Capoeira "rainha do marketing" e, mostrando e demonstrando o valor e o fascínio da sua Capoeira Angola. Moraes, pelo mundo afora, sobretudo quando a Capoeira Estilizada ameaçava reinar absoluta, saiu palestrando e ilustrando as próprias palestras, com antológicas demonstrações do Jogo de Angola, incluindo-se aí, magistrais aulas, teóricas e práticas, sobre os verdadeiros fundamentos da  parte rítmica e cantada (incluindo-se aí o misterioso "Blue Note").
  
Como bem dizia o saudoso Mestre Caiçara (Antônio Carlos Moraes), "tem muito mestre de hoje que mal sabe soletrar e já sai dizendo que sabe ler".  Urge, pois, para esses jovens mestres afoitos, mostrar que "roupa de homem não dá em menino" (créditos, também, para Mestre Caiçara).  Vamos ao artigo.
 
Capoeira Angola
É de dentro pra fora
Capoeira angola
É de fora pra dentro

 
Criei este corrido de angola, durante uma oficina de Capoeira que mestre Curió (Jaime Martins dos Santos, Escola de Capoeira Angola Irmão Mestre Pastinha) ministrou no Centro Cultural de Capoeira Angola NGOLO, do qual faço parte.  Grupo este, sediado em São José dos Campos, São Paulo. O Ngolo é "mestrado" pelo jovem Marcelo Ribeiro Santos (prof. Marajó), discípulo de Mestre Prego, pertencente à linhagem do saudoso José Gabriel Goes (Mestre Gato Preto: O Berimbau de Ouro da Bahia).
 
A princípio, o corrido tinha mais a ver com a movimentação de jogo, hora se abrindo, hora se fechando todo, durante as vadiações. Mas ao analisar um pouco mais, deparei com a situação atual da Capoeira Angola e percebi que este momento tinha um pouco a ver com tal corrido.
 
Para certificar-se disto, basta o leitor folhear a agenda anual dos principais mestres itinerantes de nossa angola. Moraes (Salvador), Cobrinha Mansa (Rio e Washington DC), Marrom (angoleiro do Rio), Pé de Chumbo (São Paulo), Grande João Grande (Nova Iorque), Grande João Pequeno (Salvador), Formiga (Niterói), Jogo de Dentro (São Paulo e Canadá), Camaleão (Rio e França), Cláudio (Feira de Santana e São Paulo), Pedrinho de Caxias (Rio, Argentina e México) e Angolinha (Rio), não param de carimbar seus passaportes. Estão em um constante vai-e-vem, hora de dentro pra fora, hora de fora pra dentro.
 
Hora estão na França, por onde ensinam os mestres Camaleão (Marseille), Guará (Paris) e Dourado (Bordeaux), ou então pela Alemanha, terreiro dos angoleiros Rosalvo, Laércio e Pernalonga (Irmãos Guerreiros, São Paulo). Ou até mesmo no Japão, de onde recebi dois inesperados e valiosos presentes: Shinji Kubohara, discípulo de Mestre Brasília, que ensina na cidade de Nagoia, enviou-me uma fita de vídeo, gravada em 2001, quando Mestres João Grande e Moraes estavam ensinando a capoeira angola a um grupo de japoneses. E, acreditem, os jovens angoleiros da Terra do Sol Nascente não estão deixando nada a desejar para muitos grupos de angola do Brasil. O segundo presente, também recebido do professor Shinji, foi um livro contendo cantos (ladainhas, corridos etc) todos traduzidos para Japonês. Existe uma segunda tradução em andamento. Mas isto é uma surpresa a ser revelada oportunamente.
 
Mas para chegar-se a este momento, quando a Angola faz grande sucesso pelo mundo afora, talvez mais fora do que dentro do próprio Brasil, os mestres Moraes e Cobrinha Mansa tiveram que fazer uma jogada – ou várias jogadas de mestre, literalmente.
 
