Blog

Papoeira

Vendo Artigos de: Papoeira (categoria)

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que num dado momento, a tua fala seja a tua prática. Paulo Freire A reflexão vale para todas as pessoas que desejam, no âmbito da capoeira, reconhecimento público de sua comunidade, pois o século XXI tem nos apresentado a armadilha do(a) capoeira “fake”, ou seja, aquilo que só parece ser, mas de fato não é absolutamente nada.

Neste sentido, propomos um diálogo sobre este tema nestas breves palavras. A capoeira, por ser uma arte iniciática, prima pelo conhecimento adquirido da experiência vivida, ou seja, o saber emerge de uma labuta cotidiana com o “fazer”, e deste “fazer”, criamos as condições para brotar, via reflexão, um dado conhecimento sobre aspectos da natureza humana, correlatos metaforicamente com as demandas sociais de cada tempo histórico.

O reconhecimento público na capoeira vem do transito de seus adeptos no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com a arte, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros, portanto, não é possível avançar na arte sem a garantia destes aprendizados basilares. Atualmente, com relativa frequência, temos sido bombardeados por uma série de discussões de interesse social vinculadas a capoeira, e isso é muito interessante, contudo, o discurso engajado por si só não é suficiente para garantia de reconhecimento público dos(as) capoeiras, ou seja, não se deve confundir os conhecimentos específicos da capoeira com o exercício crítico da cidadania. Se você defende uma prática religiosa qualquer, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende a difusão do conhecimento pela escrita, isso é valido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende o conhecimento intelectual, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o empoderamento feminino, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois vivemos em uma sociedade desigual e a discussão de gênero carece de aprofundamento, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende um projeto político ideológico, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois a politização de nossa comunidade é um importante exercício de cidadania, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o acesso à educação formal e possui títulos acadêmicos, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois nos possibilita “abrir” novas portas e um diálogo com outros espaços sociais, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Em suma, não plante abacaxi e espere colher banana, pois o reconhecimento da capoeira só chegará para aqueles que realmente possuem “serviços prestados a arte”, no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com novos aprendizes, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros.

Desta forma, salvo melhor juízo, a maneira mais qualificada para exercício da cidadania a partir da capoeira, é entrelaçando as “bandeiras de lutas sociais” e o ativismo social a um berimbau bem tocado, a uma cantiga bem cantada, a um jogo cadenciado e referenciado nos antigos, a um conhecimento da ritualística, e acima de tudo, ao exercício constante do “fazer pedagógico” com seus discípulos em seu espaço de capoeira. Dedico esta reflexão em homenagem e gratidão ao Mestre Ferreira, meu amigo, meu mestre e minha inspiração.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

Mais sobre: Mestre Jean Pangolin

 

 

A EVOLUÇAO DA CAPOEIRA NO MUNDO

A EVOLUÇAO DA CAPOEIRA NO MUNDO

Caminhos de “esterilização” da arte para “fertilização” do negocio.

O reconhecimento da capoeira na atualidade se depara com seu mais difícil paradigma, pois a mesma precisa conviver com um processo de transformação que, na maioria das vezes, só justifica-se por parâmetros que negligenciam princípios de ancestralidade, oralidade, aprender fazendo, dentre outros, que são encarados por seus praticantes como ultrapassados e/ou utilizados unicamente nos discursos eloqüentes dos “tiranos comandantes” disfarçados de mestres. Neste sentido, nos propomos a refletir sobre algumas questões que tentarão nos aproximar de alternativas para dialogarmos com a tão famigerada “evolução” da capoeira, apelidada em nosso tempo equivocadamente de Capoeira Contemporânea.

Inicialmente quero tratar especificamente da terminologia, que já de inicio apresenta-se erroneamente, pois faz referencia, considerando a grande maioria de capoeiras de senso comum, a um estilo que se distanciaria da Angola e da Regional, propondo uma mescla dos dois estilos anteriores, mesmo convivendo no mesmo período histórico, ou seja, representando uma pretensa evolução técnica e etc. Assim, se desta forma for encarada, seu nome correto talvez devesse ser Capoeira Futuro, Avançada, Espacial….. Sei la…. E não Contemporânea, pois isso representa algo que convive em mesmo período.

