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Regras e Tradições

Regras e Tradição

Capoeira é beleza, capoeira é tradição…capoeira tem fundamento, capoeira é vibração” A tradição é um conceito importante no mundo e discurso da capoeira; a gente fala por exemplo da tradição que tem que ser mantida e respeitada, a tradição das vertentes da capoeira Angola ou Regional, ou os rituais dentro da tradição.

Assim, a tradição é explicada como algo que tem que ser seguido, não só porque sempre foi assim, mas porque dá uma certa estrutura, que no fim – contrariamente – nos dá uma certa liberdade: de controle, de disciplina e de autoconhecimento por exemplo. E que deixa o jogo acontecer, como falei no último texto.

Então enquanto a gente se movimenta ‘dentro da tradição’, está tudo bem: dentro da tradição existe uma certa liberdade, mas porque a gente precisa da tradição, e porque seguir os deveres nela? Porque não podemos logo partir para a liberdade?

Na verdade, na filosofia e na psicologia existe a consciência de que uma liberdade absoluta não existe, e se existe, de fato não é a liberdade. A liberdade existe sempre ao lado de algo que a limita.[1] Sabem na psicologia que uma liberdade sem limites, por exemplo a liberdade de poder escolher tudo que se quer, leva a uma ansiedade. A criança que é criada sem nenhuma regra, depois tem muitas problemas de auto-controle, e de construir uma vida própria. A pedagogia consiste em ajudar a criança em crescer e se desenvolver, e isto é feito com a aprendizado de negociar com os limites.

 

Limites portanto, são deveres. E a tradição também tem seus deveres. Fiz um teste. Tenta fazer um ‘pesquisa de palavra’ num grande documento de músicas de capoeira, e conta quantas vezes a palavra ‘tradição’ e ‘regra’ aparecem: ‘tradição’ encontrei várias, ‘regra’ somente uma: “..Mas se ficar inventando regras vou chamar o meu advogado..”

A regra não parece fazer parte do discurso lírico da capoeira, e mesmo assim tem várias regras na capoeira, regras escritas e não-escritas. Muitas delas justificadas para ajudar a ‘manter a tradição’. Então como é que é isso?

Vários (as) mestres (as) que entrevistei, costumaram explicar a regra como algo imposto, que diz o que tu podes e não podes fazer. Enquanto à tradição é algo voluntária, onde você faz porque você quer; porque dá prazer e uma sensação de criar uma certa liberdade. Tudo bem, mas deveres são deveres, não é? Você pode ou não pode. E há varias regras que estão lá para respeitar a tradição, pelo menos segundo eles que defendem-lhes. Qual a diferença então?

De fato, a tradição está dentro de um sistema maior, que determina a cosmovisão do mundo. Enquanto a regra é norma, a tradição tem ‘regra’ também, mas a função dela na tradição é diferente; suporte a perspectiva da vida. Enquanto a regra como norma é para deixar funcionar um determinado sistema.

 

Quando a gente entra numa casa que não é a nossa, precisamos respeitar as regras da casa, igual como nas escolas de capoeira. Porque a gente sabe que quando nós não fazemos, isto cria confusão e é um sinal de desrespeito. A regra é então da casa, mas respeitar essas regras da casa, não é uma regra em si: é uma tradição, que cria uma sociedade mais agradável, onde todos tem o seu espaço. O que ajuda o nosso bem estar. Uma outra analogia será um explicação dado a mim uma vez assim: a tradição é ter berimbau na roda de capoeira, uma regra é ter 3.

 

Regras são introduzidas, inventadas às vezes, por uma escola ou vertente de capoeira, mas isto não automaticamente quer dizer que fazem parte da tradição da capoeira. Voltando para o exemplo do berimbau, a regra de ter três berimbaus na roda respeita e segue a tradição de ter berimbau na roda. O numero de três não fazia parte desta tradição, vendo que há vários exemplos de grupos e escolas de capoeira onde usava mais ou menos berimbaus, dependendo das possibilidades, necessidades e preferências. E todos sabem que mestre Bimba só usava um.

Mas quem sabe, talvez um dia 3 berimbaus será tradição. Porque como as regras são postas ou inventadas seguindo as necessidades e preferências de quem lhes faz, também a tradição não é algo fixa pela eternidade. Uma tradição também se evolui.

 

O filósofo Escocês MacIntyre nós explica que a tradição na verdade é um argumento estendido pelo tempo em que algumas concordâncias são definidas e redefinidas, pelos debates externos e internos.[2] Voltamos para o exemplo do berimbau, teve um época, no início do surgimento da capoeira, onde não havia berimbau quando a capoeira era jogada. Há vários documentos históricos para testemunhar esse fato. Mas, como várias outras manifestações da cultura afro-brasileira – como o batuque e o samba de roda – a execução é feita em roda, com música e dança, consistindo de diferentes instrumentos e canto. Ter musica na roda é então uma tradição até mais antiga, podemos dizer. Mas também podemos ver que o debate não termina nunca, vendo agora também o acrescentamento de surdo e triangulo (e antigamente o violão) nas rodas de capoeira.

Segundo MacIntyre, tratando-se de tradições rivais, o relativismo não seria uma perspectiva de assimilação ou diálogo entre estas tradições rivais.[3] Ou seja, pode-se acabar em rupturas absolutas, onde nenhum debate entre as duas tradições ou vertentes acontece mais. Podemos ver isto como um risco real entre as vertentes de capoeira Angola e regional ocorrido nós últimos 15-20 anos , que hoje em dia parece estar diminuído.

 

Um debate entre tradições é então muito mais profundo e com conseqüências maiores, de que um debate entre regras; muitas vezes o debate sobre regras é baseado somente em uma tradição.

 

As regras ‘universais’ da capoeira – que incluem tanto o uso de uniforme e/ou abada, graduações e títulos, etc. – foram introduzidas na tentativa de oficializar a capoeira numa época (1920), aonde a tendência era desenvolver o aspecto esportiva da capoeira, indo por lado de dô e a pratica no ringue.

Essa tendência aparece dentro um contexto, aonde a capoeira se depara com uma concorrência forte com as lutas Japoneses, o boxe e o savate na época, como o historiador Matthias Assunção nos conta.[4] Uma das conseqüências foi a luta regional Baiana, que mestre Bimba então criou; mas paralelo ao trabalho de mestre Bimba já existia várias outras tentativas de esportizar a capoeira. Com o apelo do governo nacionalista, houve uma tendência em reduzir a capoeira aos seus movimentos ofensivos e defensivos, eliminando aspectos ritualísticos e simbólicos (que é algo cultuado dentro a tradição), a sua musicalidade original e a prática e aprendizagem baseados na tradição oral. Gerando sistematizações, baseadas em regras e princípios oriundos de uma prática didática esportiva.

A gente conhece as críticas – justificadas ou não -, que depois surgiram contra a ‘militarização’ ou a ‘esportização’ da capoeira; regras que foram vistas como não características da capoeira, especialmente no âmbito da competição. Hoje podemos ver um desenvolvimento parecido no ‘empreendedorismo’ dentro a capoeira. Mas a idéia de ter regras na capoeira não foi atacada em si mesmo. Enquanto elas mantiverem a tradição, parece estar tudo bem.

 

Hoje em dia – talvez com o resultado das pesquisas e a realização de que ‘a união faz a força’ – haja uma maior realização de que no fundo a capoeira está inserida numa tradição cultural própria, que é baseada na tradição afro-brasileira. Uma tradição que as varias vertentes de capoeira partilham. Uma arte em que os praticantes segue uma tradição que – entre outras – cria um relacionamento com pessoas de uma outra forma que na sociedade diária; e assim dá mais liberdade aos praticantes de se movimentarem dentro desta sociedade. Uma tradição que tem deveres que são seguidos pela própria vontade e prazer, porque sentimos que nos faz bem. Cada casa tem regras que devem ser respeitados, segundo as tradições de nossa sociedade. Mas isto não quer dizer que estas regras definam a tradição da capoeira.

regul[1]


[1] Pode se explicar um pouco como a idéia que não existe o bem sem existir o mal, agora, depois há varias maneiras de ver o que é o ‘mal’; certo é que é um conceito moral, mas pode ser de uma falta de ação ou de negação, até uma ação grave, como matar ou manipular alguém.