{mosimage}Quando Mestre Pastinha fez sua magistral volta ao mundo para o plano superior, Moraes, que se encontrava no Rio de Janeiro, percebeu que seria o momento de reunir os guardiões da angola para, em conjunto, definir uma estratégia que permitisse a todo mundo conhecer seus verdadeiros fundamentos. A rigor, o esforço incluía repensar tais fundamentos e ancestralidade criando uma linguagem mais palatável ao mundo moderno. Afinal, como já comentei em um artigo anterior, a dinâmica faz parte das tradições populares (créditos, mais uma vez, para Mestre Edison Carneiro!), e a capoeira, mesmo a de Angola, também mudou muito dos registros de Rugendas para cá. Se bem que para alguns aquela capoeira ainda não era a de Angola, o que, de certa forma, não discordo.
 
Assim pensou, assim fez, tanto assim que, regressando do Rio à Salvador, no ano de 1981, Moraes, ombro-a-ombro com o seu então contramestre Cobrinha Mansa conseguiu reunir os velhos mestres para acompanhar e compor o que viria a ser o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, GCAP, em sua nova – e triunfante – jornada. Fase esta que eu, frequentemente, chamo de fase Pós-GCAP-80.
 
Durante uma palestra em Campinas, São Paulo, ano de 2003, Moraes comentou que gostaria que todos os angoleiros atuais fossem parte do GCAP. Algo que se tornou impossível, por motivos que não cabe no momento avaliar, sendo apenas importante registrar que jamais o mérito da iniciativa e do talento de Moraes poderá ser negado, até pelo contrário, deve, e estão sendo, sempre respeitados e aplaudidos. Com muita força de vontade, talento e abnegação, Moraes criou e, sem alarde, fez decolar seu GCAP, passando a ser um dos principais centros de resistência ao marketing desvairado de todo e qualquer estilo de capoeira flagrantemente estilizado, comercial e industrializado.
Graças ao Seu Mestre Moraes diversas linhagens da capoeira angola foram, e continuam sendo, resgatadas e irmanadas. Em São Paulo, por exemplo, podemos hoje encontrar angoleiros das linhagens "pastiniana", "caiçariana", de Paulo dos Anjos, de Gato Preto, Espinho Remoso, Canjiquinha, Lua de Bobo, Boca Rica e também de Waldemar da Liberdade.
 
Ou seja, graças à vinda de diversos mestres angoleiros a São Paulo, alguns ficando bom tempo por aqui;  outros com sucessivas passagens para oferecer cursos e oficinas, podemos encontrar trabalhos que nenhuma espécie de puritanismo angoleiro haveria de ignorar. E não ignoram. Tanto é que nos últimos eventos de Capoeira Angola em São Paulo, tem visto boa parte dos mestres que ensina suas angolas circulando por aqui, por ali e por acolá.
 
Mas isto é completamente compreensivo, uma vez que o mundo da Capoeira, em teoria, e parcialmente em prática, é livre para todos. Além do que a Capoeira angola é de todos também.  Segundo palavras do próprio Mestre Moraes, durante o Segundo Evento de Capoeira Angola do grupo Bahia Eu te Amo, promovido pelo Mestre Careca, sob a supervisão (na época) do Mestre Jogo de Dentro, ano de 1996, "em todo lugar do mundo pode-se ter angoleiros e grupos de angola, basta se ter dedicação integral, amor e respeito pela própria Angola".
 
Parece que Moraes já estava prevendo que a angola iria se expandir de tal forma que alcançaria os mais longínquos países. E tudo isto, graças aos Velhos Angoleiros da Bahia, e aos novos jovens mestres espalhados por todo Brasil e pelo mundo, é claro.
Mestre Cosmo (Claudival da Costa), meu saudoso mestre, sempre tratava de prestar homenagem, mesmo que sem muito alarde, ao mestre Pastinha, principalmente no dia de hoje (5 de abril), quando mestre Cosmo dizia ser o Dia Nacional e Internacional da Capoeira Angola! (Na foto, estampa de camiseta elaborada pelo Cosmo, abril de 2003)
 
Nossos respeitos e aplausos, portanto, ao Mestre Moraes, cujo nome já está escrito, com letras de ouro, na História da Capoeira. Juntamente com vários outros nomes da Angola, muito especialmente o querido e saudoso Mestre Vicente.
É em nome desses dois grandes nomes que o Jornal do Capoeira agradece e presta homenagem a todos mestres da Capoeira Angola.
 
 
Iê maior é Deus
Iê maior é Deus, camará


 
Miltinho Astronauta
S. J dos Campos, São Paulo  – Abril / 2005
 
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