Outro ponto contraditório apresenta-se quando definimos esta nova capoeira “moderna” como algo inusitado, futurístico, pois sua própria origem esteve sempre atrelada no discurso de que a mesma foi forjada a luz da Angola e da Regional baiana e sendo assim, o correto seria dizer que a mesma simplesmente tentou juntar o que vivia separado, fato que representaria uma grande incoerência, pois sabemos que quando investigamos a capoeiragem mais detalhadamente e criticamente, percebemos que o trabalho capitaneado por Bimba e por Pastinha possuíam muito mais semelhanças do que diferenças, pois os mesmos foram fruto da historia de um determinado local em um tempo especifico.

Sobre a técnica desta capoeira evoluída, o que temos visto são conseqüências desastrosas, considerando o grande numero de lesões, a violência com pouca belicosidade e ainda as atrocidades com relação à biomecânica dos movimentos, pois estes alem de não respeitarem os limites articulares e fisiológicos, ainda propõem uma pratica completamente distanciada da estética ancestral da capoeira, visto que os capoeiras deste estilo “evoluído” mais se aproximam de ginastas ou acrobatas de circo com pretensões de luta, transformando o jogo em um espetáculo grotesco, pois não conseguem fazer bem nem a ginástica nem tão pouco a luta.

A musicalidade na capoeira tem papel fundamental, pois dela se desencadeia boa parte do processo “ritualístico”, ou seja, é a partir da musicalidade que os movimentos são executados, os instrumentos são tocados e as cantigas entoadas, contudo atualmente nos grupos intitulados de Capoeira Contemporânea, observamos uma linearidade melódica que não contempla as variantes ancestrais africanas, com letras ceifadas de seu conteúdo para reflexão, que já não cumprem tão bem o papel da oralidade e sua documentação da historia humana por contos e cantigas. Assim temos percebido que os instrumentos e as cantigas pouco a pouco tem perdido sua função ritual na roda, pois os praticantes alem de não valorizarem e desenvolverem esta parte do aprendizado, não conseguem decodificar a influencia da musicalidade na pratica, negligenciando o papel fundamental desta no desenvolvimento da roda.

A ladainha não arrepia mais, o cantador não se emociona, as cantigas não tratam do universo simbólico da capoeiragem e ainda a forma de cantar tem sido “plastificada” e embalada para vender, criando um exercito de cantadores “copias de alguém famoso”, e se não bastasse isso, as pessoas ainda não conseguem perceber que o mesmo acontece por toda parte no modo de produção capitalista, pois todos querem parecer com os modelos vendidos pela mídia, idiotizados pela propaganda e aumentando o lucro dos “grupos produto”, como um grande Big Mac vendido na esquina de qualquer grande centro.

Em relação aos aspectos filosóficos, temos nosso maior abismo, basta observar os bonecos de vídeo game que representam os capoeiras, sempre musculosos, com movimentos robóticos, com uma negritude estereotipada, e ainda com golpes previsíveis e não característicos, negando os fundamentos difundidos pelos antigos mestres da Bahia.

Soma-se também a este conflito simbólico uma serie de situações organizacionais nos grupos de capoeira, aproximando-os administrativamente de empresas e distanciando cada vez mais das praticas humanas e necessidades da capoeiragem em sua trajetória, pois os mestres se transformaram em patrões, as rodas em shows, o conhecimento em produto de venda, as pessoas em números de matricula e sua filosofia em trabalhos acadêmicos de pessoas que nunca sujaram as mãos fazendo Au…..

Lamentável, mas esta tem sido a realidade que tenho encontrado em muitas partes do mundo em nossas viagens com a capoeira, e para piorar, se não bastasse tudo isso, tenho percebido, com o passar dos anos, que os poucos cabelos que ainda me restam estão ficando brancos e que a grande parte dos capoeiras acreditam que nossa arte esta em seu curso natural, como se alguma força alienígena controlasse estas mudanças, não sendo necessário refletir sobre as mesmas e só segui-las.