[2] MacIntyre, A. (1988) Whose Justice? Which Rationality? Notre Dame, University of Notre Dame Press. P. 12

[3] Idem.

[4] Assunção, M. (2012) Ringue ou Academia? A emergência dos estilos modernosda capoeira e seu contexto global. No: História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. http://www.scielo.br/hcsm

Berimbau, a arma da feminilidade das mulheres Bantu

 

“Berimbau, a arma da feminilidade das mulheres Bantu. Após uma terrível batalha, a deusa protectora transformou o arco do guerreiro no primeiro instrumento musical da tribo, para que a música e a paz substituíssem as armas e guerras para sempre.”

 

Existe um facto que goza de certa autoridade, sendo que, quando se pesquisa sobre o berimbau africano, seja ele de que nome, origem, ou tamanho for, é impossível ignorar que o gênero feminino desempenha um papel extremamente considerável em relação aos arcos musicais.

A popularidade do berimbau cresceu transversalmente da arte afro-brasileira mais conhecida por Capoeira. A Capoeira, até certo ponto, era de acesso restrito a um ambiente masculino. Significantemente, as portas foram abertas para o sexo oposto e já se conquistou bastante espaço por meios de dedicação e empenho.

Porém, as mulheres na esfera capoerística ainda se encontram vítimas de regras discriminatórias, consideradas pela comunidade como tradição. Regras essas que não as permite tocar o berimbau e, em certos momentos, não poder participar durante a roda.

A mulher africana, apesar de viver em constantes normas estritas e rigorosas entre elas, sendo as responsabilidades matriarcas, no último centenário foi a que mais fortificou a presença, e a popularização do berimbau africano na plateia continental e internacional.

Através do som melódico e hipnotizante do instrumento de uma corda só, orgulhosamente canta-se cantigas de centenas de anos atrás, transmitidas pelos seus antepassados.

Canções que contam estórias das glórias dos seus povos, sobre a felicidade, a tristeza, o amor, o ódio, a paixão, a traição, as desventuras de casamentos e cantigas infantis.

Não somente a mulher é tradicionalmente considerada a base da família, mas também compõe, canta e constrói os próprios instrumentos que toca.

Cito duas personalidades da música tradicional Bantu-Nguni e herdeiras da tradição de tocadoras de arcos musicais, como a Princesa Zulu Constance Magogo e a Dona Madosini Mpahleni, que hoje em dia goza de noventa anos de idade.

Com esta chamada, conto com mais reconhecimento e consideração para com as mulheres, não somente na capoeira mas também no berimbau e outros instrumentos musicais.

 

{youtube}yEve7Yrw8iM{/youtube}

*Aristóteles Kandimba, angolano, pesquisador, cronista, cineasta e professor de capoeira Angola.
kandimbafilms.blogspot.com
https://www.facebook.com/pages/Angola-Ministry-of-Culture-Pictures-Events/150849848265087?fref=ts
(Mitologia Bantu-Nguni, Zulu – Africa do Sul)

 

Matéria sugerida por Nélia Azevedo – (Portuguesa)

Alemanha: Campeonato Alemão de Capoeira

Entre os dias 12 e 14 de Maio , será dado na cidade de Nuernberg um grande passo rumo a inclusao da Capoeira como esporte de demonstração na Olimpiadas de 2012.

 

Isso é o que pretende o Deutsch Verein für Capoeira , na pessoa do Presidente da entidade, Mestre Paulo Sorriso ”Estamos na luta a muito tempo aqui em territorio europeu no sentido de unir os grupos em busca de uma colocao da Capoeira como esporte olimpico e o primeiro passo para isso foi a fundação da Federeção Alemã de Capoeira e o evento que já conta com a participacao e o apoio de varios atletas e patrocionadores”

 

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FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA

Os fundamentos da capoeira ou, como usam, incorretamente, alguns descuidados da nossa língua, suas “fundamentações“, vêm sendo discutidos com certa freqüência a partir do uso infeliz desta palavra pelo Mestre Noronha, que se disse conhecedor único dos seus mesmos, sem os enunciar nos seus obscuros “escritos”…
Em trabalho algum encontrei, nem ouvi, conceito, nem definição, do emprego deste vocábulo pelos autores, o que vem aumentando a confusão entre os mestres e capoeiristas dum modo geral. É que nos meios populares baianos, especialmente nos terreiros de candomblé e nas rodas boêmias, o termo adquire uma conotação bem diversa daquela encontrada nos clássicos e dicionários de nossa língua. Uma vez que nestes grupamentos sociais, esta palavra é usado em referência à parte mais secreta e profunda do culto ou prática, somente acessível as camadas mais elevadas da comunidade, adquirindo então um atributo de secreto, sagrado, inacessível aos não-iniciados, ensinamento esotérico, hermético, misterioso, mágico

 

 

“Hoje vejo reduzido, os capoeirista, perdeiram suas
forças de vontade, não procuram o fundamento,
só querem a prender a propria violencia.

 

O trecho acima, manuscrito pelo Mestre Pastinha, ilustra o emprego do termo “fundamento” pelos antigos capoeiristas no sentido de essência de conhecimentos sobre a capoeira, seus princípios morais, seu ritual, sua prática e seus efeitos sobre o comportamento de cada capoeirista, a razão de ser do seu ritual e do comportamento do jogador, bem como a sua origem, a influência relativa de cada um dos seus componentes, sua música, seu ritmo, seus cânticos, etc.

 

Concordando com Esdras “Damião” na estranheza do uso de Fundamento e Fundamentação no linguajar dos capoeiristas antigos e modernos (dialeto capoeirano?) vivo procurando porque tanto ênfase neste conceito.

 

Do longo convívio nos meios de capoeira, nos centros de candomblé e durante a prática médica nas classes menos favorecidas pela Deusa da Fortuna, posso extrair vários sentidos encontrados.
Inicialmente impõe-se o sentido de conhecimento teórico ou prático sobre assuntos de qualquer natureza, independente de estudos formais.
Quando se fala em idéia ou comportamento sem fundamento indica-se a falta de razão subjacente ou de base para tal.

 

Há uma nuança de mistério, de sacralização, quando empregada em referência a conhecimento reservado a certos grupos sociais como dos feitos do candomblé. Como no caso dos antigos mestres que se proclamavam detentores dos fundamentos da capoeira… somente eles o possuíam…
Ser conhecedor dos fundamentos da seita ou de qualquer outro ramo de atividade humana, social, científica ou artística é altamente valorizado nestes ambientes culturais baianos; motivo de orgulho e jactância, algo muito especial e envaidecedor.

 

É com admiração que se diz: “Fulano conhece muito bem os fundamento de samba!”, enquanto outros estufam o peito e se gabam de serem os únicos conhecedores disto ou daquilo… especialmente entre os menos favorecidos de inteligência, cultura e sobretudo, modéstia… apesar de bem providos de auto-estima e vaidade.
É freqüente e natural, o entitulado “de conhecedor dos fundamentos” desdenhosamente se recusar a transmitir aos não-iniciados aqueles mistérios sagrados, dotados de poder mágico.

 

A atrapalhação provocada pelo emprego descuidado desta palavra por alguns estudiosos pouco habituados ao linguajar popular baiano, especialmente do seu uso nas rodas boêmias e nos terreiros de candomblé, aumentou pelo aparecimento de divagações literárias em torno de assunto, cuja definição e conceito os autores sequer conheciam, sem se aperceberem da leviandade, nem da gravidade da falha da científica cometida… palavras bem entoadas, frases bem torneadas, porém vazias… diríamos “sem fundamento” num barzinho da rua do Julião!

