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O CAPOEIRA NA “RODA DA VIDA” – Pensando em Esperanças

O CAPOEIRA NA “RODA DA VIDA” – Pensando em Esperanças

Os dilemas constantes da pós modernidade, considerando a grande inconstância da realidade, tornam cada vez mais difícil discernir/escolher entre a busca pelas “coisas da vida” e o cuidado com a “vida das coisas”, pois em um fração de segundos somos capazes de acusar, julgar, condenar e até executar a pena de uma pessoa que consideramos de conduta inapropriada, segundo nossa crenças e valores.

Vivemos em permanente estado de alerta, sempre ávidos a nos escudar pela denuncia do que esta no outro, pois é muito doloroso voltar o olha para nossas próprias imperfeições. Agredimos, gritamos, difamamos e odiamos pessoas, apenas por defenderem idéias diferentes, confundindo a crença alheia com a própria personalidade de quem a professa. Onde isso vai parar?

Não somos capazes de exercitar a tão falada alteridade, pois, em fluxo continuo temos nos tornado aquilo que mais criticamos, muitas vezes utilizando as mesmas armas do excludente de outrora, para excluir outros que nos desagradam. Neste sentido, como bem dito por Paulo Freire, repetimos o comportamento do “oprimido gestando o opressor”. Reivindicamos respeito ao direito de um dado coletivo, invariavelmente, atropelando o exercício deliberativo de outros. Exigimos a possibilidade de “falar”, mas silenciamos quem pensa diferente. Reclamamos da opressão, mas na primeira oportunidade que temos, oprimimos cruelmente e ainda argumentamos que foi merecido, pois os fins justificam os meios.

As relações se tornam frágeis e volúveis, mediadas por uma linha fininha que separa o bom senso e o rancor desmedido, considerando sempre alguma disputa de poder provisória, envolvendo algo que não se sustentará no tempo. Desta forma, na maioria das vezes, os embates não são verdadeiramente sobre e/ou em favor da capoeira, mas sim, entre pessoas, como descreve Foucault, em sua obra “Microfisica do Poder”.

As pessoas envolvidas na “cena social” da capoeira, muitas vezes desconsideram a “roda da vida”, não sendo capazes de aplicar os ensinamentos da arte no exercício cotidiano de lida com sua comunidade, esquecendo de jogar “com” e não “contra” o outro, negando que é no fluxo dialógico que validamos a substituição do “argumento da força” pela “força do argumento”. Por que é tão difícil ser capoeira na vida?

Queremos colher o que não plantamos e fugimos da colheita daquilo que já foi plantado por nós mesmos, pois não aceitamos “errar”, confundindo esse “erro” com algo negativo, e não como possibilidade de emancipação pelo aprendizado de quem tentou “acertar”, ratificando a crise pós moderna do mundo em que “somos livres e podemos TUDO”, mesmo que isso não exista na totalidade material da vida, pois a liberdade sempre pressupõe responsabilidade com as conseqüências do que fazemos.

Eu guardei minha “pedra”, e você, vai continuar jogando as suas, ou me ajudará a juntar todas que jogam em nós,  para JUNTOS, construirmos nosso “castelo”?

Com esperança em dias melhores, AXÉ.:

 

Por: Mestre Jean Pangolin

A Capoeira da Sociedade Liquida

A Capoeira da Sociedade Liquida

Para Zygmunt Bauman, a sociedade atual, pela volatilidade das “coisas”, perdeu parte de suas referencias/costumes, dando lugar a um “mar” de angústias e incertezas. Desta forma, foi possível perceber o surgimento de uma nova perspectiva para a vida em comunidade, centrada no individualismo exagerado e movida pelo consumismo, a partir da ressignificação do capitalismo global, tornado tudo “liquido”.

A tal “liquidez” se expressa para caracterizar um dado formato para as atuais relações sociais, negando a “solidez” de outrora e assumindo, pela multiplicidade de possibilidades, o “lugar nenhum”, ou seja, queremos ser “tudo”, mas não nos percebemos no exercício da vida cotidiana sendo o “nada” que tanto relutamos em perceber.