Quero propor com estas palavras, que não são verdades absolutas e sim um desabafo ingênuo de um capoeira da Bahia, que existem sim alternativas e estas estão ao alcance de todos aqueles que investigarem a matriz ancestral da capoeira e seus representantes mais antigos, observando a forma como jogam, sua fala, como lidam com os instrumentos, seus códigos filosóficos e acima de tudo como vivem, mesmo não fazendo parte do espetáculo futurístico da Capoeira Contemporânea.

Sugiro uma busca na década de trinta e seus princípios metodológicos para trato com a Educação Física, pois la encontraremos as bases desta dita capoeira evoluída, comprovando que a mesma não possui nada de moderno e sim uma adaptação mal feita para na atualidade atender as demandas do capital, considerando a dicotomia corpo/mente e o processo de adestramento pelas seqüências de ensino idiotizantes, atrofiando o senso critico e favorecendo o negocio dos mega grupos e seus mestrões.

Mestre Jean Pangolin Portal CapoeiraDespeço-me pedindo força ao Grande Arquiteto do Universo e perdão pela possibilidade de minhas palavras ofenderem camaradas ainda não despertos para as armadilhas desta capoeira mercadorizada, espetacularizada e muito distante das necessidades de aprendizado para evolução da humanidade.

Capoeira e seus Cantadores

CAPOEIRA E SEUS CANTADORES

A musicalidade traz em si um elemento fundamental para o desenvolvimento da capoeira, pois ela será responsável pelo encadeamento ritualístico, pela oralidade na construção do conhecimento, pelo “balanço” do jogo e pela construção simbólica da “atmosfera” da “vadiação”.

A musicalidade nunca será uma simples conseqüência fisiológica da articulação bem sucedida entre cordas vocais, músculos da face e diafragma, pois em capoeira a complementaridade entre os diferentes, articulados em propósito comum para o coletivo, supera qualquer perspectiva ou habilidade individual, transformando o bom cantador naquele que mais motiva o coletivo a cantar junto, muitas vezes ofuscando a própria voz de quem puxa o canto, ou seja, cantador de “verdade” na capoeira não é o que mais aparece, mas o que projeta o conjunto da roda em ritual.

O bom cantador nem sempre é aquele com a voz mais bonita e empostada, nem sempre é o que tem a melhor pronuncia e português correto, nem sempre é o que grita mais alto…..O bom cantador é o que cantando encanta, aquele que consegue captar a magia do momento do jogo, fazendo com que sua cantiga seja o “catalisador” de uma química que eleva os capoeiras a um “transe” coletivo, que de tão especial nos faz sonhar acordado.

Não existe bom jogo sem boa musicalidade, pois a organicidade da roda é um complexo sistema multifacetado, lembrando o corpo humano, em que cada órgão cumpre uma função distinta a favor do funcionamento de todo o sistema para que a vida aconteça. Assim, tão importante quanto o “movimento”, aquilo que o impulsiona, harmoniza e qualifica, também deve ser considerado e exercitado, a cantiga.

È impressionante como Mestre Boca Rica, cantando quase sussurrando, com um único berimbau, se espalhou pelo planeta como um vírus positivo da boa capoeiragem……Impressionante como décadas mais tarde, as gravações de Bimba, Pastinha, Waldemar, Canjiquinha, Camafeu de Oxossi e outros, ainda encantam, mesmo sem todos os recursos tecnológicos atuais.

O maior desafio de um grande cantador em capoeira será sempre conseguir captar o “cheiro do dendê“ em uma roda, sendo simples, singelo e traduzindo na poesia de seu canto os mistérios da arte capoeira. Neste sentido, se você deseja qualificar seu canto, te recomendo que antes de cantar tente ouvir mais, e não ouça qualquer coisa, ouça os sons mais elementares produzidos pela mãe natureza, o ronco do mar, a suavidade das ondas, o fluir da cachoeira, o vento nas arvores, trovões e ate mesmo o pingo da chuva caindo no chão, percebendo que cada som deste esta articulado a um contexto especifico e complexo, sendo seu maior sentido a conexão com o todo.