 

A propósito de “FUNDAMENTO” o “Novo Dicionário Aurélio”arrola os seguintes significados:

 

  1. Base, alicerce.
  2. Razões ou argumentos em que se funda uma tese, concepção, ponto de vista, etc.; base, apoio.
  3. Razão, justificativa, motivo.
  4. Aquilo sobre o que se apoia quer um dado domínio do ser (e então o fundamento é garantia ou razão do ser), quer uma ordem ou conjunto de conhecimentos (e então o fundamento é o conjunto de proposições ou de idéias mais gerais ou mais simples de onde esses conhecimentos se deduzem).
Do acima transcrito entendo que devemos a aceitar por definição como “fundamentos da capoeira” a sua razão de ser e as justificativas de sua maneira de ser, isto é os elementos que a identificam como “SER” em nosso mundo conceptual.
A primeira indagação que surge em nossa mente ao analisar o assunto é:

 

QUE É O JOGO DE CAPOEIRA?

 

A resposta técnica é:
“A capoeira baiana é um processo dinâmico, coreográfico, desenvolvido por 2 (dois) parceiros, caracterizado pela associação de movimentos rituais, executados em sintonia com ritmo ijexá, regido pelo toque do berimbau, simulando intenções de ataque, defesa e esquiva, ao tempo em que exibe habilidade, força e autoconfiança, em colaboração com o parceiro do jogo, pretendendo cada qual demonstrar habilidade superior à do companheiro.
O complexo coreográfico se desenvolve a partir dum movimento básico denominado de gingado, do qual surgem os demais num desenrolar aparentemente espontâneo e natural, porém com um objetivo dissimulado de obrigar o seu parceiro a admitir a própria inferioridade.
Dentre as características mais importantes da capoeira destacamos a liberdade de criação, a estrita obediência aos rituais, a preservação das tradições, o culto dos antepassados e o respeito aos mais velhos como repositório da sabedoria comunitária.”
Ou poeticamente:

 

“A capoeira é uma luta…
ensinada e praticada como dança!

 

… pode ser usada como defesa…
e como ataque…
numa hora de “percisão”!
nas palavras dos Mestres
Bimba e Pastinha!

 

A capoeira é uma arte…
a arte de bem viver…
DISPUTADA COMO LUTA…
“mata até sem querer!”
… dizia Mestres Bimba…
“e o bom da vida é não morrer!”
… completava Mestre Pastinha!

 

OS FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA

 

A prática da capoeira se desenvolve obedecendo aos seguintes parâmetros:

 

  1. movimentos rituais ritmodependentes
  2. ritmo ijexá regido pelo berimbau
  3. disciplina e respeito à tradição, aos mais velhos e aos companheiros
  4. parceria
  5. movimentos em esquiva, circulares e descendentes
  6. dissimulação de intenção
  7. alerta, calma, relaxamento e autoconfiança permanentes
  8. estado de consciência modificado (transe capoeirano), que analisaremos a seguir.
MOVIMENTOS RITUAIS RITMODEPENDENTES

 

O conjunto dos movimentos dos participantes para ser reconhecido como jogo de capoeira deve ser ajustado ao ritmo/melodia do toque da orquestra e obedecer às regras tradicionais de cada estilo, especialmente àquelas que garantem a segurança da sua prática, i.e., a não-violência.
A capoeira baiana é, por definição e princípio, uma luta dissimulada sob forma de dança ou uma dança guerreira, ou ainda como declarou José Roberto“Pingo” (18 anos), aluno e filho pela capoeira de Mestre Canelão (Natal, RN):

 

“A capoeira não é violência, é um esporte, uma brincadeira sadia… a luta fica escondida.”

 

Além do enquadramento dos movimentos ao ritmo e à melodia, é indispensável a estrita adesão ao seu ritual, isto é, às regras tradicionais que regem sua prática e garantem a segurança dos participantes. Um acordo de cavaleiros, um código de honra, transmitido pela tradição oral entre as gerações, desde suas origens, como disse o Venerável Mestre Pastinha:

 

 

1.4.21 – …”aprender municiosamente ás regras da capoeira”…
“… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar minuciosamente ás regras da capoeira de angola”; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,”…

 

(8a, 15-23; 8a, 20-23; 8b, 1-2)

 

Assim o Venerável Mestre Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas, pois ..
… “é o controle do jogo”…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… “que evita a violência e os acidentes”…
… vale a repetição!

 

RITMO IJEXÁ

 

Por ser uma manifestação coreográfica do ritmo africano ijexá o enquadramento dos movimentos da capoeira ao mesmo é fundamental à sua prática, conservando a continuidade da sua dinâmica, sem que se quebre a seqüência dos mesmos.
O andamento do toque ijexá leva uma estado transicional de consciência calmo, pacifico, prazeroso, possibilitando um jogo sem violência e bem cadenciado, permitindo aos parceiros estudo, análise, reflexão e criação de gestos rituais capazes de enriquecer o cabedal de reflexos de defesa, de esquiva e contra-ataques, que compõem o perfil do comportamento do verdadeiro capoeirista.
A aceleração excessiva do andamento provoca um estado de excitação incompatível com a calma indispensável à prática da capoeira, além de impossibilitar o gingado, transformando uma atividade lúdica em agressiva e potencialmente lesiva ou letal.
A observação dos movimentos rituais gerados pelos diferentes toques de atabaques, especialmente entre o ijexá dum lado e aqueles de alujá e adarrum, esclarecerá nitidamente a importância da cadência do toque da orquestra no desempenho dos parceiros do jogo de capoeira, do seu comportamento e estado mental.

 

DISCIPLINA E RESPEITO À TRADIÇÃO,
AOS MAIS VELHOS E AOS COMPANHEIROS

 

Nas sociedades de cultura oral, como as africanas, o liame entre as gerações é indispensável à sobrevivência do grupamento e dos indivíduos, valorizando os mais velhos como depositários confiáveis da sabedoria e da experiência, imprescindíveis à educação dos mais jovens e menos experientes.
Manifestação cultural pela sua própria natureza, a capoeira depende da aproximação das gerações, o que integra a sociedade transformando-a num monólito, capaz de resistir às influências externas e perdurar no tempo.
A postura de respeito aos mais velhos certamente conduz àquela de respeito, estima e consideração aos companheiros de geração, os seus parceiros, unindo o grupo social, transformando-o numa família, num clã, num agrupamento tribal, numa unidade fundamental indissolúvel (com “sprit de corps”, diria o Gal. Liauty) à qual todos se orgulham de pertencer, como todos fazemos com nossa roda de capoeira.

 

PARCERIA

 

Do respeito às tradições e aos mais velhos facilmente alcançamos a noção de parceria, indispensável ao aprendizado, ao ensino e à prática da capoeira.
A capoeira, atividade fundamentalmente guerreira, intrinsecamente belicosa, potencialmente lesiva e mortal, não pode ser praticada sem confiança recíproca, sem um compromisso de não-agressividade, de não-violência, de respeito mútuo, como são as suas tradicionais regras do jogo, o seu ritual.
A este elo de camaradagem e respeito mútuo chamamos de “parceria”, sem ele, morreriam todos os alunos no início do aprendizado ou desistiriam, tal a gravidade das suas lesões!
Sem a parceria, cada “volta do mundo” seria uma batalha, com morte do vencido e sem vencedor.
A Capoeira seria então o próprio Apocalipse e cada Mestre o seu Cavaleiro!