Em capoeira, invariavelmente, assumimos uma “liquidez” perigosa e travestida de respeito a autonomia decisória, pois, a todo o tempo temos dificuldades com aquilo que é fluido, volátil, desregulado e flexível. Neste sentido, percebemos que quando assumimos uma relação estável, de ordem profissional, amorosa ou de outra natureza, fica a sensação de que estamos perdendo as novidades que o mundo nos oferece, e ai se instaura a crise, pois já não sabemos lidar com escolhas, considerando que nos acostumamos com a ilusão de ter “tudo” sem viver absolutamente “nada” aprofundadamente, ou seja, se tenho uma dificuldade com meu mestre, ao invés de resolver enfrentando a situação dialogicamente, eu simplesmente troco de instituição ou crio um novo grupo, mesmo mantendo as “velhas” estruturas que geraram o conflito.

Quando Zygmunt Bauman afirma que “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”, ele nos ajuda a refletir sobre a grande “dança das cadeiras” das pessoas nos grupos de capoeira e seus respectivos mestres, pois, atualmente a exceção virou regra geral, considerando que é difícil conhecer uma pessoa em capoeira que, ao invés de se perceber como “cliente” de uma instituição de capoeira, se veja como sendo a expressão viva do próprio grupo e/ou seu mestre. Assim, é fácil perceber como os conflitos sociais atuais influenciam a dinâmica da arte capoeira, pois somos incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, atestando uma “cultura do minuto” que fragiliza as relações humanos. Cadê a ancestralidade afrodescendente?

As relações agora se organizam em rede, negando a lógica da comunidade. Assim, os relacionamentos se transformam em conexões, podendo ser feitas, desfeitas e refeitas, com as pessoas se conectando e desconectando conforme a vontade de cada impulso, fazendo com que tenhamos dificuldade de manter laços a longo prazo, consequentemente, matando expressões populares que pressupõem tempo de convivo por sua condição iniciática.

É importante que fique evidenciado neste texto o objetivo de convocarmos a comunidade de capoeira para uma reflexão, sem qualquer apologia a repressão e sistemas de controle que inviabilizam a autonomia critica decisória de cada pessoa, pois os extremos são perigosos e inoportunos para uma sociedade mais democrática, portanto, o que desejo é que, a partir de uma autocrítica, possamos nos perceber sendo cooptados por uma lógica perversa e excludente, que, paulatinamente, vem asfixiando as possibilidades da cosmovisão latente que habita em nós, esmagando a nossa africanidade capoeirana.

 

Vamos nos conectar pela rede social “UBUNTU”? Quantos “LIKES” eu mereço por isso?

Axé.:

Mestre Jean Pangolin

Capoeira: Ensaio sobre a função da diversidade na roda

Capoeira: Ensaio sobre a função da diversidade na roda

A composição de uma roda de capoeira passa essencialmente por considerar a contribuição de diferentes personagens em distintas tarefas. Neste sentido, alguns tocam, outro canta, a dupla joga, e os demais acompanham, tudo mediado pelo mais antigo, que na lógica pedagógica pode ser comparada a “zona de desenvolvimento proximal” de Vygotsky.

Tive a possibilidade de vivenciar uma “cena” emblemática numa roda no estaleiro do Bomfim, em que foi possível aprender com o contexto, pois na roda jogando tínhamos uma japonesa e um norte americano, na bateria tínhamos diferentes mestres de múltiplas referências, atrás da roda acontecia uma cerimônia religiosa de matriz africana, e ao lado tínhamos o tradicional feijão sendo distribuído gratuitamente para alimentar a comunidade, ou seja, no mesmo momento foi possível perceber a “festa”, o lazer, o trabalho e a religião, com tudo interligado harmonicamente.

O detalhe é que a japonesa, jogou muito bem, cantou e tocou, e sua condição de estrangeira , não negra e mulher , não foram argumentos para justificar uma incompetência no trato com a arte, muito pelo contrário, ela soube com maestria usar isso em seu favor naquele ambiente….Sem dúvidas, essa pessoa entendeu o que é a capoeira.

Por outro lado temos sido bombardeados por uma série de iniciativas que nos convocam a um sentido contrário de trato com o potencial dessa diversidade, pois não é estranho que possamos nos deparar com uma chamada de evento…”Encontro de mulheres, negras e angoleiras”….Parece piada, mas é verdade, pois isso lamentavelmente existe, e se não bastasse, também é possível encontrar chamadas como…”Encontro de marxista da capoeira “, ou “Encontro de capoeira gospel”, ou seja, salvo melhor juízo, isso me parece uma tentativa de reinvenção do “negócio” capoeira.