Por fim, aprenda que a cantiga é também uma forma de doação à arte capoeira, portanto, ser um bom cantador será, acima de tudo, a capacidade de brindar os outros com aquilo que temos de melhor, pois o lamento da ladainha emociona e arrepia o outro, também na medida em que o cantador já chorou e se arrepiou antes, incorporando o sentimento expresso em seu cantar. Desta forma, entenda que viver o momento é mais importante do que o resultado final, portanto, não fique preocupado com o impacto de sua voz na roda, mas tente viver junto com seus pares magia do contexto no milésimo de segundo em que sua cantiga toca a fibra mais tênue do coração de quem te escuta, transformando o momento em único e especial para todos.

Vamos cantar mais com a alma!!!!!!!

Mestre Jean Pangolin Portal Capoeira

Revista Acadêmica GUETO

Revista Acadêmica GUETO, registrada no Centro Brasileiro de ISSN sob o nr. 2319-0752 e com periodicidade de publicação semestral, está sob a responsabilidade editorial do Grupo de Pesquisa GUETO, do Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Vale ressaltar, que esta iniciativa foi consubstanciada como produto da parceria entre a Universidade Federal do Reconcavo da Bahia – UFRB e a Uminho, a partir do Programa de doutoramento em Ciências da Educação, na área de especialidades em Desenvolvimento Curricular, no Centro de Investigação em Estudos da Criança, em pesquisa desenvolvida pelo Prof. Jean Adriano Barros da Silva, sob a orientação da Profª Drª Isabel Maria da Torre Carvalho Viana.

O seu principal objetivo é publicar artigos, ensaios, debates, entrevistas e resenhas  inéditos em  qualquer língua sobre temas que contribuam para o desenvolvimento do debate educacional, bem como para a divulgação do conhecimento produzido na área, considerando as perspectivas da Inclusão e Cultura Corporal.

É dirigida  a pesquisadores, profissionais e alunos da Educação. A sua organização nas seções propostas permite a publicação de materiais sob diferentes formatos e naturezas. Os textos em outros idiomas, exceto o Espanhol, poderão ser traduzidos e apresentados na mesma edição.

Revista Acadêmica GUETO Capoeira Portal Capoeira

 

 

Editor Chefe – Prof. Dr. Jean Adriano Barros da Silva – http://lattes.cnpq.br/4808864760751921

Professor assistente e pesquisador do Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, UFRB. Possui graduação em licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal da Bahia (2001), especialista em educação física escolar (2003), mestre de capoeira e mestrado em educação pela Universidade Federal da Bahia (2008). Doutor em Ciências da Educação pela Uminho – PT (2017). Coordenador do Grupo de Pesquisa Gueto/UFRB e coordenador do Projeto de Extensão Balaio de Gato – UFRB. Atualmente é presidente – cargo não remunerado da Associação Cultural Grupo Unido para Educação e Trabalhos de Orientação. Tem experiência na área de educação, com ênfase em educação inclusiva, atuando principalmente nos seguintes temas: capoeira, cultura corporal humana, estagio supervisionado em educação física e deficiência visual.

Profª Dra. Anália de Jesus Moreira – http://lattes.cnpq.br/1045272167785063

Professora assistente do centro de formação de professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, UFRB. Doutora em educação (FACED/UFBA), mestrado em educação (FACED/UFBA). Doutoranda em educação no mesmo ppg na linha de pesquisa educação, cultura corporal e lazer. Licenciatura plena em educação física na universidade católica do salvador (UCSAL). Especialização em metodologia da educação física e esporte escolar (UNEB).

Prof. Dr. Emanoel Luís Roque Soares – http://lattes.cnpq.br/3011122221613108

Professor de Filosofia da Educação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Formação de Professores, Amargosa -BA, doutor em Educação (2008) Universidade Federal do Ceará/FACED. Mestre em Educação (2004) Universidade Federal da Bahia/FACED, Especialista em Estética, Semiótica, Cultura e Educação (2001): Universidade Federal da Bahia/FACED. Bacharel em Filosofia (1999): Universidade Católica do Salvador.