 

MOVIMENTOS EM ESQUIVA,
DESCENDÊNCIA E CIRCULARIDADE

 

Dizem os orientais que a esfera é a forma da perfeição e o círculo sua expressão mais autêntica.
Na dança ritual do candomblé os movimentos são circulares, manifestando em cada segmento e no conjunto o acoplamento ao toque (ritmo e andamento) de cada orixá.
Os movimentos circulares são os únicos que propiciam a esquiva, o escape da linha direta do ataque sem o afastamento para traz, que dificultaria ou impossibilitaria o contra-ataque.
Na capoeira, os movimentos, principalmente os deslocamentos, devem ser circulares ou melhor esféricos, girando em torno do centro de gravidade do parceiro, escapando ao seu ataque e contornando o seu flanco à procura dum ponto fraco ou abertura na guarda.
As esquivas descendentes, geram movimentos melhor apoiados no solo, portanto mais seguros, permitindo também a procura dos pontos mais baixos do corpo, habitualmente os mais vulneráveis, do adversário simulado.
Com a vantagem de que o jogador pode usar nesta postura os quatro membros e a cabeça como pontos de apoio no solo, além de dispor de maior amplitude de deslocamento, que pode aumentar a velocidade e força viva dos ataques e contra-ataques.
Sem falar que a rasteira, antigamente tão usada no jogo de capoeira e hoje tão raramente presenciada, é mais facilmente executada em posição mais agachada.
A atitude de esquiva é fundamental na capoeira, protegendo o praticante dos ataques, enquanto permite aproveitar a quebra da guarda, que sempre ocorre durante o movimento de ataque, para um contra-ataque oportuno.

 

DISSIMULAÇÃO DE INTENÇÃO

 

Decorrência da definição e conceito da capoeira baiana como uma dissimulação de luta sob forma de dança, adquire a simulação de intenção e a dissimulação de propósito ou de objetivos, um papel preponderante nesta vadiação dos mestiços do recôncavo baiano.
Joga melhor o mais inteligente, o mais manhoso, o mais malicioso, o mais enganador; o que conseguir convencer o companheiro de algo que jamais fará e se aproveitar do gesto em falso do parceiro para desferir o seu golpe verdadeiro.
É preciso “pegar” o parceiro desprevenido, depois de atraí-lo para o laço, para a armadilha em que o mesmo se enredará sem violência e sem maior esforço de parte do atacante.
O floreio, especialmente aqueles executados com os membros superiores, por não afetarem a postura e equilíbrio, nem exigir deslocamento espacial, é o instrumento mais adequado para simulação de ataques e/ou dissimulação de intenção ou objetivo. O floreio mais eficiente é aquele que traz no seu bojo potencial de ataque a ser desencadeado instantaneamente no momento propício.

 

ALERTA, CALMA, RELAXAMENTO
E AUTOCONFIANÇA PERMANENTES

 

O capoeirista necessita manter contínua sintonia com a mente do parceiro para detectar suas reais intenções e assim poder antecipar-se aos seus gestos e movimentos, seja de floreio, seja de ataque ou de esquiva.
Desta postura mental brota naturalmente o permanente acoplamento do indivíduo ao ambiente vizinha. Uma eterna vigilância. Um nexo inconsciente entre o indivíduo e o meio, que empresta ao capoeirista um ajustamento instantâneo às variáveis exteriores, sejam físicas ou espirituais, que o conduz à premunição dos perigos e às reações, defensivas ou de esquiva, adequadas.
Muitas vezes o contra-ataque surge, surpreendente como relâmpago em dia de sol, como bote de jararaca aparentemente adormecida.
Na minha opinião, esta é a razão maior da influência comportamental nos deficientes, da melhoria do rendimento intelectual concomitante e das suas condições psicológicas.
Somente a calma absoluta permite o relaxamento indispensável ao desencadeamento dos reflexos de defesa, ataque e contra-ataque com tempo mínimo de latência.
Apenas em perfeita tranqüilidade conseguimos manter o estado de alerta em relaxamento, capaz de liberar todas as vias neuroniais, aferentes e aferentes, para o trânsito dos estímulos periféricos e reações motoras reflexas, inconscientes e instantâneas, de esquiva, defesa, ataque e contra-ataque características do capoeirista durante o jogo ou em momento de perigo.
Podemos assim valorizar a advertência do Venerável Mestre Pastinha ao declamar:”Quanto mais calmo o capoeirista… melhor para o capoeirista…”
Com o passar do tempo, a repetição interminável de situações de perigo aparente ou real. O eterno suceder de imprevistos que desencadeiam reações instantâneas, algumas surpreendentes, porém sempre adequadas, gera uma atitude inconsciente de autoconfiança. A qual facilita mais ainda o desenvolvimento deste processo de preservação da integridade do SER, a jóia mais preciosa que a capoeira pode oferecer ao seu aficionado.
É a tranqüilidade dos fortes” ou, como prefere Esdras “Damião”, “a calma é a virtude dos fortes!

 

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO
(TRANSE CAPOEIRANO)

 

Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
O capoerista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.

 

ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da regional o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras

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ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

 O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da regional o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em "soltar os golpes" em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da regional, hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas que tentaremos enumerar e discutir.

O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da disposição mental para o ataque em lugar da predisposição à esquiva, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau e predominância da atitude belicosa, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.

Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em queda de quatro ou movimento de aranha, sempre condenado pelo Mestre, que além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiu-jitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade, quebra o fluxo do jogo e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático. O bloqueio reflete a falta de golpe de vista e do reflexo de esquiva característico do capoeirista, traduzindo deficiência do treinamento e antecipando a possibilidade de acidente mais grave.

O afastamento excessivo entre os parceiros do jogo de capoeira permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos, por não poderem atingir o alvo dada o distanciamento, porém que ao alcançarem acidentalmente pontos vitais do parceiro podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o caráter festivo da capoeira antiga e evoluímos (?) para estilo mórbido capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em "A herança de Pastinha" (Decanio Filho, A. A. – Coleção S. Salomão 3) que transcrevemos a seguir:

1.4.21 – … "aprender municiosamente ás regras da capoeira"… 

"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código de honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas…
… "é o controle do jogo"…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… "que evita a violência e os acidentes"…
… vale a repetição!

1.4.22 – …"a capoeira vem amofinando-se"
… "e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo."… (9a,1-9)

… continua a insistência na presença dum juiz…

… árbitro ou mestre de cerimônia …

… para acompanhar a evolução do jogo…

  • … advertir ou interromper a prática…
    • … ante manobras proibidas ou perigosas…
    • … desobediência ao ritmo do toque…
    • … ao cansaço do atleta…
  • … garantir a segurança física…
    • … dos praticantes…
    • … da assistência…
  • … assegurar a beleza do espetáculo…

1.4.38 – …"todos os capoeiristass são maus"… ?
…"todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia." (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia,
a violência. Alguns por falta de educação, outros por doença mental … ou espiritual?
Coitados!
A maioria da juventude é sempre boa, generosa… … não sofre as "influências" dos maus…
… disse o Mestre!

1.4.39 – …"Não é permitido"…

… ", por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz." (11b,13-23; 12a,1)

A insistência do Velho Mestre, na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitro, durante o desenrolar do jogo. Coibindo os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto!

1.4.40 – …"Não deve ser aplicado"…

"Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo." (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de fiscal, permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes.

…"é fau"!
disse o Mestre…

1.4.41 – …"É proibido no jogo"…

…"É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional <aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço", dedo nos olhos," cabeçada solta," cabeçada presa," meia lua baixa," Balão a coitado," rabo de arraia," Tesoura fechada," chibata de clacanhar," chibata de peito de pé," meia lua virada," duas meia lua num lugar só," pulo mortal," virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura," Balão na boca da calça," golpes de joelho e nem truques." (12a,4-16)

Aqui está o rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes ou por tradição…

1.4.42 – …"é falta usar as mãos"…

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo." (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença, entre os estilos de Bimba e Pastinha. Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados pela difusão das técnica orientaisno meio social em que pontificava.

1.4.31 – …"para valentia"…

"Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas." (10b,17-23)
A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… como a sabedoria dos mais velhos, escondida sob o branco dos cabelos, surge não se sabe donde… nem como… e nos surpreende na hora certa!

… não se aprende com violência e descontrole…
… "a pressa é inimiga da perfeição"…

1.5.6 – …"a capoeira está dividida em trez parte"…

… "note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelec.ceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,"… (14b,8-23
As três faces da capoeira, aqui referidas são:

  • a manifestação exterior, o jogo.