Não desejo fazer uma escrita ingênua que desconsidera a estratégia antiga dos movimentos sociais , em se reunir por afinidades de luta para congregar com o “todo”, mas o problema é que essa tal congregação com o “todo” não chega, pois não é bom para o “negocio”.

Como é possível transformar o “todo” na segregação das “partes” menos favorecidas? É realmente uma estratégia de militância ou apenas mais forma de marketing de um novo/velho “negócio”?

Na verdade a complemetariedade dos diferentes é a força motriz da arte capoeira, e qualquer coisa fora disso, pode atentar contra este princípio estrutural.

Precisamos parar de repelir, excluir o diferente que incomoda, ao passo que, com generosidade intelectual, possamos ter a humildade de reconhecer que juntos somos melhores.

Entre o que acalanta meu ego e o que me tira da “zona de conforto”, optei pelo enfrentamento dialógico, e tenho colhido esse plantio, hora com coisas boas e hora com coisas terríveis para mim, mas pagando o preço pela possibilidade/realidade de contribuir com a arte capoeira.
Vamos lá!!! Vamos expandir a mente para além do “espelho de narciso”?

 

Axé
Mestre Jean Pangolin

Capoeira de “Vênus”: Sentir o “feminino” não fere minha parte masculina

Capoeira de “Vênus”: Sentir o “feminino” não fere minha parte masculina

O espelho de Vênus é um círculo com uma cruz embaixo e é o símbolo astrológico do planeta Vênus. Este símbolo tem sua origem na mitologia grega, sendo o círculo apoiado na cruz a representação do espelho da deusa Afrodite (Vênus, na mitologia romana).

Nossa intenção nesta escrita é ponderar sobre alguns dos desafios da mulher na capoeira, considerando o “olhar” possivelmente contaminado pelo machismo estrutural que me assola cotidianamente, e também por isso, antecipadamente peço perdão pela fragilidade reflexiva dos parágrafos que seguem.

Ao longo de vinte anos pude conviver de perto com a experiência formativa de diversas mulheres, em particular daquela que se tornou minha companheira e mãe de meus filhos. Assim, mesmo com esse histórico, reafirmo que essa reflexão não pode ser tomada como verdade absoluta sobre as mulheres, pois se nem Freud conseguiu desvendar seus mistérios, eu não tenho a pretensão de faze-lo…..rsrsrsrsrs….Brincadeira, pois o texto de Freud reproduz o machismo da época, e, salvo melhor juízo, não expressa o que de fato as mulheres desejam.

Eu lembro que todos os desafios enfrentados na capoeira, quando se tratava da mulher, tinha sempre um plus, pois, meu foco era o jogo, o toque, o canto, a filosofia, já para ela, além desta demanda, vinha toda a carga cotidiana do machismo impregnado em homens e mulheres na capoeira, ou seja, o cara “roçando” na fila para jogar, a bateria inacessível mesmo tocando melhor que o homem, o jogo sempre na premissa de aceitação do julgo pela imposição da força física, mesmo jogando com outra companheira, a fala interrompida e/ou atropelada por alguém que só queria dizer quem “manda no pedaço”, dentre outras coisas.

Lembro de uma roda no interior da Bahia em que um capoeira, depois de superado no jogo, no canto e no toque, desafia a mulher verbalmente, afirmando…”Você deve procurar um tanque de roupa suja pra lavar”….Naquele momento eu só pensei em silenciar o rapaz no jogo, mas hoje penso que essa atitude não ajudaria a mudar a “cena” de respeito a mulher na capoeira, e sim fortaleceria o “lugar” de que elas sempre precisam da tutela protetiva masculina.

O exemplo acima nos aponta o quão nocivo pode ser quando um Mestre diz…”agora é só roda de mulheres” , ou “quero uma bateria só de mulheres”, ou “no meu evento teremos um momento só de mulheres”….”Na mesa da atividade tem que ter mulher pra ninguém falar mal”. Assim, o homem, do alto de seu lugar de poder, resolver ceder o espaço ao ser “inferior” mulher, que só tem “lugar”, graças a benevolência masculina….Que absurdo!…As vezes me sinto em um mundo bizarro, fortalecido por homens e mulheres em busca apenas de espaços de poder….E a capoeira como fica?