 

Ms. Carolina Gusmão Magalhães – http://lattes.cnpq.br/3303183194939389

Mestrado em Ciencias Sociais Aplicadas | ADM l UFBA, Bacharel em Nutrição pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB (2004), Especialista em Metodologia do Ensino Superior (UNEB/2005) e em metodologia de ensino da Educação Física Escolar (FAVIC/2005). Graduanda em Licenciatura em Educação Física (UFRB), bem como integrante do Grupo de Pesquisa G.U.E.T.O. (UFRB). Possui grande experiência em Nutrição Clínica e em Saúde Coletiva – desde 2004, e em docência – desde 1996, conferencista internacional (COL, ARG, ECU, ESP, FRA, POR, MOZ e JAP) e como nutricionista e gestora social voluntaria da Associação Cultural Grupo Unido para Educação e Trabalhos de Orientação. Tem experiência na área de Nutrição Clínica, Saúde Coletiva, Educação Nutricional, Gestão Social e Cultural, com ênfase no ensino de práticas da cultura popular afro-brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, nutrição clínica, capoeira, gestão social e capacitação.

 

Conselho Científico e Comissões Pareceristas

O Conselho Científico da Revista Acadêmica GUETO é composto por professores doutores ou doutorandos de IES que pesquisem as temáticas preferenciais desta revista: cultura, corpo, educação, artes, linguagens, saúde, inclusão social, capoeira, diversidade, memória, identidade, territorialidades, sociedades e Lutas.

 

Comissão de editoração gráfica e eletrônica

A esta comissão cabe a editoração gráfica e eletrônica da revista, garantindo sua qualidade visual, respeitando o projeto original e as determinações do Conselho Editorial. Funcionará sob a presidência de um docente capacitado para tanto.

Ver mais:

 https://www2.ufrb.edu.br/revistaacademicagueto/conselho-cientifico 

https://www.facebook.com/jean.pangolin

Capoeira Angola e Regional

CAPOEIRA ANGOLA E REGIONAL

Fugindo da aparência e ressaltando a essência.

 

O diálogo que propomos aqui faz referência ao universo das aparências no mundo da capoeira, ou seja, queremos tratar sobre os equívocos em relação à tradição herdada da obra de Bimba e Pastinha, que vez ou outra, são citadas como forma de justificarem ou validarem práticas que em muito se distanciam da realidade dos estilos desenvolvidos no processo histórico da capoeiragem.

Iniciaremos abordando um pouco sobre o conceito de “Tradição em Capoeira”, pois este tem sido mal compreendido e utilizado de forma errônea para validar posturas que em nada se relacionam com os ensinamentos básicos da arte. Neste sentido, precisamos entender que a tradição não pode ser encarada como algo imutável e/ou verdade única, pois sempre estará se desenvolvendo como fruto de cada tempo histórico e suas necessidades. Assim, em se tratando da capoeira, a grande maioria das coisas que chamamos de tradição atualmente foi inventada por volta da década de trinta, fato que comprova a mutabilidade do tradicional, contudo, não podemos negligenciar o valor destas transformações, ainda que recentes, para justificar inovações atuais incoerentes com os princípios capoeiristicos, pois aí estaríamos cada vez mais nos distanciando do potencial educativo simbólico de nossa arte.

Grupos intitulados atualmente de Angola ou Regional, tem apresentado um disparate metodológico e de fundamentos, quando investigamos a matriz do estilo que se dizem defensores, pois estes tentam fundamentar suas práticas em uma simbologia superficial e negligenciam princípios fundamentais das escolas tradicionais, ou seja, temos observado situações absurdas que estão paulatinamente confundindo os mais jovens e ainda criando paradigmas e verdades absolutas que em nada se relacionam com os trabalhos de Bimba, Pastinha e outros antigos mestres.

bimba_cocada_2

No caso da Regional, temos observado a redução deste estilo a simples utilização das seqüências, da bateria com um berimbau médio e dois pandeiros surdos, balões, uso da marca alusiva ao signo de Salomão numa camisa e principalmente ao “abuso” em relação aos ensinamentos de Bimba e outros fatores, fato que consideramos lamentável, pois não vemos os mesmos grupos preocupados em desenvolver os laços afetivos entre seus membros da mesma forma fraterna e respeitosa da tradição Regional, sendo seus praticantes apenas “peças” da engrenagem de negócio no mundo atual. Os capoeiristas desta “New Regional” esquecem de investigar a sistematização do estilo e a relevância oral dos mais antigos que fizeram parte da convivência para construção deste processo, desconsiderando que cada símbolo estrutural da Regional só ganhará sentido se considerado num determinado contexto e quando associado a todo o conjunto da obra, ou seja, usar a bateria não basta, usar as seqüências não basta, falar de Bimba todo o tempo não basta, pois a verdadeira forma de revitalizar seu legado seria, em minha humilde opinião, considerar toda a complexidade daquilo que não está descrito no manual da Luta Regional Baiana e sim na subjetividade das relações sociais dos praticantes e nos fundamentos iniciáticos dos ancestrais mantidos por Manoel dos Reis Machado.