Aparente, exposta a todos presentes, visível

  • nos treinos (mesmo nos chamados secretos)…
  • nas exibições…
  • nas demonstrações…

… a parte física… corporal… … Yin, diriam os orientais!

… as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas..

… escondidas "no eu de quem aprendeu"… Yang na linguagem oriental!

… o inconsciente e o subconsciente capoeirano…

"istinto" nas palavras de Bimba…

… as partes secretas, " rezervadas" disse Pastinha…

… e assim devem ser preservadas!.

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa…… a manha… a malícia

A outra é mais profunda, filosófica, mística…a modificação do modo de viver…

… o Axé da Capoeira!
diria minha Ialorixá Konderenê!
… Taoista!… diria LaoTsé!

2.2.4 – …"destruir os falsos principios"…

"Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …" (69a,6-10)

Sábia advertência, aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais e místicos da capoeira. É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – …"procure os bons mestres"…

"Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando." (69a,13-17)

Procurar bons mestres, para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!

Sábias palavras!
Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
"Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi para isso que eu criei a regional e deixei de herança para vocês!" – exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!

ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

 O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da regional o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em “soltar os golpes” em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da regional, hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas que tentaremos enumerar e discutir.

O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da disposição mental para o ataque em lugar da predisposição à esquiva, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau e predominância da atitude belicosa, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.

Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em queda de quatro ou movimento de aranha, sempre condenado pelo Mestre, que além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiu-jitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade, quebra o fluxo do jogo e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático. O bloqueio reflete a falta de golpe de vista e do reflexo de esquiva característico do capoeirista, traduzindo deficiência do treinamento e antecipando a possibilidade de acidente mais grave.

O afastamento excessivo entre os parceiros do jogo de capoeira permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos, por não poderem atingir o alvo dada o distanciamento, porém que ao alcançarem acidentalmente pontos vitais do parceiro podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o caráter festivo da capoeira antiga e evoluímos (?) para estilo mórbido capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em “A herança de Pastinha” (Decanio Filho, A. A. – Coleção S. Salomão 3) que transcrevemos a seguir:

1.4.21 – … “aprender municiosamente ás regras da capoeira”… 

“… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola”; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,”… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código de honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas…
… “é o controle do jogo”…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… “que evita a violência e os acidentes”…
… vale a repetição!

1.4.22 – …”a capoeira vem amofinando-se”
… “e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo.”… (9a,1-9)

… continua a insistência na presença dum juiz…

… árbitro ou mestre de cerimônia …

… para acompanhar a evolução do jogo…

  • … advertir ou interromper a prática…
    • … ante manobras proibidas ou perigosas…
    • … desobediência ao ritmo do toque…
    • … ao cansaço do atleta…
  • … garantir a segurança física…
    • … dos praticantes…
    • … da assistência…
  • … assegurar a beleza do espetáculo…

1.4.38 – …”todos os capoeiristass são maus”… ?
…”todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia.” (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia,
a violência. Alguns por falta de educação, outros por doença mental … ou espiritual?
Coitados!
A maioria da juventude é sempre boa, generosa… … não sofre as “influências” dos maus…
… disse o Mestre!

1.4.39 – …”Não é permitido”…

… “, por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz.” (11b,13-23; 12a,1)

A insistência do Velho Mestre, na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitro, durante o desenrolar do jogo. Coibindo os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto!

1.4.40 – …”Não deve ser aplicado”…

“Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo.” (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de fiscal, permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes.

…”é fau”!
disse o Mestre…

1.4.41 – …”É proibido no jogo”…

…”É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional <aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço”, dedo nos olhos,” cabeçada solta,” cabeçada presa,” meia lua baixa,” Balão a coitado,” rabo de arraia,” Tesoura fechada,” chibata de clacanhar,” chibata de peito de pé,” meia lua virada,” duas meia lua num lugar só,” pulo mortal,” virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura,” Balão na boca da calça,” golpes de joelho e nem truques.” (12a,4-16)

Aqui está o rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes ou por tradição…

1.4.42 – …”é falta usar as mãos”…

“Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo.” (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença, entre os estilos de Bimba e Pastinha. Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados pela difusão das técnica orientaisno meio social em que pontificava.

1.4.31 – …”para valentia”…

“Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas.” (10b,17-23)
A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… como a sabedoria dos mais velhos, escondida sob o branco dos cabelos, surge não se sabe donde… nem como… e nos surpreende na hora certa!

… não se aprende com violência e descontrole…
… “a pressa é inimiga da perfeição”…

1.5.6 – …”a capoeira está dividida em trez parte”…

… “note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelec.ceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,”… (14b,8-23
As três faces da capoeira, aqui referidas são:

  • a manifestação exterior, o jogo.

Aparente, exposta a todos presentes, visível

  • nos treinos (mesmo nos chamados secretos)…
  • nas exibições…
  • nas demonstrações…

… a parte física… corporal… … Yin, diriam os orientais!

… as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas..

… escondidas “no eu de quem aprendeu”… Yang na linguagem oriental!

… o inconsciente e o subconsciente capoeirano…

“istinto” nas palavras de Bimba…

… as partes secretas, rezervadas” disse Pastinha…

… e assim devem ser preservadas!.

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa…… a manha… a malícia

A outra é mais profunda, filosófica, mística…a modificação do modo de viver…

… o Axé da Capoeira!
diria minha Ialorixá Konderenê!
… Taoista!… diria LaoTsé!

2.2.4 – …”destruir os falsos principios”…

“Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …” (69a,6-10)

Sábia advertência, aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais e místicos da capoeira. É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – …”procure os bons mestres”…

“Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando.” (69a,13-17)

Procurar bons mestres, para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!

Sábias palavras!
Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
“Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi para isso que eu criei a regional e deixei de herança para vocês!” – exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!

CAIÇARA

Marcou época na história da capoeira… provocante, controvertido, alegre, atrevido, simpático… formou uma das equipes mais brilhantes de sua época… seus alunos primavam por exibir uma capoeira bonita de se ver e eficiente.
Nas palavras de Eduardo (A.. C. São Salomão/Recife/PE) foi : "Uma das lendas vivas da Capoeira; sua história mais parece tirada de livros de ficção…
Numa época em que o Pelourinho não tinha o glamour de hoje, Mestre Caiçara ditava as regras num território de prostitutas e cafetões; de traficantes e malandros. Todos tinham que pedir a sua benção. Gravou um dos principais discos da Capoeira Angola onde exemplifica os diversos toques de berimbau, além de cantar ladainhas e sambas de roda."