Outro dia me disseram que o caminho esta na garantia de direitos iguais para as mulheres, e eu particularmente sou terminantemente contra, pois direitos iguais para “desiguais” é o ato mais perverso de todos, pois pressupõe realidades/vidas iguais, e isso não condiz com o trato da diversidade, pois a água que pode matar a sede, também pode afogar, sendo a diferença de cada situação a condição da eficácia em favor de cada necessidade, ou seja, a igualdade na oferta de água a duas pessoas diferentes, desconsiderando as características individuais das mesmas e as circunstâncias de cada para receber a água, poderá tanto fazer mal como bem.

Prefiro crer que as mulheres precisam de equidade, que é a adaptação da regra a um caso específico, a fim de deixá-la mais justa.

Tenho sido um crítico ferrenho da incompetência na formação em capoeira de algumas mulheres, mas preciso ter o bom senso de reconhecer que todos temos responsabilidade nisso, pois já imaginou culparmos o “povo preto” por sua dificuldade cotidiana em busca de justiça social, desconsiderando toda a dívida histórica pelo processo de escravização?

Cantar, tocar, jogar e entender o ritual é obrigação basilar dos/as capoeiras, mas é importante equidade no “olhar”, sem contudo, transformar a mulher capoeira em uma espécie de “sub categoria” mal sucedida.

O que tenho percebido, em situações difíceis, é que sempre tentamos “jogar a sujeira para baixo do tapete”, transformando o outro/diferente em carrasco de nossa dor para aliviar nossa consciência de culpa, ou seja, tudo será sempre responsabilidade do “bicho homem”. Assim, mesmo reconhecendo todas as limitações, penso que existe um outro caminho, o da percepção de que juntos, homens e mulheres, podemos fazer uma capoeira diferente e melhor.

É preciso que possamos avançar para além do discurso que enviesa a luta e mascara a opressão, por exemplo, pagando profissionalmente o justo pela participação feminina em eventos, qualificando-as pela capoeira e não pelo decote da roupa e/ou suas curvas, escutando-as com os ouvidos da “alma”, auxiliando e se permitindo aprender pelo signo da diferença, enfim, nos permitindo “capoeirar” com elas.

 

Eiiii mulher..Psiu!
Nos ensina e ser/fazer diferente….

Axé.:

Capoeira Fake: A diferença entre o “real” e o exposto nas redes sociais

Capoeira Fake: A diferença entre o “real” e o exposto nas redes sociais

O título “capoeira fake” faz uma alusão ao uso das redes sociais como mecanismo de legitimação pessoal e/ou de ideias, sem a devida sustentação em fatos concretos da realidade, criando uma ilusão e falseando a realidade em função de algum objetivo.

As ditas “fake news” são informações mentirosas publicadas em redes sociais como se fossem informações reais. Desta forma, esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo.

Em capoeira, o uso das redes sociais, funciona como uma faca de dois gumes, pois potencializa informações importantes e com grande alcance, mas também tem servido ao propósito difamatório, de pessoas e instituições, bem como a auto-promoção de anônimos/as que não produzem absolutamente NADA para a capoeira.

Atualmente eventos esvaziados ficam cheios pela simples manipulação do ângulo da imagem, fotografias antigas são “clonadas” com imagens recentes, vídeos são editados em função de “vender” uma ideia, dentre outras, e se não bastasse isso, ainda temos uma “cena” favorável, pois uma grande parcela da comunidade de capoeira carece do senso crítico necessário para separar o “joio do trigo”.

Na internet “covardes” ficam valentes, preguiçosos/as se transformam em grandes trabalhadores/as da arte capoeira e falsas ideias são difundidas como a “descoberta da roda”….Muito triste, mas essa realidade faseada tem sido a camuflagem de um exército de pessoas de má fé, manipulando a “consciência ingênua” das pessoas menos favorecidas…..Acordaaaaa capoeira!!!!

O problema esta nas redes sociais? Não, pois estas são apenas o veículo, considerando que o real problema é a índole e intenção daquelas pessoas que produzem a informação.