Na Angola, o processo não está muito diferente da Regional, pois se vestir amarelo e preto, mesmo sem saber de onde vêm estas cores, jogar de forma acrobática e sem gingar muito, cantar de forma difícil de decifrar a letra e ainda ficar com trejeitos exóticos com “caras e bocas”, talvez só assim você seja considerado um “New Angoleiro” e possa vender o seu “produto” para alguém alienado por sua propaganda falaciosa. Absurdo, mas este tem sido o retrato da Angola no mundo, salvo os grupos sérios existentes e seus grandes mestres, que na maioria das vezes não estão no circuito internacional espetacularizado dos mega grupos.

velhos-mestre-ceca

Alguns grupos de angola, tem se comportado metodologicamente, como aqueles ditos “contemporâneos”, espetacularizando à prática, mercadorizando as vivências sob a forma de seqüências, que de tempos em tempos são modificadas como uma aeróbica na academia de ginástica, garantindo aos mestres/mercado o dinheiro do circuito internacional. Assim, pouco a pouco, a arte capoeira tem perdido lugar para uma prática “DENOREX”, ou seja, aquilo que parece ser e não aquilo que de fato representa, pois hoje existe uma “indústria” estereotipada de modelos de mestres e praticantes, que tem transformado tudo e todos em algo possível de ser consumido, desvalorizando, o aprender-fazendo, o respeito, a diversidade e a valorização do Ritmo, Respeito e Ritual como princípios geradores da vadiagem.

Queremos ressaltar que nossa intenção não se articula com a depreciação da capoeira Angola e Regional, mais sim pela reafirmação da beleza e contribuição destes estilos para capoeiragem, pois acreditamos que o potencial simbólico da capoeira tem sido negligenciado pelas armadilhas da busca desenfreada por notoriedade e concorrência de mercado de grupos perdidos/encontrados na total obscuridade das perspectivas transformadoras para um mundo mais crítico, criativo e autônomo.

Acreditamos que existem sim possibilidades a luz dos mais antigos e da obra dos que já se foram deste plano de existência, pois trabalhos como da FUMEB, do Mestre João Pequeno, Lua de Bobo e muitos outros, ainda representam um repositório dos fundamentos de nossa arte e neste sentido convocamos toda comunidade para um pensamento crítico e investigativo sobre as “verdades” da capoeira e seus falsos detentores, os quais lamentavelmente têm se multiplicado pelo mundo, considerando principalmente nossa inércia subserviente e desinformação sobre os princípios da capoeiragem na Bahia.

A “volta ao mundo” em capoeira

A “volta ao mundo” em capoeira

 

Dentre as diversas facetas do jogo da capoeira, à volta ao mundo talvez seja uma das mais emblemáticas, pois articula a convergência do imaterial com o plano material, ou, para os mais céticos desportistas, simplesmente representa um momento de reoxigenação muscular para quebra da Adenosina Trifosfato (ATP). Assim, de qualquer forma, este momento do ritual poderá ser determinante nos processos estratégicos constitutivos dos pares na disputa em roda.

É importante considerar que a capoeira possui uma matriz eminentemente afrodescendente, desta forma, diversos elementos simbólicos ritualísticos são oriundos de uma determinada matriz de leitura da realidade, portanto, muitos aspectos similares são perceptíveis nas práticas culturais do negro em território brasileiro.