"Mestre Caiçara"
Antônio Carlos Moraes

CODIGO DE ETICA

ÉTICA DIDÁTICA

Aos professores é dado todo o direito de criarem os seus objetos/formas de ensino da capoeira, de acordo com suas condições, locais de trabalho, características, idades dos alunos, ambiente social e outros fatores que o auxiliem ou limitem no exercício do ensino da capoeira.
Todo professor tem a obrigação de manifestar e fazer compreender aos seus alunos os princípios da capoeira, sua identidade, origem, grandes nomes dos seus precursores, etc; de forma implícita ou explícita, dependendo das faixas etárias e outros fatores típicos de cada turma/escola, bem como ensinar e respeitar os princípios deste Código.
A capoeira pode ser ensinada em qualquer local, desde que ofereça as condições de segurança e higiene aos seus praticantes.
Os professores, sempre que possível, devem exigir de seus alunos o uso de uniforme limpo e completo.
Nenhum professor deverá impor posturas rígidas aos adeptos da capoeira, sendo facultado aplicar-se regras de eficiência no desenvolvimento, na movimentação e no resultado final da aprendizagem da capoeira.
Os professores devem ter sempre em conta as limitações e potenciais de seus alunos, devendo procurar ensiná-los a explorarem seus recursos físicos e faculdades naturais.
A capoeira como arte nacional terá sempre sua vinculação às nossas tradições e história, sendo obrigação dos professores incentivarem nos alunos o hábito do estudo de nossa história e de nossas origens.
Nenhum professor de capoeira poderá fazer uso de técnicas ou recursos típicos de outros esportes dentro da aula a iniciantes de capoeira, ficando facultado o estudo de outras artes somente aos capoeiristas, alunos e professores, que já possuam a maturidade sufuciente para não misturar as características, regras e recursos de outros esportes à capoeira.
São considerados iniciantes, para esse entendimento os capoeiristas graduados até a corda verde-escuro da graduação da ABPC.
É obrigação dos professores, conhecerem, ensinarem e exigirem a relação entre os toques de berimbau e o tipo de jogo de capoeira.
Todo professor deve ensinar e dar exemplo de respeito aos mais antigos, tendo os mais velhos sempre a preferência nos jogos de capoeira, a seu critério.
É obrigação do professor desestimular os seus alunos de levarem ou trazerem comentários de natureza agressiva ou que estimule a rivalidade entre os grupos, sendo falta grave a troca de insultos entre professores particularmente na presença de alunos ou por intermédio desses.
Se ficar comprovado que algum professor estimulou ou estimula alunos seus a levarem ou trazerem insultos ou desagravos de qualquer natureza, a outros grupos ou colegas, o mesmo podera ser advertido ou mesmo punido pela representação da ABPC Regional do seu Estado ou Nacional.
O professor não deve jamais estimular seus alunos à violência de qualquer espécie, sendo passivo de punição e incompatibilização com a ABPC o professor que assim proceda e que fique comprovado.
É vedado aos professores utilizarem para seus interesses ou seus serviços – sem remuneração – os seus alunos de qualquer idade!
É vedado aos professores qualquer forma de agressão moral ou física aos seus alunos.
Será considerada falta grave o ato do professor que mantiver relações amorosas ou sexuais com seus alunos ou alunas menores de idade, particularmente no local de ensino da Capoeira.
A ABPC reconhecerá os professores auto-didatas desde que os mesmos respeitem e declarem aderir ao seus regulamentos e preceitos, e desde que sejam aceitos pelos representantes regionais da ABPC, na forma dos seus Estatutos ou regulamentos.

ETICA DESPORTIVA

A competição desportiva de capoeira se regerá por regulamentos amplamente debatidos pelos envolvidos e serà sempre feita em locais que permitam a assistência do público.
Independente da estrutura das competições de capoeira, as mesmas serão sempre conduzidas de forma a preservar seus valores tradicionais e princípios básicos.
A capoeira, quando em competição desportiva terá sempre como árbitros mestres e professores de reconhecida tradição e notoriedade no meio capoeirístico local, regional e nacional, conforme a competição.
É obrigação dos professores ensinarem seus alunos a, quando em competições desportivas, terem sempre em mente a preservação física e moral dos adversários, devendo ainda criar e estimular todas as condições de fraternidade e de alto espírito comunitário do esporte.
Todos os professores tem a obrigação de prepararem seus alunos tanto para a vitória quanto para a derrota, e a terem sempre em conta a respeitabilidade mútua com os seus adversários.
Nenhuma competição de capoeira deve ser feita retirando-lhe as características fundamentais ou que exponha a regras estranhas os seus praticantes. Fazem parte das características fundamentais da capoeira, particularmente sua música, instrumentos e ou outros princípios, citados no presente, nos Estatutos da ABPC e outros, do conhecimento e consagrados pelos capoeiristas e mestres.

ÉTICA MARCIAL

A capoeira reune todas as possibilidades de uma arte-marcial. É considerada marcial toda a arte de guerra – a palavra vem de Marte – o Deus da guerra, entre os romamos.
Podendo ser armadas ou desarmadas, as artes marciais mais conhecidas não incluem a capoeira, isso porque o seu poder combativo não é de dominio público. No entanto, a ABPC reconhece essa parte da capoeira e recomenda aos seus afiliados que procurem praticar e demonstrar sempre que possível os recursos de luta da capoeira ao público, para ampliar o seu respeito e o nùmero de adeptos, evitando-se, no entanto;

  • expor gratuitamente todo o seu potencial combativo e com isso empobrecer o elemento mais importante que a compõe numa luta, a surpresa! É dever portanto, dos capoeiristas preservarem os recursos combativos da capoeira evitando-se que os mesmos lhes sejam roubados ou assimilados gratuitamente por outras modalidades.
  • não se recomenda também aos associados participarem de combates para fins exclusivamente comerciais ou financeiros;
  • não deve haver participação de menores de idade em confrontos marciais;
  • não se recomenda a participação de combates que não tenham como base regras de preservação moral e física dos contendores;
  • não devem os capoeiristas, em hipòtese alguma, transferir para a capoeira a responsabilidade por sua derrota, uma vez que o derrotado é o lutador e não a arte. Ninguém reúne condições de representar a totalidade dos recursos da capoeira, portanto, se alguém é derrotado, essa derrota não será atribuída à capoeira! É responsabilidade dos capoeiristas assumirem esse princípio antes ou depois dos combates que participarem.

ÉTICA MORAL E SOCIAL

A capoeira tem sua origem na luta pela igualdade entre os homens e porisso ela precisa ter preservada a convivência solidária e democrática dos seus adeptos à sociedade como um todo e aos camaradas de arte em particular.
É obrigação moral dos professores de capoeira se distinguirem como cidadãos de bem. Por isso é esperado que eles se destaquem:

  • por jamais expor um semelhante a qualquer forma de humilhação (a não ser em defesa de  sua própria integridade ou de outrem, em situação de inferioridade);
  • por defender sempre o mais fraco;
  • por respeitar as pessoas de mais idade; as mulheres e as crianças;
  • por estar sempre dentro da lei;
  • por defender a democracia e a liberdade;
  • por jamais perder o auto-controle;
  • por respeitar os adversários;
  • por defender os principios nacionais, a língua e os demais fundamentos da capoeira;
  • por honrar os mestres e professores;
  • por preservar sempre a integridade física e moral de seus adversários;
  • por não discriminar qualquer pessoas por credo, raça, cor, nível social, etc;
  • pela sua auto-disciplina e consciência moral;
  • por jamais cometer qualquer forma de covardia;
  • por defender a capoeira além dos seus próprios interesses pessoais;
  • por não utilizar seus conhecimentos para autopromoção pessoal ou para levar vantagem sobre pessoas indefesas ou inocentes.

A IDENTIDADE CULTURAL DA CAPOEIRA

Ideal seria que nenhum capoeirista perguntasse por que a capoeira precisa de uma identidade. No entanto, é fato que parte deles perguntarão essa razão. Então, para exemplificar o sentido da identidade ao qual estamos nos referindo, lembramos:

  • o judô não permite chutes;
  • o boxe não usa dar tesoura;
  • o karatê não usa luvas;
  • a luta greco-romana veste calção como uniforme;
  • entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, e a capoeira?
    Bem, como exemplo, diríamos que a capoeira é jogada ao som da música do berimbau, que é seu instrumento básico… Mas isso é só um exemplo.

A idéia do presente código de ética é estabelecer outros parâmetros mais amplos para a capoeira.