Como atenuar esse problema? Duvidando de tudo que acessamos e nos colocando como investigadores incansáveis da “verdade”…..Veja como pode ser simples….Imaginem uma situação fictícia…..Xícara sem alça desafiou Mestre “x” pelo Whatsapp, mas quando encontrou o referido Mestre em uma roda, colocou o “rabinho entre as pernas”….rsrsrsrsrs…..Valentão fake….
Xícara sem alça disse que a capoeira é africana, mas quando você foi estudar, percebeu que isso não é possível…Aí você, inteligente, faz a conexão entre o dito sobre a capoeira africana e as intenções escusas para ampliar o “negocio” de Xícara….rsrsrs

O mais importante desta nossa reflexão é que possamos entender que o mundo da capoeira não é uma ilha, portanto estará sempre susceptível as mazelas comuns da natureza humana, sendo importante sempre perceber o “contexto de cada texto”.

O crivo que tenho utilizado é sempre a própria capoeira, ou seja, o referido Xícara sem alça canta? Toca? Joga? Tem trabalho com discípulos? Conhece o fundamento? Tem serviços prestados à capoeira? Porque, para mim, fora disso será sempre uma pessoa “capoeira fake”….Como se diz aqui na minha terra ….”Bunda de caruru”….rsrsrsrs.

Meu povo…! Vamos tentar nos transformar, sendo a mudança que sonhamos para o mundo, pois o “bonde” da história tá passando e nos julgando….

Eu já ponguei no tal bonde, e você????

Axé.

Entre a Capoeira Referenciada e a Copiada

Entre a Capoeira Referenciada e a Copiada

O dias atuais tem nos convocado a pensarmos de forma mais ampliada, considerando o rompimento com alguns modelos e dogmas sociais, sendo a capoeira palco também desta demanda. Assim, tentarei tratar um pouco sobre o desafio de se romper o molde de protótipo de “super capoeira” da atualidade.

A economia de mercado tem “coisificado” pessoas, transformando-as em engrenagens de um famigerado negócio em favor do lucro a qualquer preço, e em capoeira temos isso expresso, dentre as muitas maneiras, na forma que nos movimentamos no jogo.

Geralmente o modelo de “sucesso” econômico em capoeira é aquele mais adequado ao que o “mercado” quer ver, e isso esta tão impregnado nos praticantes, que a maioria nem se percebe fazendo movimentos e expressões completamente desconectados da dinâmica cultural da arte, e/ou alheio ao que se pede no ritual daquele momento.

Certa feita perguntei a um destes “super capoeira” do momento, por que ele durante o jogo fazia uma parada de mãos, arqueando a coluna e olhando para o chão? …Ele respondeu que fazia isso porque era um movimento difícil e esteticamente bonito….Eu, por curiosidade, perguntei…E se o cara que tá jogando com você te der uma cabeçada?….Ele respondeu….”Aí ele está sendo desleal, pois é o momento do floreio …..Agradeci o diálogo e fui embora….No outro dia, após a oficina deste rapaz, estavam todos tentando fazer o mesmo movimento….E aí, o que dizer?

Entendi que imitar evita pensar muito, pois basta copiar, contudo, a capoeira nem sempre segue o ordenamento bonitinho….rsrsrs…..Na primeira festa de largo destes capoeiras cópias, eles entenderam que “calça de homem não cabe em menino”….E o pior é que muitos não entenderam até hoje o que aconteceu…

Qualquer movimento é benvindo em capoeira, desde que o “texto/jogo” respeite o “contexto/ritual”, pois fora disso, irá facilitar muito a vida de quem joga com essas figuras, pois viu um copiador, já viu todos.

Nossa reivindicação é em favor de termos uma capoeira com referência, em que a forma de jogo, lembra alguém que me inspira, e não o que temos visto hoje, uma total perda de identidade.

O esporte capoeira me preocupa, pois a depender do formato, poderá enquadrar, rotular e pasteurizar a dinâmica de jogo, e se assim for, a capoeira vai “chorar” e se esvair do corpo de quem a prática.

O mistério da capoeira é o “velho no novo”/ancestralidade, e o espírito “novo no velho”, com capacidade adaptativa temporal para continuar contribuindo com a arte , reinventando-se sempre que necessário.