A volta ao mundo em capoeira é perceptível quando em determinado momento do jogo, os capoeiras que hora disputavam a peleja corporalmente, interrompem o processo e circulam em sentido anti-horário pela parte mais extrema da roda. Neste sentido, “capoeiristicamente falando”, isso ocorre por diversos motivos, tais como:

  • Após um ataque perigoso e/ou forte, para acalmar quem atacou;
  • Após um ataque perigoso e/ou forte, para evitar o revide imediato;
  • Para acalmar o jogo;
  • Para pensar estratégias;
  • Para demonstrar conhecimento ritualístico;
  • Para entrar em conexão com o plano espiritual em busca de proteção.

Mesmo constatando uma infinidade de motivações para a volta ao mundo em capoeira, todas possuem um eixo comum, que é o fato das possibilidades se articularem com uma noção subjetiva de reconstrução da realidade, como se houvesse uma alternativa de se voltar no tempo e refazer os fatos já ocorridos.

A perspectiva descrita acima, obviamente, é uma metáfora subjetiva, pois materialmente, apesar dos estudos sobre a relatividade de Albert Einstein, ainda não temos registros oficiais de indivíduos que conseguiram voltar no tempo fisicamente, contudo, na imaterialidade do pensamento afrodescendente, este exercício é realizado constantemente para reavaliarmos atitudes e procedimentos de vida.

Quando estudamos a pratica do candomblé podemos perceber uma forte identidade entre a volta ao mundo da capoeira e o Xirê, que é uma parte do ritual em que o orixá é reverenciado com danças, toques e cantigas, de forma a se criar uma ambiência imaterial que invoque os mesmos a descerem do Orun, palavra que na mitologia Yoruba simboliza o céu ou o mundo espiritual, paralelo ao Aiye, mundo físico. Assim, a ordem mais comum é a passagem do plano material para o espiritual, sendo necessário para inverter esta lógica, no Xirê,, a dança em sentido anti-horário, criando-se a metáfora de `inversão`, fazendo com que o caminho seja feito do plano espiritual para o material.

A vinda do plano espiritual representa um contato com nossa ancestralidade, sendo este capitalizado por um processo ritualístico, mediado por uma circularidade anti-horária, com cantigas e toques percussivos, como em capoeira. Assim, tanto na volta ao mundo como no Xirê, percebemos a metáfora de inversão de lógicas, perdedor – ganhador, Orun – Aiyè, tempo que retrocede, dentre outras. Desta forma, possivelmente não é fruto do acaso tal semelhança, pois a capoeira foi desenvolvida a partir de uma teia cultural eminentemente africana, tendo em sua edificação ritualística diversos entrelaces com o povo negro.

É importante ressaltar que o reconhecimento de elementos comuns com o candomblé não atribui ao capoeira um caráter religioso exclusivo, nem tão pouco vincula sua pratica cotidiana em roda, mas, sem dúvidas, reafirma uma identidade cultural ancestral que precisamos conhecer e reconhecer.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

Em busca do grupo perfeito…

Certa feita uma mãe, que havia sido praticante de capoeira, resolveu sair em busca do grupo ideal para seu filho, logo na primeira esquina percebeu uma academia com grande propaganda de aulas de capoeira. Em sua chegada ao local havia uma escada que dava acesso ao pavimento superior, onde funcionavam as aulas de capoeira. A escada era toda enfeitada com muitas fotos e banners com imagens de homens musculosos sem camisa executando movimentos aéreos, alongados e na maioria das vezes, com expressões faciais simulando raiva ou dor.

A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..    Já no piso superior, a mãe notou que havia uma pessoa dando aula para muitas outras, na sala havia uma musica muito alta e com ritmo acelerado, as pessoas estavam perfiladas, todas de frente para um homem musculoso e com uma roupa cheia de marcas, como um estandarte humano de propaganda. Este homem também conduzia a aula com gritos fortes, palavras de ordem e uma voz intimidadora de grande expressão.  A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..