A seguir são apresentadas algumas propostas para serem adotadas como princípios inseparáveis da identidade da capoeira:

A capoeira é sempre jogada: o jogo da capoeira assume diversas formas de manifestações, segundo o momento em que esteja ocorrendo, e pode ser:

  • Esporte: quando em competições para as quais sejam estabelecidas regras prévias tais como: tempo de duração, forma de pontuação, categorias de participantes, regras de estilo, número de jogos por fase, arbitragem, etc., e quando é estudado e desenvolvido com visão de desempenho físico-motor, tais como capacidade aeróbica, velocidade, explosão, elasticidade, etc.;
  • Vadiagem/Lazer: quando em manifestações espontâneas em locais públicos, ou particulares, sem regras prévias ou restrições, sem tempos determinados, sem responsável prévio, sem uniforme, etc;
  • Folclore/apresentação: quando em exibições de grupos especialmente preparadas para um momento específico, em palco ou outros ambientes próprios para isso, podendo ser usado esquemas combinados, movimentos de efeitos (esquetes), e nesses casos podem ser representados números de outras artes e folclores associados à capoeira. Nesse tipo de expressão da capoeira, são válidas as manifestações tradicionais da capoeira ao mesmo tempo em que, como folclore é de domínio público, por isso numa manifestação com essa conotação é livre a criação própria de cada grupo, ou mesmo comunidade. É obrigação dos professores de capoeira, quando organizarem ou participarem dessa forma de manifestação, informar ao público e autoridades presentes a natureza específica desse momento: a capoeira tem muitos outras facetas, que para serem exibidas são necessárias outras condições e regras;
    Espetáculo Plástico ou Coreográfico: quando seus movimentos forem adotados, combinados entre si, visando um efeito de dança ou coreografia, nesse contexto, a capoeira pode ser entendida como um espetáculo de dança capoeirística, onde a intenção maior é explorar os recursos de sua beleza plástica rítmica, sensualidade, etc.;
  • Jogo Marcial/Luta: quando em confronto marcial entre adeptos da capoeira ou de outras lutas, nesse caso deve haver a definição prévia das regras a serem respeitados, peso, pontuação, etc. bem como os critérios de vitória, quando se tratar de outras lutas. Esse tipo de manifestação não deverá ser de iniciativa das Entidades representativas da capoeira, sendo no entanto livre aos seus associados participarem quando assim o desejarem em eventos que não os da capoeira; respeitadas as regras éticas do presente código;
  • Jogo Psicológico/Mandinga: essa é a forma de manifestação mental da capoeira, que se baseia em confrontar ou examinar o conhecimento e o nível de experiência dos capoeiristas, através de recursos e argumentos de qualquer ordem, que permita a demonstração e a discussão dos aspectos relevantes da arte do jogo da capoeira. Sondar os sentimentos dos adversários; testar os seus reflexos mentais mais elevados e o conhecimento entre os capoeiristas. Essa forma de identidade é particularmente reconhecida pelos capoeiristas mais antigos, não tendo regras prévias, a mandinga também é admitida dentro do jogo físico, e se caracteriza por criar ilusões no adversário tais como: se machucar, estar com medo, ser mais fraco, não conseguir acertar, estar cansado, etc. Esse é o estágio mental da evolução do conhecimento do capoeirista, a fase mais elevada da arte da capoeira…

Além dessas formas de pratica da capoeira é também parte inalienável dessa arte a música, o berimbau, o pandeiro, as palmas e os seus cânticos particulares.

A capoeira deve ser jogada no espaço de um círculo ou semi-círculo, visando manter suas relações com os rituais tradicionais afro-brasileiros e também pelos aspectos de acústicas, de visibilidade e de participação coletiva na sua manifestação mais essencial e tìpica que é a roda de capoeira.
A capoeira é uma manifestação coletiva, devendo os praticantes desde cedo aprenderem que são parte importante da manifestação capoeirista e que são os responsáveis em promover a vibração necessária para que aconteça na sua plenitude.
A capoeira será sempre praticada na lingua brasileira, sendo obrigação dos capoeiristas impedirem qualquer mudança na nomenclatura dos golpes, seguências ou símbolos usados na prática da capoeira em outras línguas que não o Português/Brasileiro. Serão permitidas explicações e descriçào sobre os golpes e movimentos da capoeira em outras línguas desde que os seus nomes sejam sempre mantidos em português.
É permitido na capoeira o uso de cânticos em dialetos afro-brasileiros, devendo ser evitado recorrer-se aos pontos de umbanda, candomblé, e outros rituais religiosos na roda de capoeira.
A música da capoeira é própria, devendo os capoeiristas impedirem a introdução de outros estilos musicais e letras de músicas estranhas à capoeira nas rodas, ou em outras manifestações capoeirísticas.
A cor do uniforme oficial do capoeirista è branca, sendo vedado em competições oficiais a utilização de outras cores no uniforme do capoeirista independente da graduação. Detalhes de identificação serão admitidos desde que não comprometam o conjunto.
Em manifestações folclóricas ou plásticas são admitidos vestuários livres.
Fazem parte da essência capoeirística os costumes nacionais do Brasil, devendo ser sempre procuradas as origens de nossa terra para embasar as teorias e as práticas da capoeira. Nenhum capoeirista deve introduzir idéias ou símbolos na capoeira, alheias ao povo brasileiro, particularmente que alterem suas características primárias, como gestos, movimentos, atitudes, formas de relacionamento, música, cânticos, etc.
Será considerado persona non grata e traidor, o capoeirista que introduzir ou deixar introduzir valores estrangeiros à capoeira, de tal maneira que descaracterize sua identidade e sua nacionalidade.
São reconhecidos como estilos pela ABPC a capoeira Regional e a capoeira Angola.
Qualquer filiado à ABPC deverá respeitar a existência desses dois estilos.
Qualquer outro estilo terá que se fazer justificar e se fundamentar, em todos os aspectos para que possa ser considerado um novo estilo de capoeira.
Somente uma Convenção Nacional do ABPC pode aprovar um novo etilo de capoeira.

A capoeira Regional se caracteriza pela adoção dos princípios criados pelo seu fundador, Mestre Bimba, sendo dever de honra a vinculação da Regional ao seu precursor.
São princípios da capoeira Regional:

  • Os toques de berimbau da capoeira Regional;
  • As seguências didáticas do Mestre bimba (oito seguências do Mestre);
  • A cintura desprezada “Balão cinturado”;
  • e outras características próprias da Regional, definidos por seus seguidores.

A capoeira Angola possui suas próprias tradições, devendo ser preservadas as suas características e princípios. A capoeira Angola se diferencia da Regional, basicamente por:

  • Seus toques tradicionais de berimbau;
  • As “chamadas” de Angola;
  • A origem de seus adeptos, o vínculo direto ou indireto com mestres Angoleiros;
  • entre outros aspectos, próprios do estilo, definidos pelos seguidores de Angola.