Vem comigo, pois sozinho não consigo…Vamos na “forma” sem forma, no jogo que deixa fluir o inusitado e faz brotar a capoeira de “dentro pra fora”.

Axé.

Responsabilidades formativas em capoeira: O “freio de arrumação” na “casa de mãe joana”

Responsabilidades formativas em capoeira: O “freio de arrumação” na “casa de mãe joana”

Os ditos populares do subtítulo fazem referência a organização abrupta (freio de arrumação) de algo desorganizado (casa de mãe Joana). Neste sentido, seguiremos fazendo uma reflexão sobre as responsabilidades dos envolvidos no processo formativo em capoeira.

O Mestre será sempre o principal responsável pela formação de seus discípulos, mesmo que devamos considerar a coparticipação de outros agentes nesse processo, incluindo o próprio discípulo.

Quando um Mestre atribui uma titulação a alguém em capoeira, ele empresta “valor” a um dado processo formativo, que invariavelmente influência a comunidade para além dos limites da instituição que os envolvidos diretamente fazem parte, ou seja, graduar/reconhecer alguém em capoeira é como o cometa, ele passará, mas sempre deixa um rastro com seu “rabo”.

Esse papo de autonomia na formação é extremamente perigoso, pois cria a falsa ideia de que ações individuais não podem ser também parametrizadas pelo coletivo, como se uma pessoa pudesse sair atirando livremente nas ruas por conta do respeito à sua autonomia decisória.

As motivações para se graduar alguém em capoeira são as mais variadas possíveis….o Mestre precisa de grana….o Mestre quer demonstrar poder….o Mestre quer expandir seu “negócio”….o Mestre quer fazer uma “moral” com quem gradua….sei lá.. São tantas aberrações que chega a ser constrangedor descrever aqui. Desta forma, muitas vezes, a intenção primeira do processo formativo, desenvolver a capoeira, fica ofuscada pelos delírios de um Mestre “confuso”.

Qual a justificativa para se graduar alguém afastado da capoeira? Como é possível alguém chegar a mestria sem ter serviços prestados à capoeira? É legítima uma titulação “na tora”, apenas pela vontade de quem gradua?

Uma analogia interessante é quando imaginamos um tocador de piano clássico que não sabe afinar o próprio instrumento….”estranho”, mas na capoeira é possível ver alguém chegar a mestria sem saber nem armar um berimbau, pois para esse indivíduo, afina-lo seria uma espécie de “luxo pedagogico”…Onde vamos parar nessa “casa de mãe Joana”?

E se não bastasse o equívoco de agentes diretos envolvidos neste absurdo, ainda temos uma comunidade que tolera, aplaude de frente, e fofoca pelas costas destes Mestre atrapalhados, sendo o mais grave de tudo isso, que todos sabem, pelos códigos simbólicos culturais, quem tem “nome” e quem tem “apelido”.

Em alusão ao “mito da caverna” de Platão, penso que é preciso fazermos um pacto pela capoeira, sendo justos conosco e com o coletivo, convocando as pessoas que se enquadram nessa absoluta obscuridade, a sair da zona de conforto e buscar a “luz” fora da “caverna”/Mestre/grupo.

Se liga, pois quem é de grupo não cai em “grupo”.

Axé!

Capoeira: A leitura do “todo” pela análise da “parte”

Capoeira: A leitura do “todo” pela análise da “parte”

O século XXI nos imprime uma serie de releituras sobre alguns papeis sociais, dentre estes, destacamos a figura do facilitador em capoeira, considerando que este constantemente está sendo resinificado pelas demandas da conjuntura atual.

A mestria, em tese, deveria ser um ato sublime, pois pressupõe a possibilidade de difusão do conhecimento e consequente continuidade de uma arte ancestral, contudo, nem sempre tem sido assim, pois a figura do mediador em capoeira parece corroída pelas contradições da exploração do homem pelo homem. Assim, temos visto em muitos lugares uma relativa confusão sobre as reais implicações formativas de um processo de ensino aprendizagem capitaneado por alguém que não se coloca a serviço dos interesses da capoeira e sua comunidade.