A mãe, de forma paciente, aguardou o termino da aula e dirigiu-se para falar com o professor, inicialmente a mãe lhe perguntou: Que estilo de capoeira se pratica aqui, pois estou procurando um bom grupo para meu filho? O professor então, com um sorriso largo e simpático, tomou um gole de um isotônico famoso, da mesma marca que estava estampada em seu uniforme e disse: …Aqui nos praticamos a capoeira moderna, uma capoeira mais ágil, forte, bonita e acima de tudo, muito eficiente como luta……   A senhora já ouviu falar em Anderson Silva, campeão do UFC?  Antes da mãe responder o professor continuou: …..Pois então, como estou lhe dizendo, a capoeira hoje já esta ate no vale tudo e aqui nos ensinamos de tudo…. Pode ficar tranquila, aqui seu filho vai aprender a ser homem, pois eu mesmo vou acompanha-lo de perto, ensinando-lhe desde o nosso aperto de mão oficial de nosso grupo ate as melhores técnicas de finalização em situações de jogo mais duro. Aqui com certeza vamos coloca-lo no eixo e ele ainda estará pronto para resolver qualquer situação nas ruas.

A mãe agradeceu ao professor pela explicação e de maneira educada foi se despedindo e se afastando, quando o professor lhe disse: E sobre seu filho, quando a senhora ira traze-lo para fazer a matricula?….Tenha muito cuidado, pois os grupos de capoeira desta região não são bons…O nosso esta mais preparado para atende-la, pois temos muitas filiais espalhadas pelo mundo e eu ainda sou professor de Educação Física…..  A mãe, que já não suportava mais ficar calada, educadamente pediu um minuto de atenção ao professor, sentou-se em um local mais reservado com o mesmo e lhe disse: … Professor, como se chama? Ele respondeu:… Sou conhecido nas rodas como “Xicara sem alça”…   A mãe disse: … Muito prazer senhor Xicara…  Quero lhe agradecer novamente pelas explicações, mas não tenho intenção de matricular meu filho aqui, pois fiquei imaginando como se sente um parafuso torto recebendo marteladas para ficar no eixo….Com certeza, se o parafuso pudesse falar diria ..AI AI…Está doendo, e como meu filho pode falar, iria incomodar muito o senhor com seus gritos…. Sobre a parte da eficiência técnica para luta, penso que não será necessária para ele, pois tenho ensinado para meu filho que a melhor maneira de lidar com os conflitos será sempre o dialogo e por incrível que pareça, aprendi isso com um capoeira chamado Joao Pequeno de Pastinha, mas com certeza o senhor não deve conhece-lo, pois …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira….. A mãe continuou …Gostaria de encontrar um grupo para meu filho que fosse capaz de ensina-lo  a conviver com a diversidade e aqui o senhor me disse que ate o aperto de mão esta padronizado. Quero um grupo em que meu filho possa desenvolver sua individualidade na relação com o coletivo e que acima de tudo SEJA FELIZ…..Quando vi a forma que o senhor ensina, percebi logo que o senhor conhecia uma parte da Educação Física tecnicista, pois também sou professora de Educação Física, contudo, penso que este método adotado aqui não esta de acordo com a ancestralidade da capoeira, pois mata a autonomia e diminui o poder de criatividade e criticidade dos educandos, portanto professor “Xicara”, recomendo ao senhor que estude mais sobre a capoeira e os antigos Mestres e só depois tente verificar, qual corrente metodológica da Educação Física será mais apropriada para cumprir nossa tarefa ancestral com a capoeira.

O professor “Xicara sem alça” ficou em silencio, ainda perplexo com tudo que havia escutado da simples mãe. A mãe despediu-se e com um sorriso feliz, desejou ao professor um bom dia e lhe fez um ultimo pedido. Que buscasse os mais antigos e com eles tentasse entender o significado de SER capoeira, pois o objetivo principal da capoeira, como pratica humana, sempre será levar felicidade aos seus praticantes, independente de estilos e formatações mercadológicas, pois se esta capoeira atual representa a evolução, tenho medo de como será no tempo de meus netos.

A historinha acima, mesmo que de maneira fantasiosa, ilustra bem os conflitos vividos na capoeira nos dias de hoje, assim precisamos ficar atentos para não reforçarmos o “opressor” que vive sendo “gestado” internamente, por conta de nossa formação tradicional, adestradora e comercial.

 

Fraternalmente..

Mestre Jean Pangolin

 

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”
Nemo Nox

Jean Adriano Barros da Silva
www.guetocapoeira.org.br
Tel: 55 71 8109 2550 / 3363 4568 / 3366 4214 
75 9168 7534 / 75 3634 2653
Bahia – Brasil