ESPIRITUALIDADE NA CAPOEIRA

A capoeira visa o crescimento espiritual do seu praticante…
Essa espiritualidade ocorre, em particular, quando o capoeirista atinge a maturidade do seu desenvolvimento. Porém, os professores devem motivar os seus alunos na intenção de buscar a sua realização espiritual.
Quando uma capoeirista consegue reconhecer as suas reais possibilidades e mesmo assim não as utiliza gratuitamente, ou quando ele evita revelar seus conhecimentos gratuitamente ou para se autopromover socialmente, está se desenvolvendo espiritualmente.
A capoeira é um caminho para os seus praticante se aperfeiçoarem como seres humanos, e atingirem a plenitude de sua cidadania e espiritualidade.
A música da capoeira deve ser entendida e manifestada como um transporte para os estágios mais elevados da consciência e através de sua prática e vivência o capoeirista deve buscar estabelecer conexão com as energias superiores da vida, com as mensagens dos capoeiristas nossos antepassados e com os mais elevados sentimentos humanos de solidariedade, de felicidade e de paz.
A capoeira é uma manifestação que deve atingir a alma humana no seu mais profundo entendimento, acima das sensações puramente físicas.
A saúde do corpo e a plenitude do espírito devem ser metas da prática da capoeira.
O capoieirista deve sempre buscar a superação de suas limitações e ansiedades e a capoeira deve ser uma forma de libertação para seus adeptos, seja dos vícios, dos medos, dos limites, ou de outras formas quaisquer de mediocridade humana.
É obrigação dos capoeiristas buscarem o seu crescimento interior. A possibilidade de crescimento interior è infinita!
A grande diversidade de entendimentos sobre a capoeira, associada à grande lacuna na sua organização e coordenação oficial, a tem transformado a cada dia num maior emaranhado de definições, tanto práticas quanto teóricas e sua divulgação, quanto maior, mais influências são acrescentadas, num sem-número de inovações, seja de natureza didática, desportiva, marcial, espiritual e também, perigosamente, de identidade.
Num encontro realizado em Brasília-DF – na Universidade de Brasilia, em 1990 – o Doutor Milton Freire, conhecido na capoeira como Mestre Onça-Tigre, descedente de Mestre Bimba, falou sobre a versatilidade da Capoeira e de como o Mestre Bimba, o criador da Regional foi revolucionário por recriar e redefinir a capoeira.
De certa forma o Mestre Onça-Tigre deu uma rasteira nos capoeiristas fiéis a uma capoeira padronizada e definitiva, ao afirmar que a “capoeira é dialética”, quer dizer, a capoeira se ajusta à realidade onde ela é aplicada ou praticada… Ela se funde com o ambiente em sua volta. Daí surgem inúmeras e infinitas formas de treinamento e entendimento, além de símbolos os mais diversos, associados à capoeira. Todos, em princípio, partes da capoeira.
É lógico que não se está defendendo qualquer coisa como sendo capoeira, ou pelo menos não achamos que tudo possa ser entendido como a capoeira regional baiana, ou a capoeira angola…
Nesse ponto é que começamos a falar da nossa questão básica, ou seja, as definições e fundamentos da capoeira: a CAPOEIRA REGIONAL e a CAPOEIRA ANGOLA…
Essa discussão carece de um ponto de partida, um ponto de apoio teórico e uma convenção em que se basear. Nesse sentido é que surge a ABPC e é essa a sua principal tarefa: criar um fundamento comum na prática da capoeira; organizar e divulgar uma abordagem profissional dentro da militância capoeirística e com isso, ocupar um importante espaço de integração dos capoeiristas, seja a nível de seus valores tradicionais, preservando-os, seja a fim de permitir sua evolução dentro de uma espectativa moderna e ao mesmo tempo fiel a seus princípios éticos.
Essa é a principal questão do presente trabalho: fornecer uma abordagem ética à discussão e difusão da capoeira, à sua prática e à sua teoria… E é essa a nossa intenção!

POR QUE É NECESSARIA A ÉTICA?

Numa referência bastante superficial sobre a ética, encontramos as seguintes definições básicas:

ETHOS Palavra grega de onde provém a ética, que significa forma de comportamento social de um indivíduo ou grupo humano (roupas, atitudes, cultura) indicadora de que seu portador faz parte de determinada classe social ou grupo étnico.
ÉTICA – parte da filosofia que aborda os problemas da moral.

Existem muitas outras definições a respeito da ética, mas só nos interessa uma explicação mínima, visando justificar essa discussão. Pois, afinal,se considerarmos válida a questão do comportamento dos capoeiristas ou dos professores de capoeira, então a ética já está presente em nosso pensamento; Ou seja, mesmo sem ter a idéia clara da ética, já discutimos isso o tempo todo, quando julgamos as atitudes ou as idéias sobre a capoeira, sejam as nossas ou de outras pessoas…
Outro aspecto que é preciso ficar claro é que não existe a intenção de sugerir uma postura adocicada ou de “bom-moço” para os capoeiristas ou professores de capoeira. A meta é discutir aspectos viáveis e estabelecer fronteiras, dentro do que a capoeira possa ser reconhecida e compartilhada…
Ou seja, aqueles que tiverem uma versão individual da capoeira, e que entendam ser a verdade definitiva, estará absolutamente livre para adotá-la e defendê-la, restando apenas aos que se preocupam com ela dentro de um contexto cooperativo e profissional mais amplo; sua prática num processo sócio-desportivo e outras formas de sua manifestação coletiva e moralmente aceitas é que precisam se deter nessa questão.
A capoeira é de domínio público, enquanto manifestação folclórica e assim terá sempre o direito de ser livremente manifestada. Esse, aliás, pode ser considerado o código zero da capoeira: ela é a livre manifestaçã cultural do povo brasileiro e porisso é reservado aos cidadãos brasileiros o direito de praticá-la livremente.
Nossa preocupação é quanto aos professores adeptos à Associação Brasileira de Professores de Capoeira – é no sentido de dar-lhes uma base de identificação com sua Entidade, é com uma abordagem que envolva os profissionais da capoeira.
Por outro lado, como nos demais princìpios adotados pela ABPC, o presente regulamento é de livre adoção em quaisquer outras correntes capoeirísticas independentes. Quanto à isso, apenas pedimos que, caso os conceitos e entendimentos aqui formulados venham a ser utilizados, seja mencionado que se trata de bibliografia destinada aos adeptos e filiados à ABPC, bem como o autor. (Essa ética – do direito autoral -, não pertence à capoeira. É bem anterior).

COMO APLICAR A ÉTICA?
PARA QUE SERVE?

Hoje em dia a quantidade de informações que chegam às pessoas é bastante grande. Mesmo sem perceber – e aí está o maior problema – recebemos uma carga de influências as mais diversas, vindas de todas as fontes: televisão, cinema, rádio, shows, conversas com pessoas de diferentes formações, leituras de jornais, livros, etc… Tudo isso nos influencia em menor ou maior grau, sendo que nossa mente trabalho o tempo inteiro fazendo associações, e tudo o que tem a ver com nossa vida em particular, É mais assimilado, e fica mais forte no nosso subconsciente.
Assim, está mais do que claro que a força dos meios de comunicações interfere em nossa formação e posicionamento. Por exemplo, podemos citar a importância das olimpíadas na capoeira, particularmente da ginástica de solo. E a grande maioria que recebe essa influência desconhece a fonte original do estímulo, e é mesmo capaz de jurar confiante que aprendeu ou viu uma seqüência de saltos mortais, seguidos de flip-flap, swapt e outros movimentos acrobàticos numa roda de capoeira!
Absurdos à parte, falta muitas vezes uma base de sustentação ideológica que garanta a identidade do esporte/arte que praticamos. Ou melhor, falta uma definição própria do que seja admitido ou nào na capoeira – embora muitos livros tenham sido escritos, de grande valor, sem dúvida, mas essa questão da identidade por exemplo não temos tido muitos trabalhos a respeito, havendo mais preocupação com a tècnica e a història da capoeira..
Assim, em cima da pergunta formulada, precisamos definir de antemão algumas utilidades práticas de um código de ética:

  1. Para a definição uma política de relacionamento e convívio;
  2. para a orientação de caminhos para os filiados da ABPC, que compartilham dos princípios aqui adotados e com essa ética definida fica fácil se conhecer a priori (antes) quais as exigências para se ser um associado;
  3. para fazer com que a capoeira possa servir de estratégia de vida, já que seu aprendizado, visto na sua plenitude é um modo de viver. Algo bem maior do que uma simples regra de jogo, a capoeira deve permitir ao seu praticante a sua realização pessoal e cidadania plena, uma condição profissional até, se assim o desejar;
  4. impedir a introdução de preconceitos à capoeira e com isso garantir a sua democratização sempre;
  5. impedir a introdução de influências capazes de deturpar a teoria e a prática da capoeira, tirando-lhe sua identidade cultural e substituindo seus fundamentos e princípios básicos;
  6. como guia de ensino aos professores e novos alunos, os quais saberão preservar as tradições e ensinamentos da capoeira, permitindo sua criatividade mas garantindo suas origens, princìpios e suas tradições;
  7. para criar um instrumento capaz de demonstrar, de forma organizada e acessível, a amplitude da arte da capoeira e com isso poder divulgar os seus recursos ao público, aos órgãos públicos e também para os estudiosos, que queiram entender e pesquisar a capoeira.

 

Reginaldo da Silveira Costa “Squisito”
Conversão da linguagem original para HTML por Decanio Filho

ÉTICA NA OU DA CAPOEIRA?

"A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas."

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos "majors" remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de "esportes" com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as "educadas", ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

"Polô"