Hoje, são frequentes as reuniões de pessoas que buscam, mediante objetivos comuns, a criação de espaços de poder que funcionam como uma espécie de “escudo das incompetências”, ou seja, são encontros sectáristas de um dado segmento do segmentos, que excluem a possibilidade de diálogo com a diversidade que compõe a comunidade, em favor do argumento de empoderamento dos membros reunidos e afins. Neste sentido, se este processo fosse apenas uma estratégia de fluxo provisório, mesmo estando em desencontro com a lógica inclusiva da capoeira, seria menos mal, mas o que estamos observando é uma avalanche de eventos propondo discussões fragmentadas, que enfraquecem a força coletiva de uma comunidade que clama por dias melhores.

Na formação em capoeira cabe ao mestre a responsabilidade de guiar os mais novos no processo educativo, mas muitas vezes, estes preferem ficar à margem dos espaços decisórios, ampliando o espaço para os “grupinhos”, que habilmente sabem usar o discurso para criar uma falsa ideia de que estão ali para defender os interesses do coletivo, contudo, sabemos que na realidade só estão preocupados com seu próprio “umbigo”.

Obviamente todos os temas emergentes na sociedade podem e devem ser abordados como estratégia formativa, mas daí a submeter a comunidade a dita “polêmica do minuto” apenas como forma de aparecer, denota um procedimento egoísta e pouco producente para a arte.

Os eventos, aglutinações, grupos, dentre outros, deveriam sempre estar focados nos interesses da comunidade e sua melhoria, mas as disputas de poder ofuscam o bom senso e levam pessoas esclarecidas ao equívoco de confundir a leitura da “parte” como resposta para os desafios do “todo”.

Vamos refletir sobre o que desejamos e como agimos para atingir os objetivos, pois muitas vezes falamos uma coisa e executamos ações contrarias a intenção daquilo que expressamos.

 

Por: Mestre Jean pangolin

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que num dado momento, a tua fala seja a tua prática. Paulo Freire A reflexão vale para todas as pessoas que desejam, no âmbito da capoeira, reconhecimento público de sua comunidade, pois o século XXI tem nos apresentado a armadilha do(a) capoeira “fake”, ou seja, aquilo que só parece ser, mas de fato não é absolutamente nada.

Neste sentido, propomos um diálogo sobre este tema nestas breves palavras. A capoeira, por ser uma arte iniciática, prima pelo conhecimento adquirido da experiência vivida, ou seja, o saber emerge de uma labuta cotidiana com o “fazer”, e deste “fazer”, criamos as condições para brotar, via reflexão, um dado conhecimento sobre aspectos da natureza humana, correlatos metaforicamente com as demandas sociais de cada tempo histórico.

O reconhecimento público na capoeira vem do transito de seus adeptos no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com a arte, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros, portanto, não é possível avançar na arte sem a garantia destes aprendizados basilares. Atualmente, com relativa frequência, temos sido bombardeados por uma série de discussões de interesse social vinculadas a capoeira, e isso é muito interessante, contudo, o discurso engajado por si só não é suficiente para garantia de reconhecimento público dos(as) capoeiras, ou seja, não se deve confundir os conhecimentos específicos da capoeira com o exercício crítico da cidadania. Se você defende uma prática religiosa qualquer, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende a difusão do conhecimento pela escrita, isso é valido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende o conhecimento intelectual, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o empoderamento feminino, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois vivemos em uma sociedade desigual e a discussão de gênero carece de aprofundamento, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende um projeto político ideológico, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois a politização de nossa comunidade é um importante exercício de cidadania, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o acesso à educação formal e possui títulos acadêmicos, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois nos possibilita “abrir” novas portas e um diálogo com outros espaços sociais, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Em suma, não plante abacaxi e espere colher banana, pois o reconhecimento da capoeira só chegará para aqueles que realmente possuem “serviços prestados a arte”, no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com novos aprendizes, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros.

Desta forma, salvo melhor juízo, a maneira mais qualificada para exercício da cidadania a partir da capoeira, é entrelaçando as “bandeiras de lutas sociais” e o ativismo social a um berimbau bem tocado, a uma cantiga bem cantada, a um jogo cadenciado e referenciado nos antigos, a um conhecimento da ritualística, e acima de tudo, ao exercício constante do “fazer pedagógico” com seus discípulos em seu espaço de capoeira. Dedico esta reflexão em homenagem e gratidão ao Mestre Ferreira, meu amigo, meu mestre e minha inspiração.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

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